NOVA EDIÇÃO DE “PRETÉRITO PRESENTE” DE MARIA CECÍLIA CORREIA por Clara Castilho

Depois de uma 1ª edição: de1976, surgiu o ano passado a 2ª, com distribuição SNOB.

O volume organiza-se em três capítulos, textos de cariz poético e diarístico, poesia e correspondência, e é ilustrado por um conjunto de fotografias artísticas. Pretérito Presente caracteriza-se por uma escrita concisa, fluída e visual. A narradora inscreve-se na repetição e no renovo das estações e da vida doméstica, determinada a fazer valer os pequenos acontecimentos. O universo quotidiano e as vivências familiares são propositadamente partilhadas com o leitor, tornando-o íntimo da narradora. No final do livro é incluída uma cronologia e um retrato da escritora, sendo esta uma edição comemorativa do centenário do seu nascimento. Sobre a autora, disse Agostinho da Silva ser «um dos maiores escritores de Portugal».

A escritora no atelier de Maria Keil

O lançamento da nova edição foi  apresentado por Rosa Azevedo que afirmou:

“Pretérito Presente” é um livro “livre”, onde se pode ver o mundo inteiro das ideias da autora. Cada texto é lido com curiosidade mas também com alguma perturbação. Às vezes, é ficção, às vezes acontecimentos biográficos, às vezes pura literatura, poesia. Escrita pela arte da escrita. É um mergulhar no seu sofrimento, que potencia o pensamento, num diálogo com a autora. Quase que se “reescreve” o livro com ela, daí que a leitura possa ser perturbadora.”

Maria Cecília Correia é mais conhecida pela sua obra para as crianças, com dois livros magnificamente ilustrados por Maria Keil – “Histórias da Minha Rua” e “Histórias de Pretos e Brancos”. No ano de 2019 assinalou-se o centenário do seu nascimento com várias iniciativas, entre as quais um colóquio na Biblioteca Nacional.

COMENTÁRIO DE JOÃO DOS SANTOS

Escrito na contra-capa do exemplar deste livro, oferecido ao psicanalista João dos Santos, encontrado no seu espólio, pode ler-se:

“Maria Cecília é uma mulher sublimada, tudo nela se transforma em amor, no amor dos pais, dos amigos, dos filhos, da humanidade…. M.C. fala das suas coisas e objectos, é lírica e suave mas nivela tudo pelo seu idealismo sublime.

Estou a lembrar-me dumas pessoas, e duma escritora e dum escritor que não gramam a humanidade.

Sesimbra, Março 77

“O MORAIS

Quem soubesse cantar o Morais! Quem soubesse cantar a sua #alegria simples que se nos colava à pele, só de vermos rir os seus olhos francos! Era criado de uma pessoa amiga e, de vez em quando, tínhamos os dois grandes conversas. (Decretámos, mesmo sem palavras, que seríamos amigos).

Não levava a sério o seu trabalho, cumpria uma parte das suas tarefas, faltava a outras, mentirava, escapava-se, mas tudo com a mesma inalterável boa disposição que fazia com que esquecessem depois os seus descuidos. Parecia ter resolvido definitivamente que a vida não seria uma maçada, e não era mesmo. Só um ponto escuro no meio disto tudo: Morais gostava muito de vinho. Faltava dias seguidos depois de uma “tentação” mais forte e isso criava aborrecimentos temporários com os patrões.

… Enterrava uma asneira e vivia em boa paz e harmonia até à próxima, que nunca era premeditada. Entre uma e outra reinava a cova funda que o seu riso fazia aparecer na face direita. A sua alegria era tanto mais valiosa quanto Morais não gostava de ser criado. Estava assim porque calhava ou porque outro caminho se não apresentava ou porque ele não ia procurar a sério esse outro caminho. Mas gostaria de ser mecânico, contínuo, qualquer coisa que o livrasse das panelas e das ordens das mulheres.

Numa das minhas ausências mais longas perdi o Morais. Perderam-no os meus olhos porque dentro de mim ele era como a recordação de uma flor colorida que enche de prazer quem a olha. Um dia, numa praceta escondida, vejo-o a falar com um amigo. Chamo-o num grito: “Morais!”. Veio ao meu encontro a correr e, quando apertou a minha mão, curvou-se tanto que a sua cabeça quase a tocou.

… com malícia perguntei: “Tu ainda bebes?” Ergueu os braços bem alto, tomou o céu por testemunho, e gritou triunfante: “Sempre, senhora!!!”. Nunca credo nenhum foi afirmado com com tamanha adesão total e em tão plena alegria.

… Impossível por este anúncio: “Morais procura-se. Sinal particular, cova na face direita”. Ou ainda este mais urgente: “Morais precisa-se”. Porque eu preciso da tua alegria, do teu jeito especial de viver, abrindo com uma gargalhada janelas nas paredes mais duras e saltando para um outro lado num instante, para o lado do sonho, para o lado onde o homem é companheiro das horas leves e não o seu escravo. O que nos separa hoje, Morais? Não sei se metros, se quilómetros nesta cidade tão grande. Ignoro até se já és ausente desta terra… O que nos une ainda, Morais? Ainda e sempre, a minha adesão à tua liberdade interior, à naturalidade e facilidade com que escapavas a esse jogo que fabricava leis estranhas a ti e ao teu ser diferente do nosso. Mas, mais do que isso, a minha admiração pela tua indestrutível alegria, a alegria que te acompanhava sempre, na fuga e no retorno. Morais, quando vens?

MARIA CECÍLIA CORREIA, Pretérito presente, 1ª edição 1976, 2ª edição, 2019.

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