FRATERNIZAR – Basílica e respectiva Praça DE S. PEDRO OU DE SATANÁS?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

https://youtu.be/WzZ-rqtqxnI

Nestes meses de confinamento imposto pela Covid-19, os espaços mais emblemáticos da igreja católica que mais nos gritam que ela vai nua e está em vias de extinção, pelo menos, como igreja de massas, são a Basílica e a Praça de S. Pedro. Deveriam chamar-se Basílica e Praça de Satanás. E só não são, porque a Cúria romana do papa jesuíta Francisco, mantém-se fiel, no estrutural, à mesma linha dura de Constantino, o imperador de Roma que as mandou construir, na sua qualidade de primeiro papa da igreja católica imperial, com todos os bispos residenciais seus ‘alter ego’ à frente de cada uma das províncias ou dioceses em que o império-igreja então se subdividia. São dois espaços que esmagam quem neles entra, nem que seja sob a capa de ‘turismo religioso’.

O vazio e o silêncio destes dois espaços, impostos pela Covid-19, são dos mais ensurdecedores que a história contemporânea regista. Nunca mais a igreja católica de Roma pode voltar ao de antes dela acontecer. As populações sabem agora por experiência, que vivem bem melhor e são muito mais elas próprias sem frequentarem esses e outros espaços eclesiásticos que antes tinham como imprescindíveis e como de deus. E de deus serão, mas de um deus que se alimenta de quem os frequenta, quando até agora as pessoas foram levadas a pensar que se alimentavam dele. De tão cegas, nem viam que todo o protagonismo era dos clérigos miúdos e graúdos, quando deveria ter sido progressivamente delas e só delas.

Antes desta pandemia que se nos apresentou grávida de luz, todo este meu escrever-falar soava indubitavelmente a blasfemo aos ouvidos dos chamados fiéis, só porque eles, ao contrário de mim, têm continuado a viver com os séculos da Cristandade Ocidental alojados como um demónio nas suas mentes. Mas, como bem revela o meu Livro 50, o chamado ‘S. Pedro’ não passa de um mito criado pelo cristianismo ou messianismo católico imperial. Na sua origem, está um tal Simão, irmão de André, pescadores de profissão na Galileia, contemporâneos de Jesus histórico, mas, ao contrário dele, ambos fanaticamente messiânicos. Aguardavam, como a maioria dos judeus então, a chegada, a qualquer momento, do messias, o filho de David que os libertaria da Opressão imperial e restauraria o reino de Israel. Fundamentavam estas suas estapafúrdias crenças nos Livros dos profetas bíblicos que, nos grandes momentos de depressão nacional, sempre recorriam a esse mito que, levado a sério, acabou sempre em sucessivas carnificinas que a História dos povos, mandada escrever pelos vencedores, regista.

Quando André apresenta seu irmão Simão a Jesus Nazaré, este ‘fixa nele o olhar e diz-lhe, Tu és Simão, o filho/discípulo de João [Baptista]. Passas a chamar-te Cefas, o equivalente a Penedo/Pedra’ (Jo. 2, 42). Mas como vê nele carisma de líder, Jesus arrisca fazer dele o primeiro de um grupo de Doze que tem Judas como último, na esperança de que conseguirá expulsar da mente de todos eles o demónio do messianismo davídico e o correspondente fanatismo político armado. Não conseguiu. E a prova é que, quando mais tarde toma a inabalável decisão de subir a Jerusalém para enfrentar, desarmado, os sumos sacerdotes e demais chefes do judaísmo e mostrar-lhes quanto eles vivem enganados e a enganar as populações, Pedro que continua a ver nele o messias/cristo davídico prometido opõe-se-lhe frontalmente. É então que Jesus o repreende diante dos outros Onze e lhe diz, olhos nos olhos e sem que a voz lhe trema, ‘Sai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens [do Poder]’ (Mc. 8, 33; Mt. 16, 23). A partir daí, os Doze afastam-se progressivamente de Jesus e, chegados a Jerusalém, decidem traí-lo e entregá-lo aos sumos-sacerdotes. Judas assume fazer o trabalho sujo de negociar as contrapartidas da traição e Pedro faz ainda pior. Quando vê Jesus preso e a ser julgado, nega-o por três vezes e garante sob juramento que o não conhece de lado nenhum! E nunca mais volta a estar com Jesus.

De S. Pedro ou de Satanás?! Depois de Cefas, o equivalente a Penedo/Pedra [Pedro], este é o segundo apelido histórico negativo dado por Jesus Nazaré a Simão. Os dois são bem reveladores do seu fanatismo político. Uma realidade que todos os teólogos têm sistematicamente escondido dos povos. Enquanto repetem à exaustão umas palavras apócrifas, postas na boca de Jesus histórico, mas nunca ditas por ele e que só muito mais tarde foram interesseiramente incluídas no Evangelho de Mateus, imediatamente antes das que o apelidam de Satanás. Ei-las; ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra edifico a minha igreja, e as portas do Abismo nada podem contra ela. Dou-te as chaves do reino do céu; tudo o que ligas na terra fica ligado no céu e tudo o que desligas na terra é desligado no céu.’ Pois bem. Em todos estes séculos de Cristandade, a má fé da Cúria romana tem sido total e absoluta. Nunca os seus sucessivos cardeais e papas pensaram que um dia, início do terceiro milénio, aconteceria a Covid-19 que os deixaria a todos completamente nus. Tal como a morte crucificada de Jesus histórico em Abril do ano 30 já deixa completamente nus os sumos-sacerdotes e o templo de Jerusalém. E todos eles, assim nus, mais não são do que os carrascos-mor dos povos.

N. E. Como já é habitual, o JF  suspende a sua publicação nos meses de Julho e Agosto. Contamos regressar sexta-feira, 4 de Setembro, com o início da Edição 160, 2020. Bom descanso, de preferência na Montanha, junto de pequenos rios.

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. José Guerra Tavares

    Cada vez mais convicto que o autor deste texto publicamente se assume como blasfemo. No mínimo só posso considerar que na realidade a sanidade mental encontra por vezes obstáculos intransponíveis na fragilidade do der humano. Um texto que nda acrescenta em termos de fé às preocupações mais profundas do ser humano. Uma pena

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