DA DESTRUIÇÃO DE ESTÁTUAS AOS FOCOS DE INFECÇÃO DA COVID – UMA REFLEXÃO SOBRE AS TRAJECTÓRIAS DA NOSSA JUVENTUDE – COMO A COVID -19 IRÁ MUDAR O MUNDO, por MARTIN WOLF

 

How Covid 19 will change the world, por Martin Wolf

Financial Times, 16 de Junho de 2020

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

© James Ferguson

 

A sociedade que irá emergir será provavelmente ainda menos cooperativa e eficaz

 

Em menos de seis meses, o Covid-19 transformou o mundo. Mas qual poderá ser o seu impacto em última análise? A nossa ignorância a este respeito é bastante abrangente. Mas está longe de ser absoluta. Façamos, pois, um balanço.

O mundo estava, devemos lembrar-nos, muito perturbado mesmo antes da pandemia. Há apenas 12 anos atrás, deu-se a maior crise financeira desde os anos 30 que abalou a economia global. Afetadas pela forma como isso foi tratado, o subsequente mal-estar económico e a perceção de que o capitalismo estava manipulado contra elas, as populações   em vários países de elevado rendimento reagiram muito fortemente.

Esta raiva revelou-se no referendo do Brexit no Reino Unido e na eleição de Donald Trump como presidente dos EUA em 2016. Este último, por sua vez, deslocou os EUA a favor do protecionismo. Esta mudança na visão americana do mundo foi acelerada pela transformação da China numa superpotência assertiva. O que muitos apelidaram de “uma nova guerra fria” já começou.

Depois, a Covid-19 irrompeu. Então, o que é que já sabemos sobre isso?

 

 

Sabemos que estamos no meio da mais profunda recessão da história em tempo de paz nos últimos 150 anos. Como demonstram as Perspetivas Económicas Globais do Banco Mundial e as últimas Perspectivas Económicas da OCDE, o impacto é devastador, em todo o mundo. (Ver gráficos).

No entanto, o efeito não tem sido igual. Alguns países foram atingidos de forma muito mais poderosa pelo Covid-19 do que outros, seja por incompetência, indiferença ou má sorte. Algumas empresas e pessoas foram também muito mais atingidas do que outras, porque as suas atividades dependem do contacto físico próximo ou devido à sua idade ou capacidades. Isto está longe de ser a mesma crise para todos.

Sabemos agora que as pandemias podem de facto acontecer. Sabemos que os Estados, pelo menos, tentam tomar o controlo quando o fazem. Sabemos, não menos importante, que reunir uma resposta global concertada e eficaz é quase impossível num mundo de demagogos tumultuosos e autocratas autoconfiantes.

Sabemos também que haverá cicatrizes económicas, sob a forma de empresas em colapso, de capital a ficar inutilizado, por usura física ou tecnológica  e de competências perdidas, e portanto perdas a longo prazo na produção e produtividade. Sabemos, não menos importante, que muitos países sairão da pandemia com défices e dívidas muito mais elevados do que se esperava anteriormente e que os bancos centrais serão donos de enormes proporções dessa dívida.

 

No entanto, também há muito que não sabemos.

Não sabemos quando, como ou mesmo se uma vacina ou alguma outra solução irá colocar a pandemia sob controlo total. Não sabemos qual vai ser o caminho da recuperação económica.

Não sabemos quão mau será o impacto da pandemia no comércio, na  política comercial e nas relações internacionais.

Como poderá ser o mundo após a pandemia? Sobre isto, sabemos menos. Mas algumas coisas parecem plausíveis.

 

Um primeiro desenvolvimento provável é um afastamento da globalização das coisas, em favor de mais (embora também contestada) globalização virtual. A integração das cadeias de abastecimento estava em declínio antes da pandemia. Agora, a política está a avançar mais fortemente nessa direção.

Um segundo desenvolvimento  é a adoção acelerada de tecnologias que prometem maior segurança, juntamente com oportunidades para um maior controlo social. A China está a assumir a liderança. Mas é provável que outros Estados se sintam no direito, talvez mesmo esperado, de seguir o exemplo.

 

Um terceiro desenvolvimento é uma política mais polarizada. O conflito já estabelecido entre uma direita mais nacionalista e protecionista e uma esquerda mais socialista e “progressista” parece suscetível de ser exacerbado, pelo menos nas democracias de elevado rendimento. Estes lados irão lutar sobre aquilo que um Estado mais assertivo deveria estar a fazer.

Um quarto desenvolvimento  é que a dívida pública e os défices serão muito maiores. Haverá também pouca tolerância para outra vaga de “austeridade” ou reduções no nível ou crescimento da despesa pública. Uma maior probabilidade é de impostos mais elevados, especialmente nos países  com défices mais prósperos e persistentes, financiados, explícita ou implicitamente, pelos bancos centrais.

A realidade final e mais importante é a das terríveis relações internacionais. A China tem tido uma crise surpreendentemente boa, dado que foi aqui que o vírus surgiu. Mas a China é também abertamente autocrática e internacionalmente assertiva. A fricção com os EUA divididos e enfraquecidos parece estar destinada a piorar, ao longo de um futuro indefinido.

Em outras áreas, porém, somos relativamente ignorantes. Será que as pessoas voltarão às vidas que levavam antes, uma vez que a doença tenha sido totalmente controlada? O meu palpite é que voltarão aos restaurantes, lojas, escritórios e viagens internacionais, mas não inteiramente. Experimentámos trabalhar em casa e nalguns casos funcionou.

Outra questão em aberto é o que será feito acerca do papel e influência dos gigantes da tecnologia. O meu palpite é que o Facebook, Google, Amazon e similares serão colocados sob controlo político: os estados não gostam de tais concentrações de poder privado.

E até que ponto irá a rutura das relações internacionais? Haverá uma hostilidade generalizada e sistemática ou ocasionalmente relações de cooperação entre a China e os EUA? Onde irá a Europa encaixar-se nesta questão?

 

Finalmente, quanto da economia global integrada irá sobreviver?

E irá a crise acelerar, retardar ou deixar muitas coisas tal como estavam antes, com um  progresso inadequado do mundo para a gestão do clima e de outros desafios ambientais globais?

A pandemia está a criar uma enorme agitação económica e política. A menos que haja uma cura precoce, o mundo que irá emergir parece ser diferente, em muitas das coisas importantes  e  será ainda menos cooperativo e menos eficaz do que aquele que era antes da pandemia.

No entanto, não é necessário que seja este o caso. Temos escolhas. Podemos sempre fazer as escolhas certas.

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Martin Wolf, Financial Times, How Covid-19 will change the world. Texto publicado em 16 de junho e disponível em:

https://www.ft.com/content/9b8223bb-c5e4-4c11-944d-94ff5d33a909

E disponível também em:

http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2020/06/how-covid-19-will-change-world.html

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