A GALIZA COMO TAREFA – leituras soltas – Ernesto V. Souza

Domingo de agosto, aproveitando a fresca da manhã cebo um mate e contemplo um bocadinho perplexo, sem mui bem saber que escrever ou que quero dizer, os livros que ficaram, ou encontro, assim dispostos, nos quatro cantos da mesa escritório. Por acaso, ou empacho de leituras, formam um eixo simbólico com centro no computador.

Após um par de semanas lendo romance à solta recuperei, recomecei e terminei leituras dessas que ficam atoladas ou postergadas por causas diversas. O conjunto é curioso: os dous tomos pop, amarelados e surreais de Gárgoris e Habidis de Sanchez Dragó com a sua capa de foto, tipografia vermelha e branca; na diagonal O Povo brasileiro de Darcy Ribeiro, fazendo contraste de apenas letras verdes e bracas em fundo azul, narrativa e conteúdo. E na contrária o muito pessoal Spinoza: Philosophie pratique de Deleuze, também de sóbria capa de ensaio; e o coletivo, fundo amarelo e letra a preto de prosa de combate, Les raons del indignats (Raimundo Viejo ed.).

Pensava dizer-lhes alguma cousa, aproveitando temas e citações, sobre o conhecimento e o poder, sobre o absurdo social do tempo em que vivemos, antes de lhe meter o dente a alguma das várias edições do Vigário de Wakefield ao que não devi ter prestado a atenção devida e que, ultimamente de Goethe a Verne, vou encontrando referenciada em aviso de clássico de leitura obrigada e marco na reinvenção da literatura (como tal Literatura até nova orinetação) na alta idade contemporânea.

426px-The_Vestibule_of_Hell_and_Souls_Mustering_to_Cross_the_Acheron_Blake
“The Vestibule of Hell and Souls Mustering to Cross the Acheron” Willian Blake, ca. 1827 (wiki)

Dos quatro antes ditos, o que pior envelheceu é Les raons del indignats (Barcelona: Raval edicions, 2011): artigos reunidos de teoria política, análise da sociedade e das redes sociais. Indignados. Twitter. Facebook. O momento de rotura que passou sem ser. A assembleia permanente que se evaporou. O 15 M.

Fazem sorrir, um não pouco amargamente, os textos e as previsões de ferramentas digitais, pela sua ingenuidade; e a explosão de entusiasmos que em poucos anos queimou tanta gente e projetos. A sensação é fria, com as propostas, em boa parte compartilhadas na altura, assustadora com a evolução na Internet, vistas uma esmagadora década depois.

A cantiga telúrica de palavra feiticeira de Sanchez Dragó (Barcelona: Argos Vergara, 1982) também exige um esforço de re-leitura. Agora sou outro e outra é a bagagem. Também correu tempo para o livro, talvez mais para a personagem Sanchez Dragó. Os anos 80, quase 90, meus, ficam longe.

Mas por aí anda encoberta, a cada pouco, a Galiza, o celtismo, Prisciliano, Feijóo, Torrente Ballester, Valle, Vicente Risco, concílios, meigas, bispos, magos, reis, saludadores galegos, antropologias, esoterismos, viagens iniciáticas, fantasias folclóricas dos exoteros, bibliografias e um cento de anedotas histórico simbólicas reunidas que parecem só ter sentido em si próprias e como combustível e escusa à prosa epatante.

Os artigos de Deleuze a respeito de Spinoza (Paris: Editions de Minuit, 1981), mais uma vez, e ainda a paixão spinoziana, são-me quase intragáveis. Consigo ranhar algum elemento histórico e biográfico, alguma frase solta sobre a ética, a política, o poder e a obediência. Mas vale-me de aviso. Terei de tentar mais uma vez ler Spinoza ao vivo, outra obriga adiada. Alhures tenho alguma tradução castelhana, Obra completa, dos 80 e francesa da Ética, dos 30.

Com tudo, ritmo, prosa e conteúdo, antropologia política e boa prosa, O Povo brasileiro (São Paulo: Companhia das Letras, 1996) é o que mais prazer me produz.

Resulta-me curiosa precisamente esta releitura de verão, neste exemplar, uma oferta de um amigo gaúcho, como consta dedicado, na folha de respeito, à minha mulher (que deveu chegar nalgum momento, na altura que andava apreendendo português, até quase a metade, pelos sublinhados, destaques e parte de uma coberta de um CD de Chico Buarque que faz de marca-página). O sabor do chimarrão completa saudades, imagens, músicas e memórias. Muito choveu.

Ler, re-ler (como tratar de escrever ou rescrever as cousas que foram ficando) num momento outro da vida, com mais anos e tantos projetos adiados, prolongados a se estinhar e quase abandonados: resulta-me uma leitura diferente, mais limpa, mais completa, mais nutritiva. Fazem-me também sorrir, como topar a raiva, os desvios, as aflições e os próprios pecados, para além do Aqueronte:

Creio que nenhum livro se completa. O autor sempre pode continuar, por um tempo indefinido, como eu continuei com esse, ao alcance da mão, sem retomá-lo. O que ocorre é que a gente se cansa do livro, apenas isto, e nesse momento o dá por concluído. Não tenho muita certeza mas suspeito que comigo é assim. (O Povo brasileiro, Prefácio, p.12)

1 Comment

  1. O povo brasileiro é uma maravilha.
    O resto para mim não tem interesse. Leres a Dragó certifica-te como devorador de livros, até de obras que são puro narcisismo epatante, mas que em realidade é nada

Leave a Reply