O ÚNICO ANTEPARO REAL CONTRA A BARBÁRIE, por VLADIMIR SAFATLE

 

Selecção de Camilo Joseph

Por Vladimir Safatle / “A formação do pensamento crítico implica aquilo que alguns gostariam de descrever como balbúrdia, mas que é, como bem lembra João Carlos Salles, o único anteparo real contra a barbárie. Uma vida sob dissenso é o que impõe dificuldade aos que procuram nos governar, ainda mais quando o som que eles conhecem não é som da assembleia aberta, mas dos tanques militares.”

Em meio aos embates da Revolução Francesa, Condorcet dirá: “A função da educação pública é criar um povo insubmisso e difícil de governar”. A frase demonstra que a educação pública é peça fundamental em todo projeto de emancipação social, assim como explicita que tal emancipação não visa a criar um corpo social sem conflitos. Ao contrário, a formação do pensamento crítico implica aquilo que alguns gostariam de descrever como balbúrdia, mas que é, como bem lembra João Carlos Salles, o único anteparo real contra a barbárie. Pois a formação em direção ao que o autor chama de “condições ideais de argumentação” é baseada na vida sob dissenso. E uma vida sob dissenso é o que impõe dificuldade aos que procuram nos governar, ainda mais quando o som que eles conhecem não é som da assembleia aberta, mas dos tanques militares.

Dentre nós, João Carlos foi um dos que, de forma mais brilhante, conseguiu articular sólida carreira filosófica e ação institucional de longa duração, principalmente como reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). É dessa dupla experiência que vem o fundamento de suas reflexões a respeito dos desafios da universidade brasileira, com suas exigências de descentralização e de pluralidade.

Essa capacidade de transitar em via dupla permitiu a João Carlos enxergar o que outros têm dificuldade e ver, a saber, que “conhecimento circula na internet; pesquisa pode ser feita em meios diversos; ensino pode escorrer bastante bem em instituições privadas; e prestação de serviços pode, aqui ou ali, fazer figura de extensão. Outra coisa, porém, é esse lugar especial de confrontação de saberes e gerações” que nós conhecemos por universidade pública.

Pois o desprezo de alguns pela universidade pública não vem de sua pretensa “lentidão”, de seu “isolamento” ou coisas do gênero. Vem do fato de sua autonomia mostrar à sociedade como é possível se constituir sem submeter-se nem ao governo, nem ao mercado; nem ao poder político, nem ao poder do capital. A universidade pública nos lembra do fato de que uma outra sociedade é possível, uma sociedade sem medo do verdadeiro confronto.

Em Universidade pública e democracia, o leitor encontra textos permeados por tal espírito. A reflexão mais ampla sobre o conceito de universidade caminha juntamente com discussões pontuais a respeito dos desafios de ser reitor de uma das maiores universidades brasileiras, assim como com a crítica precisa aos projetos de desmonte que vêm do atual desgoverno. Ao fim, temos um dos mais belos exemplos do que pode o saber em ação.

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Safatle: O único anteparo real contra a barbárie

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