Eleições presidenciais em Novembro: aprofundamento da queda dos EUA ? Texto 2 – O lendário investidor Jeremy Grantham está “espantado” com esta bolha de ações sem precedentes. Por Tyler Durden (ZeroHedge)

Espuma dos dias Eleiçoes EUA 2020

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O lendário investidor Jeremy Grantham está “espantado” com esta bolha de ações sem precedentes

Tyler Durden Por Tyler Durden

Publicado por ZeroHedge em 18/06/2020 (ver aqui)

 

Há duas semanas, o legendário ícone de investimento financeiro, um homem geralmente alegre, Jeremy Grantham, desencadeou fogo e enxofre, levando a sua carteira de $7.5 milhares de milhões para uma posição líquida curta pela primeira vez desde a crise financeira, e resumindo a sua terrível avaliação da atual situação sem precedentes, simplesmente dizendo “isto vai acabar mal”.

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Acontece que Grantham estava apenas a começar.

Repetindo a sua mensagem apocalíptica, o guru do investimento financeiro disse à CNBC que a bolsa de valores dos EUA está numa bolha sem precedentes e investir nela é “simplesmente estar a brincar com o fogo”.

“Fiquei completamente espantado”, disse o veterano investidor à baixa , numa entrevista na CNBC, na quarta-feira. “É uma corrida  sem precedentes – a mais rápida de todos os tempos e a única dos livros de história que se desenrola  num contexto de inegáveis problemas económicos “.

O seu conselho a toda uma geração de jovens operadores de bolsa que saltam agora para o mercado é que deveriam vender ações americanas, comprar ações de mercados emergentes e “deitar a chave fora” durante alguns anos, disse, acrescentando “isto está a tornar-se a quarta verdadeira bolha McCoy da minha carreira”.

Ele também tinha más notícias para aqueles que lutam contra o Fed: “As grandes bolhas podem continuar por muito tempo e infligir muita dor”. As três bolhas anteriores a que Grantham se referiu foram a do Japão em 1989, a bolha tecnológica em 2000 e a crise habitacional de 2008.

Comentando a insanidade em empresas como  Hertz, que hoje foi misericordiosamente detida pela SEC antes que ainda mais jovens operadores  Robin dos Bosques se tirem as suas vidas – como Alexander E. Kearns, enfrentando um saldo negativo de $730.000 em dinheiro – Grantham disse que eventos como este com operadores a tentar vender ações de empresas falidas deveriam fazer “qualquer especialista em mercados em baixa a sentir-se melhor”.

Recusando-se a aceitar a narrativa de recuperação em forma de V, Grantham disse também que é difícil imaginar quando é que a economia em geral recuperará completamente dos efeitos da pandemia.

 

De onde vem o sentimento de mercado em baixa sem precedentes de Grantham? Simples: como escreveu no seu último texto aos seus aforradores/investidores no seu sítio eletrónico, que recapitulámos na semana passada, “o mercado e a economia nunca estiveram tão desligados” e enquanto “o atual rácio PA/RA (PA é o preço da ação- RA é o resultado financeiro da ação) no mercado dos EUA está no topo dos 10% mais altos da sua história … a economia dos EUA, pelo contrário, está nos seus piores 10%, talvez até mesmo nos piores 1% … Este é aparentemente um dos mais impressionantes desajustamentos da história”.

Para aqueles que não leram o nosso texto anterior sobre o que disse Jeremy Grantham, aqui estão as nossas restantes observações:

Como resultado desta perda total de coerência impulsionada por milhões de milhões de liquidez do banco central que impulsionaram uma enorme cunha a separar os fundamentais da economia e os preços das ações, o GMO, o gestor de fundos de Boston que Jeremy Grantham co-fundou em 1977, reduziu a sua exposição líquida a ações globais no seu maior fundo de 55% para apenas 25%, perto dos níveis mais baixos que relatou durante a crise financeira global, de acordo com uma atualização separada do responsável pela alocação de ativos do GMO, Ben Inker.

Esta decisão, de acordo com o Financial Times, reduziu a exposição do Fundo de Alocação Sem Benchmark de GMO às ações dos EUA de uma posição dita longa (posse de ativos) de 3-4% para uma posição líquida curta (dita por exemplo de venda a descoberto,) de cerca de 5% da carteira de 7,5 mil milhões de dólares, disse Inker, talvez a primeira vez que o fundo transformou as ações líquidas em posições curtas dos EUA desde a crise. Isto, depois de o GMO ter comprado muitas ações durante o período em que estas foram vendidas em situação de emergência, mas desde então tem estado a cortar a sua exposição ao mercado dos EUA após o aumento sem precedentes de 40% nos últimos 2 meses.

A pandemia de Covid-19 “deveria ter gerado um maior respeito pelo risco e não o fez. Provocou o contrário”, disse Grantham ao Financial Times. Ele observou que os rácios PA/VR na bolsa de valores dos EUA estavam “nos primeiros 10% da sua história”, enquanto a economia dos EUA “está nos seus piores 10%, talvez até no pior 1%”, ecoando o que ele disse na sua carta trimestral aos investidores.

E enquanto os mercados parecem estar a tomar com calma todas as notícias negativas, Grantham está preocupado que a onda de devastação que se avizinha seja diferente de tudo o que já foi experimentado anteriormente:

Na GMO lidámos com três grandes acontecimentos anteriores a esta crise, e com razão ou sem ela, sentimo-nos “quase certos” de que, mais cedo ou mais tarde, estaríamos certos. Saímos totalmente do Japão, a 100%, em 1987 a 45x e vimo-lo passar para 65x (por um segundo, maior que os EUA) antes de um reajustamento à baixa de 30 anos ou mais. No início de 1998 combatemos a bolha Tech passando de 21x (igual ao recorde anterior de alta em 1929) para 35x antes de um declínio de 50%, perdendo muitos clientes e depois recuperando ainda mais na viagem de ida e volta. Em 2007, conduzimos os nossos clientes de forma relativamente indolor através da queda do mercado habitacional. Nos três casos sentimos que estávamos quase certos de que tínhamos razão. O Japão, as bolhas da Tech, e 1929, que infelizmente perdi, não eram novos tipos de eventos. Eram apenas casos extremos, semelhantes à euforia e à loucura dos investidores da Bolha do Mar do Sul [South Sea Bubble de 1720]. O evento de 2008 também foi mais fácil desde que nos concentrássemos na euforia habitacional dos EUA, que foi um evento de 3-sigma, um acontecimento em 100 anos ou, simplesmente, um acontecimento único. Calculámos que uma viagem de regresso à velha tendência de preços e uma típica ultrapassagem desses preços extremos do valor das casas retiraria 10 milhões de milhões de dólares da perceção de riqueza dos consumidores americanos e garantiria a pior recessão das últimas décadas. Todos estes eventos ecoaram precedentes históricos. E destes precedentes extraímos a nossa confiança.

Mas este evento é diferente de todos os outros. É totalmente novo e não pode haver quase certezas, apenas fortes possibilidades. É por isso que Ben Inker, o nosso Chefe de Alocação de Activos, está nervoso e é por isso que cada um de nós deve estar nervoso, ou deveria estar.

Embora as incertezas sejam realmente grandes, pode-se triangular uma dose suficientemente material de “certeza” sobre o que está para vir, e como Grantham explica mais adiante, não será nada bonito, especialmente com a economia dos EUA já a caminho da crise:

Antes da crise do Covid-19 já tínhamos enormes problemas quer americanos quer globais: um clima cada vez mais perturbado causando inundações globais, secas e problemas agrícolas; um abrandamento do crescimento populacional, no mundo desenvolvido, que em breve será negativo; e um abrandamento constante dos ganhos de produtividade, especialmente no mundo desenvolvido, e, por conseguinte, uma tendência decrescente do PIB. Nos Estados Unidos, a nossa tendência de 3%+ ao ano desceu, na minha opinião, para 1,5% na melhor das hipóteses. Na Europa, está mais perto de um máximo de 1%. Tivemos, como mencionado, os 10% mais altos (PA/VR) históricos nos E.U.A. e em muito o nível de endividamento mais elevado de sempre nos E.U.A., tanto para as empresas como para o governo em tempo de paz. Assim, após 10 anos de recuperação económica, este teria sido um período historicamente perfeitamente normal para que houvesse uma inversão de trajetória

E depois fomos atingidos pelo vírus.

Simultaneamente, está a causar choques na oferta e na procura, como nunca antes. Nunca. Está a gerar uma contração económica muito mais rápida do que a da Grande Depressão. E ao contrário de 1989 no Japão, 2000 Tech (nos EUA), e 2008 (nos EUA e Europa), esta crise é verdadeiramente global. A queda do PIB e o aumento do desemprego em quatro semanas igualaram o que levou um a quatro anos a atingir na Grande Depressão e nunca foram atingidos nos outros acontecimentos. Rogoff & Reinhart, Professores de Harvard que escreveram a análise definitiva da crise de 2008, concordam que este evento é de facto completamente diferente e sugerem que serão necessários pelo menos 5 anos para recuperar os níveis de atividade de 2019. Mas isto é um palpite. Não sabemos realmente quanto tempo vai demorar. Quase certo é que uma recuperação em forma de V parece uma esperança perdida. O melhor resultado possível seria que venha a descobrir-se, quase milagrosamente, milhares de milhões de doses de vacinas eficazes até ao final do ano. Mas a maioria dos vírus nunca tiveram uma vacina útil e a maioria das vacinas úteis levaram mais de cinco anos a desenvolver-se e, quando desenvolvidas, tiveram apenas um sucesso parcial. Sim, desta vez haverá um enorme esforço com despesas sem precedentes. Mas mesmo assim, um reconhecido perito em vacinas diz que o sucesso rápido seria como “atrair com sucesso e de enfiada uma sequência de felizes descobertas”. E mesmo que tudo funcione bem com uma vacina, continuarão a existir feridas económicas profundas.

Entretanto, enquanto o mundo espera por uma vacina, e compra ações confiante de que uma vacina está iminente, as “falências já começaram (Hertz a 22 de maio) e no final do ano milhares delas chegarão a um pico da dívida empresarial já existente”. Vai necessitar uma gestão espetacular, o que poderá vir a ter. Mas poderá não o conseguir. Atirar dinheiro – papel e impulsos eletrónicos – para cima do problema pode ajudar a psicologia e, particularmente, a bolsa de valores, onde pode vir a parar o dinheiro de estímulo extra, mas não coloca necessariamente as pessoas de volta ao trabalho; haverá até 20% de desemprego por pelo menos durante algum tempo”.

Em resposta a este colapso económico histórico, os esforços de estímulo sem precedentes dos bancos centrais “sobrecarregaram temporariamente” as realidades económicas subjacentes, mas “é difícil acreditar que isso irá continuar”.

E quando parar, atenção ao que se segue: Grantham disse ao FT numa entrevista que depois de ver o preço dos mercados em “recuperação total” nas últimas semanas, “a minha confiança de que isto vai acabar mal está a aumentar”.

Falando de como os protestos contra a brutalidade policial e o racismo encheram as ruas das cidades dos EUA, Grantham disse que os anteriores surtos de instabilidade social tinham tido poucos efeitos duradouros na economia dos EUA, mas “há mais coisas a correr mal do que o normal”.

No entanto, a previsão mais sombria do legendário investidor financeiro foi que “se olharmos para trás daqui a dois ou três anos e este mercado inverter a trajetória e cair 50%, os livros de história dirão ‘Isso pareceu um dos grandes avisos de todos os tempos’. Era bastante óbvio que estava destinado a acabar mal”, disse Grantham, acrescentando: “Se acabar mal, os livros de história vão ser muito indelicados para os mercados em alta”. Para bem de toda uma geração de Robin dos Bosques que perderá tudo se houver uma queda de 50%, espera-se que Grantham esteja errado.

Por fim, Grantham também abordou a “questão mais importante das finanças neste momento”, revelando que se orgulhava de não ter “feito um alarido sobre a inflação” em 20 anos a escrever os seus textos de aconselhamento aos aforradores, textos amplamente lidos e seguidos, mas disse que montantes recordes de flexibilização monetária dos bancos centrais tinham agora criado a possibilidade de se registarem pressões inflacionistas.

“Com um programa de estímulo generoso em muitos países, pela primeira vez em 30 anos, se poderá sonhar com a inflação”.

A isto, tudo o que podemos acrescentar é que, num futuro muito próximo, esse sonho se tornará um pesadelo.

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O fundador e editor principal de Zero Hedge ou ZeroHedge foi identificado como sendo Daniel Ivandjiiski. (ver Wikipedia aqui e Business Insider em 01/02/2020 aqui)

 

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