DA DESTRUIÇÃO DE ESTÁTUAS AOS FOCOS DE INFECÇÃO DA COVID – UMA REFLEXÃO SOBRE AS TRAJECTÓRIAS DA NOSSA JUVENTUDE – IV – SIM, ALGUÉM É CULPADO, por JAMES K. GALBRAITH e ALBENA AZMANOVA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Yes, someone is to blame, por James K. Galbraith e Albena Azmanova

Social Europe, 23 de Junho de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Uma pandemia pode ser representada como um “desastre natural”. Uma depressão global é, contudo, o produto de uma ideologia e de poderosos atores políticos.

Uma crise económica sem precedentes está a abater-se sobre a Europa. Foi a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, que o declarou recentemente no Parlamento Europeu, a pior crise  em tempo de paz.

Nos Estados Unidos, o Banco da Reserva Federal relata a pior quebra  na produção e emprego dos últimos 90 anos. O Banco Mundial adverte que o mundo está no precipício da quebra mais profunda desde 1945 – com cerca de 60 milhões de pessoas empobrecidas, muitas delas em países já pobres.

Lagarde apressou-se a esclarecer que esta vasta tragédia humana não era, na sua opinião, ” culpa de ninguém” – como se uma crise médica pudesse metamorfosear-se numa crise social por si só. A catástrofe é, no entanto, o resultado  das ideias, das políticas e dos políticos.

Máscaras faciais

A ciência permite-nos agora editar o ADN e detetar ondas gravitacionais na curvatura cósmica do tempo espacial. No entanto, na Primavera de 2020, os governos das democracias liberais ricas do Norte global não puderam fornecer as máscaras faciais básicas necessárias aos médicos e enfermeiros para salvar as suas próprias vidas – e as dos outros – a partir do novo coronavírus. Em partes da Toscana, os maiores de 60 anos não podiam ser colocados em ventiladores, em caso de necessidade. .

Nos EUA, os testes foram atamancados, atrasados e ainda não estão disponíveis a pedido. Em França, vastos stocks de equipamento de proteção pessoal, acumulados para a epidemia de H1N1, tinham sido vendidos, ou armazenados   e estragados. No Reino Unido e na Suécia, as autoridades pensaram primeiro em deixar o vírus correr livre, procurando “imunidade do rebanho” ao preço implícito de muitos milhares de mortos.

Estes não foram meros erros ou simples acidentes: foram decisões políticas. Eram consequências de uma ideologia construída ao longo de décadas. Havia pecados de comissão e pecados de omissão – invocar um par de conceitos desenvolvidos por Hannah Arendt – o seu resultado era uma estrutura económica frágil, marcada pela precariedade e preparada para o colapso.

Projeto formidável

Os pecados de omissão vieram primeiro. A partir de finais dos anos 70, os líderes políticos de todo o ocidente embarcaram no formidável projeto que veio a ser conhecido como capitalismo neoliberal. Desregulamentação, descentralização, privatização, orçamentos equilibrados e dinheiro escasso foram elementos-chave do “consenso de Washington” avançado pelas elites nacionais e pelas instituições financeiras internacionais, especialmente o Fundo Monetário Internacional. Os serviços públicos e os programas de bem-estar foram cortados, incluindo despesas críticas para a saúde pública.

Os objetivos iniciais eram quebrar os sindicatos e reduzir a inflação, embora à custa da capacidade da produção de base. Nos anos 90, estes objetivos foram alcançados e dadas as taxas de juro deu-se  lugar a um novo boom de crédito, centrado primeiro na alta tecnologia e, mais tarde, em grande parte no financiamento imobiliário e hipotecário. Entretanto, a indústria transformadora fugiu para a Ásia, nomeadamente para a China, onde foi alimentada e protegida.

A bolha das hipotecas subprime levou à Grande Crise Financeira de 2007-09. Depois disso, em muitos países, o assalto à capacidade do Estado continuou. Os esforços de recuperação a curto prazo deram lugar à austeridade em toda a Europa – sobretudo em Itália, Espanha, França e Grécia – e na América do Norte.

A capacidade de saúde pública sofreu mais um golpe, enquanto a globalização neoliberal fez mais um avanço. O aumento das desigualdades marcou um amplo aumento do stress social: desemprego juvenil, perturbações mentais, suicídios e nos EUA uma epidemia de abuso de opiáceos. O crescimento foi retomado, mas apenas sobre a base frágil de uma dívida ainda mais privada e empresarial.

Equipa desmantelada

Seguiram-se inúmeros pecados de omissão. Em 2017, por exemplo, a Comissão Europeia propôs investir mais fortemente em vacinas, através de uma parceria público-privada chamada Iniciativa de Medicamentos Inovadores. Mas as empresas farmacêuticas opuseram-se e isso não aconteceu.

Os EUA, agora sob a presidência de Donald Trump, desmantelaram uma equipa de resposta pandémica no Conselho de Segurança Nacional e cortaram o financiamento dos Centros de Controlo de Doenças. Numa suprema ironia, a administração retirou os cientistas norte-americanos que atuavam como ligação com o CDC na China.

Lagarde não teve qualquer papel no desenvolvimento da ideia neoliberal. Ela assumiu a proeminência muito depois de os neoliberais terem assumido o controlo nas antigas democracias sociais do Ocidente. Ela está longe de ser a única pessoa numa longa lista de pessoas em falta.

Mas foi Ministra das Finanças de França antes da Grande Crise Financeira e diretora administrativa do FMI durante a brutal austeridade que se seguiu. Como funcionária dedicada a uma ideologia e cúmplice durante décadas nas políticas que conduziram ao desastre, ela ganhou o seu lugar nessa lista.

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Leia este artigo no original clicando em:

https://www.socialeurope.eu/yes-someone-is-to-blame

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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