CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – LIX – JORNAL DO ANO DA PESTE VIII – MORTALIDADE COMPARADA – por VICTOR HILL

Plague Year Journal VIII – Comparative Mortality, por Victor Hill

Masterinvestor, 10 de Julho de 2020

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Sabemos que alguns países se saíram melhor do que outros na pandemia do coronavírus de 2020. Talvez surpreendentemente, alguns países em desenvolvimento têm-se saído realmente bem, enquanto alguns países ricos têm-se saído mal, escreve Victor Hill.

Boas notícias, más notícias…

O Brasil ocupa agora o segundo lugar mundial em termos de casos Covid-19 registados (1,76 milhões) e de vítimas mortais dos mesmos (quase 70.000)[i]. Os EUA são obviamente o número um mundial em ambos os casos, com cerca de um quarto de todas as mortes globais por coronavírus – com 42% de todos os casos dos EUA em três dos seus estados mais ricos (Nova Iorque, Nova Jersey e Massachusetts).

Algumas pessoas culpam o desastre do Brasil pela liderança grosseira do Presidente Jair Bolsonaro, que faz com que Donald Trump pareça um pensador profundo quando se trata de pronunciamentos sobre o controlo do vírus. Embora, claro, estas coisas sejam sempre multifactoriais – muitos brasileiros vivem em favelas densamente povoadas onde a higiene é deficiente. Mas, curiosamente, alguns dos vizinhos latino-americanos do Brasil têm-se saído muito melhor.

A América Latina foi descrita pela OMS no final de Junho como o novo epicentro da pandemia com o México e o Peru gravemente atingidos, bem como o Brasil. Mas Cuba, uma nação insular com uma população de mais de 11 milhões de pessoas, tem sido um modelo de como lidar com uma pandemia, segundo Michael Bustamante da Florida International University[ii], apesar de certas desvantagens inerentes. As suas filas notoriamente longas nas lojas estatais dificultam o distanciamento social e o autoisolamento, e o sistema de saúde do país está desesperadamente carente de recursos materiais. Além disso, Cuba tem uma população envelhecida com o perfil demográfico mais antigo das Américas.

No entanto, até ontem, Cuba tinha registado apenas 2.403 casos e 86 mortes – ou seja, apenas oito mortes por milhão de pessoas, o que coloca o país em pé de igualdade com o Japão. Cuba, revela o New Scientist, tem o maior rácio médico/paciente do mundo, com 8,2 médicos por mil pessoas. Isto compara com 2,15 no Brasil e 2,6 nos EUA. Claro que esse tipo de estatística pode ser oco: quão bons são os médicos e quão acessíveis são eles? Mas parece que os médicos de Cuba reagiram com celeridade nos primeiros dias da pandemia. Começaram a bater às portas das pessoas, perguntando se alguém estava a mostrar sintomas e geralmente a educar as pessoas sobre os riscos. Os suspeitos de sofrer de Covid-19 foram enviados para centros de isolamento geridos pelo Estado e todos os seus contactos foram rastreados. Alegadamente, tinham todos os diagnósticos em vigor antes mesmo de ser detectado o primeiro caso – e parece ter valido a pena.

Cuba é uma ilha, mas o Uruguai tem uma longa fronteira terrestre com o Brasil, um ponto quente do coronavírus. No entanto, o Uruguai (população de cerca de três milhões e meio de habitantes) comunicou apenas 977 casos e 29 mortes. Isto é (mais uma vez – número da sorte) oito mortes por milhão de habitantes. O que é extraordinário é que o Uruguai nem sequer impôs um confinamento  formal. Após a identificação do primeiro caso, a 13 de Maio, o Presidente LuisLacallePou fechou as fronteiras do país, mandou crianças em idade escolar para casa e cancelou grandes concentrações públicas. Mas a quarentena foi voluntária – foi pedido aos cidadãos que se isolassem “sempre que possível”. Isto foi apoiado por testes activos e rastreio de contactos.

Não conheço o país, mas ouço coisas boas sobre o Uruguai. É um país pequeno e estável com uma grande agricultura, um clima agradável e um cenário artístico vibrante – e pouca corrupção em comparação com os seus vizinhos. O bilionário americano, especulador e guru, Doug Casey, escolheu o Uruguai como a sua base. Ele diz que é um lugar muito mais seguro para se viver do que a América.

Esta semana, a Índia ultrapassou a Rússia como o país que registou o terceiro maior número de casos de Covid-19. O número nacional de casos atingiu 795.000 com mais de 21.623 mortes. Registaram-se mais de 24.000 novos casos a 06 de Julho. Segundo o Instituto de Ciências Matemáticas de Chennai, o número R em vários estados indianos subiu de novo acima de um[iii].

Na quarta-feira Forbes informou que a província mais populosa da África do Sul, Gauteng, a que pertencem as cidades de Joanesburgo e Pretória, está a preparar cerca de 1,5 milhões de sepulturas para potenciais enterros em massa, à medida que os novos casos de coronavírus tendem a aumentar[iv]. Isto é curioso uma vez que a África do Sul declarou apenas 3.720 mortes de Covid-19 até à data. Talvez as autoridades sul-africanas saibam algo que nós não sabemos.

Os confinamentos  estão de volta

Ainda mais intrigante é o facto de alguns dos mais preocupantes surtos pós-confinamento do vírus durante os últimos dez dias estarem a ocorrer em países avançados com sistemas de saúde sólidos. De acordo com um estudo da semana passada, 33 estados dos EUA têm um número R superior a um. O Texas está de volta a um confinamento  localizado. Melbourne está de volta a um confinamento restrito e, de facto, a fronteira entre os estados australianos de Vitória e Nova Gales do Sul foi fechada pela primeira vez desde a pandemia de gripe espanhola de 1919. Israel também tem tido um recrudescimento nos últimos tempos.

A China reinstituiu um confinamento  no condado de Anxin, perto de Pequim. Hong Kong entrou no que uma autoridade  de saúde chamou uma terceira vaga de infeções por coronavírus, tendo as autoridades comunicado 38 novos casos na terça e quarta-feira.

O Cazaquistão rico em petróleo na Ásia Central também reinstituiu um confinamento  esta semana. O país parecia ter contido o vírus após um confinamento rigoroso de dois meses, mas no fim-de-semana passado os hospitais encheram-se com novos casos. Tal como na Índia e no Paquistão, as festas de casamento são frequentemente enormes reuniões de várias centenas de pessoas no Cazaquistão. E nesses três países diz-se que existe um elevado grau de fatalismo popular – se o seu número aumenta,  aumenta  – o que não é propício ao distanciamento social.

Claro que dentro de um ano ou dois, quando tivermos coligido todos os números, o quadro poderá parecer diferente. Mas por agora penso que é possível generalizar que muitos países pobres lidaram melhor com o vírus do que os países ricos. Mas como – ou melhor, porquê assim? Penso que um fator está a emergir como crítico. Porosidade: isto é, a medida em que os países estão abertos a pessoas de fora que viajam de avião. Nesta base, o Reino Unido – e particularmente a Inglaterra – parece muito vulnerável. As fronteiras aéreas da Nova Zelândia ainda estão fechadas – mesmo com a Austrália. O Butão, no alto do Himalaia Oriental, um país que permite muito poucos visitantes, teve zero mortes.

Conclusões

Há muito que suspeito que existe apenas uma fraca correlação entre a despesa total em cuidados de saúde e os resultados dos cuidados de saúde. Os verdadeiros determinantes da longevidade existem fora dos hospitais. O maior avanço na longevidade foi alcançado na Europa na segunda metade do século XIX quando as pessoas começaram a usar sabão e outros desinfetantes, de modo generalizado,nas suas casas – impulsionados pela publicidade, e aquilo a que agora chamaríamos consumismo. Um estudo de caso é o PearsSoap  – uma marca que ainda é propriedade da Unilever (LON:ULVR). As disposições sanitárias também melhoraram muito durante esse tempo, graças à casa de banho de Thomas Crapper. Estas foram inovações revolucionárias – mas não custaram muito caro.

Anedoticamente,  ouvi dizer que há menos resfriados à volta, uma vez que o uso generalizado de desinfectantes parou os vírus do frio e da gripe no seu caminho. A desvantagem disso é que precisamos de exposição a agentes patogénicos para desenvolver o nosso sistema imunitário. A Professora Sunetra Gupta de Oxford receia que o distanciamento social prolongado enfraqueça os nossos sistemas imunitários a longo prazo. A pandemia de gripe espanhola de 1918 aparece num momento em que não havia nenhuma pandemia nos 30 anos anteriores. Ouvi dizer que o aumento das alergias nos jovens pode estar ligado ao facto de terem sido criados em casas esterilizadas com aquecimento central.

Uma conjetura emergente é que o processamento e embalagem da carne pode ser um vetor de transmissão viral (Anglesey, Kirklees, Gütersloh). Se isso se confirmar, então o caso meta-temático de Jim Mellon para carne limpa poderia ser ainda mais reforçado.

O distanciamento social e a higiene meticulosa são mais difíceis nos países pobres. Pode acontecer que os piores efeitos da pandemia do coronavírus não se manifestem plenamente no mundo em desenvolvimento até 2021. Veremos.

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O período que antecedeu a atualização económica de Verão desta semana (também conhecida por £30 mil milhões em 30 minutos) foi ensombrado por alguns comentários desajeitados que Boris Johnson fez na segunda-feira (06 de julho) sobre lares de idosos. Ele pareceu sugerir que a incapacidade de seguir os procedimentos (que procedimentos?) resultou em mais mortes de Covid-19. Durante os dois dias que se seguiram, em resposta ao inevitável brouhaha, houve uma poeira danada de ofuscação. O Secretário de Negócios Sharma afirmou que o PM apenas queria dizer que não existiam procedimentos suficientes. O Secretário da Saúde, Sr. Hancock, opinou que na primeira semana do confinamento ninguém sabia que os portadores assintomáticos poderiam espalhar o vírus – algo que eu considero como extraordinário. Utilizei pela primeira vez o termo transmissão assintomática nestas páginas no meu artigo publicado a 27 de março – mas o termo já estava em circulação havia pelo menos seis semanas antes disso.

O que realmente aconteceu, tanto quanto sei, foi o seguinte. Depois do governo do Sr. Johnson ter declarado na segunda semana de março que o perigo real era que o SNS fosse esmagado, os gestores do hospital começaram a libertar os idosos que bloqueavam as camas  (o  termo é deles, não é meu) e a colocá-los em lares de idosos – sem os testar – a fim de libertar a capacidade de resposta dos hospitais. Os lares de idosos  frequentemente manifestavam desinteresse em os aceitar (embora, para ser justo, duvido que os senhores Johnson e Hancock soubessem disso na altura). Muitos dos que tiveram alta do hospital já estavam infectados e depois transmitiram o vírus aos seus co-residentes dos lares de idosos. Quem é o responsável final por isto? Essa é a questão.

(A propósito, sabemos agora também que as estatísticas de testes muito elogiadas do Sr. Hancock eram (estamos a ser educados) enganadoras. Os testes que tinham sido despachados por correio e que nem sequer foram  recebidos de volta foram contados como tendo sido realizados).

Ouvi atentamente a atualização do Chanceler na quarta-feira (08 de Julho) – o que finalmente eclipsou as observações irrefletidas do Primeiro-Ministro. Assim, a principal estratégia económica é abrir ainda mais os cordões à bolsa para, antes de mais nada, minimizar o tsunami do desemprego que nos espera. Eu, por exemplo, estou ansioso por brandir o meu cupão de £10 de segunda-feira à noite na casa de caril ao fundo da rua. E é provável que as minhas despesas nos bares aumentem nos níveis de pré-bloqueio. (Use-o ou perca-o. O Sr. Farage fez um vídeo sobre esse tema – embora pareça não ter muito que fazer nos dias de hoje).

Estamos agora a conhecer o Sr. Sunak um pouco melhor. Ele apresenta-nos as suas grandiosas intervenções orçamentais  com o ar sério de um cantor que conta  uma história particularmente assustadora na hora de dormir a um grupo excecionalmente nervoso de crianças pequenas.

E sim, lamento muito dizê-lo, mas temos de reconhecer que há lobos lá em cima nas colinas e alguns deles – muito ocasionalmente – descem aos vales para se banquetearem com crianças pequenas. E isso não é nada agradável. Mas quero que fique claro para todas as criancinhas que farei o meu melhor para as acarinhar de perto (de uma forma socialmente distante, claro) se um lobo se aproximar…E quero que elas tentem ser tão alegres quanto possível, mesmo que ouçam uivos durante a noite…Fiquem certos de que farei tudo o que estiver ao meu alcance para impedir que qualquer um de vós acabe no jantar de um lobo…

O Sr. Sunak exala uma liderança compassiva para os nossos tempos emocionalmente frágeis. A taxa reduzida de IVA para o sector hoteleiro – que tem  sido praticada  durante anos em países europeus como França e Espanha com indústrias turísticas importantes – é algo que tenho defendido durante anos para renovar as cidades litorais dilapidadas da Grã-Bretanha. Este Verão vou certamente fazer uma estadia. (Podemos chegar até ao solarengo Yorkshire – fortemente recomendado pelo nosso editor). Mas será que o pacote de medidas vai funcionar? Provavelmente saberemos quando o Sr. Sunak entregar o verdadeiro orçamento no final do Outono/princípio do Inverno.

Escrevi em Fevereiro que o meu melhor palpite era que o Sr. Sunak iria suceder a Boris Johnson dentro de cerca de dez anos. Mas isso pressupunha que Boris  Johnson seria reeleito em 2024. Agora, com o ressurgimento dos Trabalhistas sob a mente forense de Sir Keir Starmer, isso é altamente incerto. (Apesar de Sir Keir ter todo o carisma de uma lâmpada de baixa energia. Mas a questão é esta: ele é tudo o que Boris  Johnson não é – o Anti-Johnson). Lembre-se de que nenhum partido político ganhou cinco mandatos consecutivos desde a Revolução Gloriosa de 1688. E em 2024, com as finanças públicas britânicas ainda a ranger, os impostos sobre a riqueza estarão no topo do menu político  do dia.

Voltaremos a este tema.

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[i] Todos os números sobre os casos ocorridos e a mortalidade são de: https://www.worldometers.info/coronavirus/ accessed 06:30 hours on 10 July 2020.

[ii] Como foi dito no New Scientist em 03 de Julho de 2020. Ver: https://www.newscientist.com/article/2247740-how-cuba-and-uruguay-are-quashing-coronavirus-as-neighbours-struggle/?utm_source=NSDAY&utm_campaign=b907f36520-NSDAY_060720&utm_medium=email&utm_term=0_1254aaab7a-b907f36520-373843547

[iii] Ver: https://indianexpress.com/article/india/coronavirus-transmission-rate-goes-up-first-time-since-march-study-6496883/?campaign_id=51&emc=edit_MBE_p_20200710&instance_id=20192&nl=morning-briefing&regi_id=76380117&section=topNews&segment_id=33060&te=1&user_id=ba4c2350d7e0b860e2593e58a96adb2b

[iv] Ver: https://www.forbes.com/sites/nicholasreimann/2020/07/08/south-africa-readies-15-million-graves-for-coronavirus-mass-burials/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=dailydozen&cdlcid=5d1670771802c8c524c81dd8#6d42237645a6

[v] Ver: https://www.pressreader.com/uk/the-daily-telegraph/20200627/281573767963617

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Leia este artigo de Victor Hill no original clicando em:

Plague Year Journal VIII – Comparative mortality

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