PALCO 16 – AS FESTAS DOS SANTOS POPULARES – por Roberto Merino

 

As festas dos Santos populares não se distinguem apenas pelo convívio com a sardinha, a broa ou a carne na grelha, também representações teatrais dedicadas a estas figuras se encenam juntando a hagiografia e o teatro.

Ficam aqui alguns exemplos para ajudar a recordar: Auto de Santo António, “uma reminiscência das várias adaptações d’A História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, herdou o imaginário dos turcos e do rei Ferrabrás mas com um texto original que expõe uma contenda religiosa inspirada na ocupação árabe da Península Ibérica. Os turcos pretendem comprar cereais aos cristãos, mas estes apenas os vendem sob a conversão cristã. É convocada a intervenção, mal sucedida do Doutor de Leis para a resolução do problema. Intervêm também dois populares com os “burros cansados” que têm a mesma saída que o Doutor de Leis, à canada dos turcos e fogo das espingardas dos cristãos. Travada a batalha, tombam todos os soldados, sendo chamados o Enterrador, o Barbeiro e o criado do Barbeiro. O rei cristão, o Almocreve, invoca auxílio celeste e surge um anjo que ressuscita os soldados e converte e baptiza os turcos. Ao som das Contradanças, todos os elementos louvam Santo António e dançam para dar término à representação. As entradas em palco são precedidas pelo trabalho dos arredas que “varrem” o público. Também peculiar é a participação dos bufarinheiros, os espiões que transmitem ao seu rei informações dos inimigos. Pela Associação Desportiva e Cultural de Portela Susã, Viana do Castelo. (Publicada por eiXpressões 2011, 13/6/11) Também encontramos um Auto do bem-aventurado senhor santo António.” Feito per Afonso Álvares a “pedimento dos muito honrados e virtuosos cónegos de Sam Vicente. Mui contemplativo e em partes mui gracioso, tirado de sua mesma vida.” A obra pode ser consultada na íntegra em http://www.cet-e-quinhentos.com/obras.

Para a figura de São João citamos O Carro dos Pastores,”a representação de um auto pastoril, que teria surgido no séc. XVIII, na freguesia de Landim, concelho de Vila Nova de Famalicão sob o nome de Auto de S.João de Landim. Nele se representa o Nascimento de João Baptista. Surge a nossos olhos como um palco ambulante construído sobre um estrado ornamentado com folhas de hera e ramos de cedro (o que o levou a ser conhecido como o Carro das Ervas) ao qual se atrelavam duas possantes juntas de bois. Mas, com as novas exigências urbanísticas e pela dificuldade em conseguir bois possantes foram as mesmas substituídas por um tractor devidamente ornamentado para o efeito…

Sobre o estrado onde decorre toda a cena, existe, ao fundo, como que um segundo palco (mais pequeno e mais estreito), com acesso por dois lances de escadas laterais. Nele podem ver-se dois pequenos anjos que irão ladear o Sanjoãozinho no momento da sua aparição. Sobre este espaço, em plano superior, surgirá um anjo pousado numa nuvem.

Nuvem essa, conseguida por uma estrutura de madeira forrada a algodão em rama salpicado de pequenas estrelas. Falamos de um anjo pois apenas um aparece em cada exibição. Na realidade seguem no Carro mais dois para desempenhar o mesmo papel. Razão para isto é, o esforço de voz que lhes é exigido, daí a necessidade de os ir alternando. As suas vestes são de cores diferentes – branco, rosa e azul. O Carro dos Pastores é uma alegoria ao nascimento de S. João Baptista, inspirado no Evangelho segundo S. Lucas – “Não temas Zacarias porque foi ouvida tua prece e Isabel, tua mulher, parirá um filho e pôr-lhe-ás o nome de João”- Não podiam faltar os pastores que aqui aparecem em número de catorze (sete rapazes e sete raparigas) de cujos cajados e pandeiretas pendem coloridas fitas. Usam chapéus de palha descaídos sobre os ombros, com a aba erguida, presa à copa e ornamentados de flores confeccionadas com fitas de seda dos mais variados tons. Do traje das pastoras constam uma saia, colete e avental guarnecidos com fitas coloridas, blusa branca, meia e sandálias. Os pastores trajam calção e colete com idênticos adornos, camisa branca, faixa vermelha na cinta, meia até ao joelho sobre o calção e sandálias. Zacarias e Isabel, pais de João Baptista e o Anjo são outras das personagens da peça não esquecendo S. João Menino, personificado numa criança de três a quatro anos de idade.”/ http://bragasjoao.no.sapo.pt-

Tudo isto enquanto se prepara a Festa de São João de Sobrado/Valongo, recriação que já foi trazida com enorme êxito à cidade do Porto numa edição do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica/FITEI; “Por um dia se recorda a memória dos tempos em que estas terras foram ocupadas pelos árabes; se faz a experiência de subverter e de refazer a ordem social; de pôr em cena pequenas peripécias dos trabalhos e dos dias, procurando linguagens para dizer quão profundas e quão mesquinhas elas por vezes se nos apresentam. Falo da Festa da Bugiada e da Mouriscada de Sobrado, que acontece perto de Valongo, que conseguiu – e consegue ainda – não sem tensões e contradições, ressignificar-se nas condições da vida difícil dos tempos que correm, nomeadamente junto dos mais jovens. Para muitos vale o que aparece à superfície: uma banal luta entre o bem e o mal. Em Sobrado, porém, não é fácil dizer quem são os bons e quem são os maus. Porque os dois lados habitam cada um, numa tensão que se diria quase irresolúvel. Mais do que de bons e de maus, a Bugiada e a Mouriscada revela-nos, afinal, como pode conviver a identidade com a diferença. Não apenas conviver, mas também vivificar-se” (Manuel Pinto-Reflexões e Inquietações).

Este ano pela situação sanitária, festas romarias e ajuntamentos foram proibidos, assim como o lançamento de balões e queima de fogo-de-artifício. Também as fogueiras e os saltos tradicionais, e a ida ao mar/praias para os mergulhos;

“Quem saltar a fogueira na noite de S. João, em número ímpar de saltos e no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males. Diz a tradição que as cinzas de uma fogueira de S. João curam certas doenças de pele. Para certos males, são benéficos os banhos que se tomem na manhã do dia de S. João, mas antes do Sol nascer. No Porto,  os que se tomavam nas praias do rio Douro ou nos areais da Foz, valiam por nove… As mães passavam por cima das chamas (sem queimar, claro) as crianças doentes ou fracas, e para todos era bom dizer quando saltavam a fogueira:”

“Fogo no sargaço,
saúde no meu braço.
Fogo no rosmaninho,
saúde no meu peitinho.”

http://www.portoxxi.com/cultura/ver_folha.php?id=25

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