PALCO 15 – A IMAGINAÇÃO AO PODER – por Roberto Merino

 

Era o que se podia ler nas paredes de Paris, nos idos de maio de 68, os jovens em revolta exigiam a imaginação no poder. Resgatar esta ideia que, em tempos de pandemia global, parece novamente poderosa, mobilizadora e necessária.

Eu, e os da minha geração, somos de uma época de grafitis, “raiados” como lhes chamávamos na altura. Lembro de seguir as últimas duas campanhas eleitorais de Salvador Allende através das pinturais murais que o levaram finalmente à presidência depois de quatro candidaturas a essa magistratura, nos anos de 1962, 1958, 1964 e finalmente 1970. Foi nesse ano que, depois de ter alcançado uma maioria simples com 36,6 % dos votos, viu ser ratificada a sua vitória eleitoral pelo Congresso Nacional, pois no Chile naquela  época não existia uma segunda volta. Desse modo, Allende converteu-se no primeiro presidente marxista  do mundo a aceder ao poder através de eleições gerais num estado latino-americano.

Os mil dias do Presidente Allende foram duros e trágicos, atacado pelo imperialismo norte-americano e os seus aliados europeus. O país foi alvo de ataques sistemáticos para minar a economia nacional. O mais marcante foi o embargo do cobre pelos Estados Unidos, devido à nacionalização das companhias mineiras nacionais.

Nesse momento a palavra de ordem mais pintada era “O Povo Unido Jamais será Vencido”, frase que atravessou fronteiras. Além dos slogans e palavras de ação surgiu o movimento muralista que se espalhou pelo Chile inteiro, do qual se destacou a Brigada Ramona Parra/BRP.

“Las Brigadas Ramona Parra (BRP) son grupos organizados de jóvenes muralistas, cuyo objetivo es plasmar, en diferentes espacios públicos, mensajes relacionados a la ideología política de la izquierda chilena. Poseen una estrecha vinculación al quehacer de las Juventudes Comunistas de Chile (JJCC) y, por extensión, a los lineamientos y propuestas formuladas por el Partido Comunista de Chile”. As Brigadas foram, pois, grupos de propaganda comunista.

As origens das Brigadas são imprecisas. Alguns autores admitem que as suas intervenções começaram antes do ano de 1965. Outros, contudo, afirmam que nasceram em 1968 no VI Congreso de las Juventudes Comunistas de Chile. Por dois motivos:

  • Colocar à vista de todos a sua mensagem ideológica;
  • E como consequência mobilizadora da “Marcha pelo Vietnam”, que em 1969 contou com a participação do milhares de pessoas que foram de Valparaíso a Santiago para exigir a libertação daquele país asiático.
  • A “Marcha pelo Vietnam” foi convocada por um dos fundadores das Brigadas: Danilo Bahamondes, que realizou diversas intervenções gráficas no caminho que une o porto à capital. Assim, graças à marcha e às mensagens gráficas, nasceram brigadas organizadas, em Santiago e em todo o país, que receberam o nome Brigadas Ramona Parra – em tributo a “uma joven militante comunista assassinada durante uma manifestação realizada em Santiago no año de1946.   http://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-100581.html

No tempo de confinamento, e nos breves passeios que consegui dar, apreciei os escritos de rua; Fica em casa, Tudo vai ficar bom, frase que emoldurada sob ou sobre um colorido arco-íris parecia ser entre um abraço e um sorriso… Também uma última que diz assim “O teu sorriso prende mais que algemas”.

Caminhando deu para pensar no arco-íris e a sua simbologia ligada a um final de bonança e/ou fortuna. O arco-íris  (também popularmente denominado arco-da-velha) é um fenômeno óptico/meteorológico  que separa a luz solar  em seu espectro   (aproximadamente) contínuo quando o sol   brilha sobre gotas de chuva.”

Ao que parece tal nome deriva da mitologia grega, onde Íris  era a deusa que exercia a função de arauto ou mensageira divina. “Em sua tarefa de mensageira, a deusa deixava um rastro multicolorido ao atravessar o céu.”

“Cristianismo, islamismo e judaísmo dizem que o arco-íris foi assim designado por Deus como “arco-da-aliança”, pois logo após o Dilúvio quando a Arca de Noé pousou sobre o Monte Ararat, Deus prometeu que nunca mais iria destruir a Terra por meio da água. Mais: depois de cada chuvada o seu arco apareceria nas nuvens e este seria o símbolo da aliança estabelecida entre Deus e toda carne vivente de toda espécie que está sobre a terra e por todas as gerações futuras. (Gênesis 8: 9-17).”

Na literatura infantil contamos sempre que no fim do arco-íris vamos encontrar um pote recheado de moedas de ouro e fortuna, tradição que parece vir de uma lenda irlandesa. Em 1665, enquanto estudava a natureza da luz, Newton descobriu que a luz solar, ao incidir em um prisma, se divide em sete cores; o vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Apesar de  Isaac Newton ser inglês e não irlandês.

A mais bela referência ao arco-íris no cinema está no filme O Feiticeiro de Oz (The Wizard of Oz), filme americano de 1939, baseado no livro infantil de L. Frank Baum. A personagem central,  a menina Dorothy, é capturada por um tornado no Kansas e levada a uma terra fantástica de bruxas, de leões  covardes, de  espantalhos falantes, e  um homem de lata. Interpretado por Judy Garland, é um dos filmes da minha vida. Sendo um filme no qual se alude ao arco-íris, ele começa sendo uma película a preto e branco e com tons em marrom, enquanto as cenas no país de Oz são filmada a plenas cores do Technicolor. É célebre a canção de Judy Garland no filme, (Somewhere) Over the rainbow que podem ouvir mil vezes em https://revistamarieclaire.globo.com/Cultura/noticia/2019/09/over-rainbow-completa-80-anos-com-um-oscar-e-regravacoes-iconicas.html

“Nalgum lugar acima do arco-íris,

Lá em cima

Há um lugar do que ouvi falar

Numa cantiga de embalar…”

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