PARA ONDE É QUE ELES IRÃO? – A GRANDE MIGRAÇÃO CLIMÁTICA – por ABRAHM LUSTGARTEN e MERIDITH KOHUT – III

 

 

 

 

 

Where will they go?: The Great Climate Migration, por Abrahm Lustgarten e  fotografias por Meridith Kohut

The New York Times Magazine, 23 de Julho de 2020

Selecção, tradução e adaptação por Júlio Marques Mota

 

Hoje em dia, 1 por cento do mundo é uma zona insuportavelmente quente, onde mal se pode viver. Em 2070 essa zona chegará a 19 por cento. Biliões de pessoas chamam casa  a esta terra. Para onde irão?

(continuação)

 

II. Como é que o clima faz mudar as pessoas

Delmira de Jesús Cortez Barrera mudou-se para a periferia de San Salvador há seis anos, após a sua vida no extremo ocidental rural de El Salvador – a apenas 90 milhas da aldeia de Jorge A. na Guatemala – ter entrado em colapso. Agora vende tortilhas ditas pupusas num quarteirão não muito longe de onde os adolescentes fazem a guarda ao gang Mara Salvatrucha.

Quando nos conhecemos no Verão passado, ela trabalhava seis dias por semana, ganhando 7 dólares por dia, ou menos de 200 dólares por mês. Ela confiava na bondade do seu patrão, que lhe dava algumas refeições gratuitas no trabalho. Mas para qualquer coisa mais  para o seu filho mais novo ela tinha de providenciar por si própria. Cortez viajou desde antes de amanhecer vinda  de San Marcos, onde vive  com a sua irmã num quarto barato num beco de uma zona para peões. Mas o seu apartamento ainda custa 65 dólares por mês. E enviava $75 para casa aos seus pais todos os meses – o suficiente para feijões e queijo para alimentar as duas filhas que deixava com eles. “Estamos a recuar”, disse ela.

A sua história – a de uma mulher sem instrução e sem qualificações,  de raízes agrícolas, que não consegue encontrar trabalho altamente remunerado na cidade e cai mais profundamente na pobreza – é uma história familiar, o padrão clássico de migração no interior do país em todo o mundo. San Salvador, entretanto, tornou-se notória como uma das cidades mais perigosas do mundo, uma capital em que os gangs há muito controlam tudo, desde as majestosas ruas coloniais às  suas praças do centro da cidade e até mesmo  aos escritórios dos políticos que nelas residem. É contra este pano de fundo de guerra, violência, furacões e pobreza que um em cada seis cidadãos de El Salvador fugiu para os Estados Unidos ao longo das últimas décadas, com cerca de 90.000 salvadorenhos detidos na fronteira dos EUA só em 2019.

Cortez nasceu a cerca de uma milha da fronteira guatemalteca, em El Paste, uma pequena cidade aninhada na beira de um vulcão. A sua família são  jornaleros – trabalhadores ao dia  que trabalham  nas grandes plantações de milho e feijão da zona – e alugaram uma cabana de dois quartos com paredes de lama e chão de terra, criando aí nove crianças. Por volta de 2012, uma praga de café agravada pelas alterações climáticas praticamente dizimou a colheita de El Salvador, cortando as colheitas em 70%. Depois, a seca e tempestades imprevisíveis levaram ao que uma organização de segurança alimentar filiada nas Nações Unidas descreve como “uma deterioração progressiva” dos meios de subsistência dos salvadorenhos.

Foi então que Cortez decidiu partir. Casou-se e encontrou trabalho como fabricante de tijolos numa fábrica na cidade vizinha de Ahuachapán. Mas os bandos encontraram presas fáceis em agricultores vulneráveis e espalharam-se pelo campo salvadorenho e pelas cidades periféricas, onde ganhavam a vida extorquindo os lojistas locais. Aqui podemos ver como as alterações climáticas podem agir como aquilo a que os funcionários do Departamento de Defesa por vezes se referem como um “multiplicador de ameaças”.

Para Cortez, a ameaça não poderia ter sido mais terrível. Após dois anos em Ahuachapán, um assassino ligado a um bando bateu à porta de Cortez e levou o seu marido, cuja ex-namorada era membro de um bando, executando-o em plena luz do dia a um quarteirão de distância.

Noutros tempos, Cortez poderia ter voltado para casa. Mas não havia trabalho em El Paste, nem água. Então ela mandou os seus filhos para casa dos seus pais e foi para San Salvador.

SAN SALVADOR. Delmira de Jesús Cortez Barrera (à esquerda) e a sua irmã (centro) abandonaram a sua zona rural depois da sua familia ter deixado de encontrar trabalho.

 

 

 

 

 

Entre todas as situações em que a migração humana é difícil de prever, uma tendência é clara: em todo o mundo, à medida que as pessoas ficam sem comida e abandonam as quintas, gravitam em direção às cidades, que rapidamente ficam sobrelotadas. É nestas cidades, onde ondas de novas pessoas levam as infraestruturas, recursos e serviços aos seus limites, que os investigadores da migração alertam para o facto de que as tensões mais severas na sociedade se irão multiplicar.

Os alimentos têm de ser importados – esticando a dependência de explorações já em dificuldades e aumentando o seu custo. As pessoas reunir-se-ão em favelas, com pouca água ou eletricidade, onde ainda serão mais vulneráveis a inundações ou outras catástrofes. Os bairros de lata alimentam o extremismo e o caos.

É uma mudança que já está a ser verificada, razão pela qual o Banco Mundial manifestou preocupações sobre o afluxo de pessoas a cidades da África Oriental como Adis Abeba, na Etiópia, onde a população duplicou desde 2000 e espera-se que quase duplique novamente até 2035. No México, o Banco Mundial estima que cerca de 1,7 milhões de pessoas podem migrar para longe das regiões mais quentes e secas, muitas das quais acabam por chegar à Cidade do México.

Mas como muito do resto da história do clima, a tendência de urbanização é também apenas o começo. Atualmente, pouco mais de metade da população do planeta vive em áreas urbanas, mas o Banco Mundial estima que, em meados do século, será de 67 por cento da população que aí viverá. Em apenas uma década, quatro em cada 10 residentes urbanos – dois mil milhões de pessoas em todo o mundo – viverão em bairros de lata. O Comité Internacional da Cruz Vermelha adverte que 96% do crescimento urbano futuro acontecerá em algumas das cidades mais frágeis do mundo, que já enfrentam um risco acrescido de conflito e têm governos que são menos capazes de lidar com este tipo de problemas. Algumas cidades serão incapazes de sustentar o influxo. No caso de Adis Abeba, o Banco Mundial sugere que, na segunda metade do século, muitas das pessoas que para  ali fugiram serão forçadas a deslocar-se novamente, deixando essa cidade à medida que a agricultura local à sua volta seca.

O nosso esforço de modelização baseia-se na noção de que nestas cidades, tal como elas existem agora, podemos ver as sementes do seu crescimento futuro. As relações entre fatores de qualidade de vida como o rendimento familiar em bairros específicos, níveis de educação, taxas de emprego, etc. – e como cada um deles mudou em resposta ao clima – revelariam padrões que poderiam ser projetados para o futuro. Tal como a humidade faz crescer o grão numa tábua de madeira, as informações só precisavam de ser alinhadas.

Em cada previsão científica que se faz quanto às  alterações climáticas globais, El Salvador fica mais quente e mais seco, e o nosso modelo está de acordo com o que outros investigadores disseram ser provável: San Salvador continuará a crescer como resultado, colocando ainda mais pessoas nos seus anéis externos já muito densos. O que acontece nestes países agrícolas, porém, é cada vez mais dependente das  políticas climáticas e de desenvolvimento que os governos mais ao norte escolhem para  enfrentar o aquecimento do planeta. Emissões elevadas, com poucas mudanças políticas globais e fronteiras relativamente abertas, levarão El Salvador rural – tal como a Guatemala rural – a esvaziar-se, mesmo à medida que as suas cidades crescem.

Se os Estados Unidos e outros países ricos mudassem a trajetória da política global, mesmo se, por exemplo, investindo  em esforços de mitigação do clima nos seus respetivos países mas também endurecendo as suas fronteiras – desencadeariam uma complexa cascata de repercussões mais a sul, de acordo com o modelo. As cidades centro-americanas e mexicanas continuariam a crescer, embora menos rapidamente, mas a sua riqueza e desenvolvimento global abrandariam drasticamente, muito provavelmente concentrando-se ainda mais a pobreza. Muito mais pessoas permaneceriam também no campo por falta de oportunidades, ficando encurraladas e mais desesperadas do que nunca.

ALTA VERAPAZ Moradores que vivem junto ao que resta do rio que antes atravessava a comunidade indígena Nuevo Paraíso.

 

As pessoas mudam-se para as cidades porque podem vê-las como sendo  um refúgio, oferecendo a fachada da ordem – edifícios altos e presença governamental – e a miragem da riqueza. Conheci vários homens que deixaram os seus campos agrícolas em busca de trabalho extremamente perigoso como guardas de segurança em San Salvador e na Cidade da Guatemala. Conheci um rapaz de 10 anos a lavar as janelas de um carro num semáforo, convencido de que as moedas no seu frasco ajudariam a voltar a comprar  as terras agrícolas que foram dos seus pais. As cidades oferecem escolhas, e uma sensação de que pode controlar o seu destino.

Estas mesmas cidades, porém, podem tornar-se armadilhas tão facilmente como os desafios que acompanham a rápida urbanização se acumulam rapidamente. Desde o ano 2000, a população de San Salvador cesceu mais de um terço, uma vez que absorveu migrantes das zonas rurais, mesmo quando dezenas de milhares de pessoas continuam a deixar o país e a migrar para norte. Em meados do século, a ONU estima que El Salvador – que tem 6,4 milhões de pessoas e é o país mais densamente povoado da América Central – será 86 por cento urbano.

Os nossos modelos mostram que grande parte do crescimento estará concentrado nos bairros de lata da cidade, locais como San Marcos, onde as pessoas vivem em milhares de estruturas decrépitas, muitas delas sem electricidade ou água doce. Nesses lugares, mesmo antes da pandemia e das suas consequências, era difícil encontrar bons empregos, a pobreza aprofundava-se e a criminalidade aumentava. A violência doméstica  também têm vindo a aumentar, e o declínio das condições sanitárias ameaça trazer  mais doenças. À medida que a sociedade se enfraquece, os bandos – cujos membros excedem em número a polícia em certas zonas de El Salvador em cerca de três para um – extorquem e recrutam. Tornaram a taxa de homicídios de San Salvador uma das mais altas do mundo.

Cortez esperava escapar à violência, mas não conseguiu. Os bandos correm pelo seu bloco de apartamentos, roubando televisões e recebendo pagamentos de proteção. Ela tinha testemunhado recentemente um assassinato dentro de uma clínica médica onde estava a entregar alimentos. A falta de segurança, a falta de habitação acessível, a falta de cuidados infantis, a falta de sustento – tudo isto influencia a evolução de sistemas urbanos complexos sob pressão migratória, e o nosso modelo considera tais tensões ao incorporar dados sobre crime, governação e cuidados de saúde. São sinais do que está para vir.

Uma semana antes da nossa reunião do ano passado, Cortez tinha decidido fazer a viagem aos Estados Unidos a quase qualquer custo. Durante meses, tinha “vontade de ir para longe”, mas a mudança para casa estava fora de questão. “O clima mudou, e provocou-nos”, disse ela, acrescentando que mal tinha chovido em três anos. “O meu pai, no ano passado, acabou de desistir”.

Cortez voltou a contar  o que fez a seguir. Quando a sua patroa deixou cair tortilhas pupusas  na fritadeira, Cortez virou-se para ela  e fez um pedido inimaginável: Aceitaria ela o bebé de Cortez? Era a única forma de salvar a criança, disse Cortez. Ela prometeu enviar dinheiro dos Estados Unidos, mas a mulher mais velha disse não – ela não se imaginava capaz de cuidar da criança.

Hoje San Salvador está fechada pela pandemia do coronavírus, e Cortez está confinada dentro do seu apartamento em San Marcos. Ela não trabalha há três meses e não consegue ver as suas filhas em El Paste. Foi-lhe concedida uma indulgência no aluguer durante o confinamento oficial do país, mas isso chegou ao fim. Ela continua convencida de que os Estados Unidos são a sua única salvação – os muros da fronteira devem ser condenados. Ela vai-se embora, disse ela, “à  primeira oportunidade que me seja permitida “.

ALTA VERAPAZ. Isabel Max Mez com a sua filha Katerin Michel Xol Max. A rapariga tem uma infeção de pele que os médicos dizem ter sido causada por água contaminada.

A maioria dos candidatos a migrantes não quer sair do país. Em vez disso, farão ajustes sucessivos para minimizar a mudança, mudando-se primeiro para uma grande cidade maior ou vila. Só quando esses lugares lhes falham é que tendem a atravessar fronteiras, fazendo viagens cada vez mais arriscadas, naquilo a que os investigadores chamam “migração por etapas”. Deixar uma aldeia para a cidade já é suficientemente difícil, mas atravessar a fronteira para uma terra estrangeira – vulnerável tanto à sua política como à sua própria agitação social – é uma experiência completamente diferente.

A sete milhas do rio Suchiate, que marca a fronteira da Guatemala com o México, situa-se Siglo XXI, um dos maiores centros de detenção de imigração do México, um complexo de betão com paredes de 30 pés, janelas gradeadas e uma cela de castigo. No início de 2019, as instalações de 960 camas estavam em grande parte vazias, uma vez que o México acolheu migrantes de passagem em vez de os deter.

Mas em março, à medida que os Estados Unidos aumentavam a pressão para impedir os centro-americanos de chegarem às suas fronteiras, o México tinha começado a deter os migrantes que atravessavam o seu território, colocando  quase 2.000 pessoas dentro deste centro, perto da cidade de Tapachula. Os detidos dormiam em colchões atirados para baixo nos corredores pintados de  branco, esperavam em filas para utilizar casas de banho transbordantes de fezes e amontoados ombro a ombro durante horas para obter uma refeição de carne enlatada à colher numa bandeja de metal.

Em 25 de Abril, migrantes presos invadiram a escadaria que conduz a uma plataforma de segurança fortificada no salão principal do centro, dominando os guardas e desbloqueando depois os portões principais. Mais de 1.000 guatemaltecos, cubanos, salvadorenhos, haitianos e outros entraram na noite de Tapachula.

Cheguei a Tapachula cinco semanas após a fuga para encontrar uma cidade a rebentar no cadinho da migração. Poucos meses antes, tinham sido oferecidos passeios, tortas e medicamentos a migrantes que passavam na fronteira sul do México, por um público mexicano simpático. Agora as famílias migrantes eram perseguidas nos campos por unidades armadas da guarda nacional, como se fossem soldados inimigos.

O México nem sempre acolheu migrantes, mas o Presidente Andrés Manuel López Obrador estava a tentar fazer do seu país um modelo para fronteiras cada vez mais abertas. Este esforço idealista era também pragmático: destinava-se a mostrar ao mundo uma alternativa à xenofobia beligerante de construção de muralhas que ele via ganhar força nos Estados Unidos. Fronteiras mais abertas, combinadas com ajuda externa estratégica e ajuda na base dos direitos humanos para impedir que os migrantes centro-americanos abandonassem as suas casas, conduziriam a um melhor resultado para todas as nações. “Quero dizer-lhes que podem contar connosco”, declarou López Obrador, prometendo aos migrantes autorizações de trabalho e empregos temporários.

Os arquitetos das políticas do México assumiram que os seus cidadãos tinham a paciência e a capacidade de absorver – económica, ambiental e socialmente – um tal afluxo de pessoas. Mas não conseguiram prever como o Presidente Trump iria manter a economia mexicana  refém para assim pressionar para que esta exercesse  a sua própria repressão anti-imigração, e foram apanhados desprevenidos pela forma como os fardos trazidos pelo tráfico de imigração pesavam sobre o próprio povo mexicano.

CHIAPAS. Juan Francisco Murcia (à esquerda), um migrante climático das Honduras, a  estudar  um mapa de abrigos perto das rotas de comboios para o norte.

Nos seis meses após a tomada de posse de López Obrador em Dezembro de 2018, cerca de 420.000 pessoas entraram no México sem documentação, de acordo com o Instituto Nacional de Migração do México.

Muitas passaram através de  Suchiate em pranchas de madeira  amarradas em grandes tubos interiores, pagando um par de dólares pela passagem. Em Ciudad Hidalgo, uma cidade fronteiriça nos arredores de Tapachula, migrantes acamparam na praça e lutaram nas ruas. Numa entrevista à noite no seu escritório, sob o brilho das luzes fluorescentes, o diretor de segurança pública da cidade, Luis Martínez López, fez barulho com as estatísticas quanto ao seu impacto: os assaltos à mão armada aumentaram 45%; os assassínios aumentaram 15%.

Se os crimes eram verdadeiramente atribuíveis aos migrantes era uma questão de debate significativo, mas a perceção era de que eles eram alimentados por uma impaciência crescente. Naquele mês de março, disse-me Martínez, um confronto entre uma multidão de cerca de 400 emigrantes e a polícia local tornou-se desordeira, e os emigrantes amarraram cinco agentes no centro da cidade. Ninguém ficou ferido, mas o incidente alimentou a preocupação dos habitantes locais de que as coisas estavam a ficar fora de controlo. “Costumávamos abrir-lhes as portas como irmãos e alimentá-los”, disse Martínez, que desde então deixou o seu emprego no governo. “Fiquei desiludido e zangado”.

Em Tapachula, uma cidade muito maior, o turismo e o comércio começaram a sofrer. Famílias inteiras de migrantes amontoavam-se nas portas do centro da cidade durante a noite, apinhando-se nas calçadas e dormindo enrolados em folhas  de papelão fino e manchadas de óleo. Os hotéis – normalmente quase esgotados em Dezembro – estavam menos de 65% cheios à medida que os visitantes se afastavam, receosos do crime.

As clínicas ficaram sem medicamentos. O impacto chegou num momento vulnerável: Enquanto muitos estados do norte do México tiveram um crescimento económico de 3 a 11% em 2018, Chiapas – o seu estado mais a sul – teve uma queda de 3% no seu produto interno bruto. “Estão esmagados”, disse o Rev. César Cañaveral Pérez, que obteve um doutoramento em teologia da mobilidade humana em Roma e gere agora o maior abrigo católico de migrantes de Tapachula.

TAPACHULA, MÉXICO. Jovens migrantes a tomar o pequeno-almoço num abrigo.

Os modelos não podem dizer muito sobre a tensão cultural que pode resultar de um afluxo climático; não há dados sobre raiva ou preconceito. O que eles dizem é que, nas próximas duas décadas, se as emissões climáticas continuarem como estão, a população do sul do México crescerá acentuadamente.

Ao mesmo tempo, o México tem as suas próprias preocupações climáticas sérias e, muito provavelmente, assistirá ao seu próprio êxodo climático. Um em cada seis mexicanos depende agora da agricultura para o seu sustento, e perto de metade da população vive na pobreza. Estudos estimam que, com as alterações climáticas, a disponibilidade de água per capita poderia diminuir até 88 por cento em alguns locais, e o rendimento das colheitas nas regiões costeiras poderia cair de  um terço. Se essa mudança causar de facto uma onda de migrantes mexicanos, muitos deles virão muito provavelmente de Chiapas.

No entanto, um aumento líquido da população ao mesmo tempo – que é o que os nossos modelos assumem – sugere que mesmo quando cerca de um milhão de migrantes climáticos chegam à fronteira dos EUA, muitos mais centro-americanos ficarão presos em trânsito prolongado, incapazes de avançar ou recuar na sua viagem, permanecendo no sul do México e tornando o seu atual stress muito pior.

Já no final do ano passado, as políticas mal planeadas do governo mexicano tinham começado a desfazer-se em algo mais insidioso: ressentimento e ódio crescentes. Agora que a pandemia do coronavírus fechou efetivamente as fronteiras, esses sentimentos correm o risco de começarem a borbulhar. Os migrantes, sem terem para onde ir e sem abrigos capazes de os acolher, vagueiam pelas ruas, incapazes de se distanciarem socialmente e sem sequer saneamento básico.

A situação irritou muitos cidadãos mexicanos, que começaram a descrever os migrantes como parasitas económicos e a questionar a ajuda estrangeira destinada a ajudar as pessoas a lidar com a seca nos locais de onde Jorge A. e Cortez são originários.

“Como se atreve a AMLO a dar 30 milhões de dólares a El Salvador quando não temos serviços aqui?” perguntou Javier Ovilla Estrada, líder de um grupo comunitário na cidade fronteiriça sul, Ciudad Hidalgo, referindo-se à participação de López Obrador num plano de desenvolvimento multibilionário com a Guatemala, Honduras e El Salvador. Ovilla tornou-se um forte defensor de um novo Movimento México-Primeiro, organizando milhares de pessoas para marchar contra os imigrantes. Meses antes da propagação do coronavírus, encontrámo-nos na sala de jantar estéril de um restaurante chinês que frequenta em Ciudad Hidalgo, e ele ecoou os mesmos sentimentos anti-imigrantes que se erguem nos Estados Unidos e na Europa.

Os migrantes “não amam este país”, disse ele. Ele aponta para grupos anti-imigrantes no Facebook espalhando rumores de que os migrantes roubaram votos e manipularam as eleições presidenciais mexicanas, que assassinam impunemente e dirigem bordeis.

Ele não é o primeiro a dizer-me que os migrantes traficam doenças – que Suchiate em breve será esmagada pelo Ébola. “Deviam-se fechar as fronteiras de uma vez por todas”, disse ele. Se não o fizerem, adverte ele, o país afundar-se-á ainda mais na ilegalidade e no conflito. “Vamos sair para as ruas para defender as nossas casas e as nossas famílias”.

 

SAN MATEO, MÉXICO. Uma operação de forças conjuntas que inclui soldados da Guarda Nacional Mexicana, agentes da polícia federal e agentes de imigração que detêm imigrantes durante uma rusga num comboio.
(continua)

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Para ler a Parte II deste trabalho, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

PARA ONDE É QUE ELES IRÃO? – A GRANDE MIGRAÇÃO CLIMÁTICA – por ABRAHM LUSTGARTEN e MERIDITH KOHUT – II

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