A GALIZA COMO TAREFA – expetativas – Ernesto V. Souza

Sabem bem as minhas amizades, a força de repeti-lo durante anos em conversas, que uma das minhas teimas vem sendo a de dizer que a trapalheira realidade política espanhola (e incluída nele a dez vezes manhosa, renarte e caciquil galega) foi, será e é um esperpento.

O maravilhoso neologismo com pontinho italianizante e castiço de Valle-Inclán resolve qualquer sucesso e circunstância. Ajusta, podem ver consultando publicações académicas, como luva feita a mão, cada ponto e realidade atual ou histórica; quando menos do século XV até hoje, e resulta quase indispensável para falarmos em termos de analítica histórica, da política e administração espanhola nos séculos XIX e XX.

LDV Celtiga 87 agosto 1928
“Caminho de Compostela”, Lolita Díaz Valinho, gravura em Celtiga, 87, agosto, 1928

Outra das minhas teimas em relação direita ao antes dito, bem por ser causa, consequência ou ambas, como pontos num círculo vicioso que vai aumentando ano a ano o rádio, é a do centralismo madrilenocêntrico como problema, contexto, partida e origem de muitos dos nossos males, pesadelos e labirintos.

Madrid é uma problemática complicada e forçada causado pela perspetiva jacobina na construção do estado espanhol moderno.

A minha tese reiterada para confrontar Madrid e o jacobinismo obsessionada em fazê-la centro, guia, modelo e ponto acumulativo de recursos e população é deixar correr o tempo, que joga a favor, sempre que na Galiza, para além de qualquer política ou ideologia, estejamos preparados para o dia que por próprio peso, catástrofe natural, militar, ecológica ou peste, Madrid vaia ao tacho e com ele paralise o Estado espanhol inteiro.

Madrid é frágil, como se não soubéssemos e estivesse mais que advertido, mas agora fica demonstrado. Bastou uma peste e uma histeria coletiva. Porém a cada vez ocupa mais espaço, tamanho, PIB, população e concentração de poderes políticos, judiciais, administrativos, económicos e culturais. Tanto ocupa, em detrimento dos pulmões e motores alternativos da periferia, que contrariamente a todas e cada uma das vezes que nos séculos anteriores faliu Madrid, agora estes motores alternativos não seriam capazes de fazer andar o Estado.

Nestes momentos de ressaca ao ensaio post-apocalíptico, em que por muito insistirem na propaganda, a realidade continua por livre, com as baterias estragadas e  demonstrando que o problema não era a pandemia, solução improvisada arriba ou abaixo, quanto as estruturas existentes; ambas as teimas parecem perfeitamente vigentes.

As estruturas administrativas, políticas, funcionariais, as instituições, sistema educativos, sanitários, a burocracia, a própria política parece incapaz de entender por ela que está colapsada, desatualizada, sem energia e que são precisas grandes mudanças e não mais remendos.

12 de julho são as eleições ao Parlamento galego. Nunca antes tão evidente fora que o resultado eleitoral e com ele a forma de poder depende das estruturas locais, da militância, da conexão à terra e às gentes dos partidos.

As expetativas são interessantes, num cenário aberto e que vai depender, como sempre dos votantes, de como os tenha apanhado e deixado esta crise e, portanto, da vontade de participação e de mudança.

Esperemos que essa mudança vaia já caminho de Compostela.

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