PARA ONDE É QUE ELES IRÃO? – A GRANDE MIGRAÇÃO CLIMÁTICA – por ABRAHM LUSTGARTEN e MERIDITH KOHUT – II

 

 

 

 

 

(continuação)

Where will they go?: The Great Climate Migration, por Abrahm Lustgarten e  fotografias por Meridith Kohut

The New York Times Magazine, 23 de Julho de 2020

Selecção, tradução e adaptação por Júlio Marques Mota

 

Hoje em dia, 1 por cento do mundo é uma zona insuportavelmente quente, onde mal se pode viver. Em 2070 essa zona chegará a 19 por cento. Biliões de pessoas chamam casa  a esta terra. Para onde irão?

 

I. UM TIPO DIFERENTE DE MODELO CLIMÁTICO

Em Novembro de 2007, Alan B. Krueger, um economista do trabalho conhecido pelo seu trabalho estatístico sobre a desigualdade, entrou nos escritórios da Universidade de Princeton de Michael Oppenheimer, um importante geocientista climático, e perguntou-lhe se alguém alguma vez tinha tentado quantificar como e para onde as alterações climáticas poderiam levar as pessoas a mudarem-se.

No início desse ano, Oppenheimer ajudou a escrever o relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas das Nações Unidas que, pela primeira vez, explorou em profundidade como a perturbação climática poderia desenraizar grandes segmentos da população a nível global. Mas por mais inovador que tenha sido o relatório – a ONU foi reconhecida pelo seu trabalho com um Prémio Nobel da Paz – as disciplinas académicas de cujo trabalho ele fez a síntese estavam em grande parte em compartimentos separados umas das outras. Demógrafos, agrónomos e economistas estavam todos a fazer o seu trabalho sobre as alterações climáticas isoladamente, mas a compreensão da questão da migração teria de incluir todos eles.

Juntos, Oppenheimer e Krueger, que faleceram em 2019, começaram a interessar-se pela questão, interrogando-.se  se as ferramentas tipicamente utilizadas pelos economistas poderiam dar uma ideia dos efeitos do ambiente na decisão das pessoas em migrarem. Começaram a examinar as relações estatísticas – digamos, entre os dados do censo e os rendimentos das colheitas e os padrões climáticos históricos – no México para tentar compreender a forma como os agricultores de lá respondem à seca. Os dados ajudaram-nos a criar uma medida matemática da sensibilidade dos agricultores às mudanças ambientais – um fator que Krueger poderia utilizar da mesma forma que ele poderia avaliar as políticas fiscais, mas para aplicar a migrações futuras.

O seu estudo, publicado em 2010 em Proceedings of the National Academy of Sciences[1], descobriu que a migração mexicana para os Estados Unidos pulsou para cima durante períodos de seca e calculou que, até 2080, as alterações climáticas poderiam conduzir mais 6,7 milhões de pessoas para a fronteira sul dos Estados Unidos. “Foi”, disse Oppenheimer, “uma das primeiras aplicações da modelização econométrica ao problema da migração climática”.

TABASCO, MEXICO

A modelização foi um começo. Mas era hiperlocal em vez de global, e deixou em aberto enormes questões: como é que as diferenças culturais poderiam mudar os resultados, por exemplo, ou como é que as mudanças de população poderiam ocorrer em regiões maiores. Foi também controverso, desencadeando uma forte  reação negativa entre os céticos das alterações climáticas, que atacaram o esforço de modelização como “adivinhação” construída sobre “ténues suposições” e argumentaram que um modelo não podia separar o efeito das alterações climáticas de todas as outras influências complexas que determinam a tomada de decisões humanas e a migração. Este argumento acabou por encontrar alguma influência junto dos investigadores de migração, muitos dos quais continuam relutantes em modelar números precisos de migração.

Mas para Oppenheimer e Krueger, os riscos de dar uma forma específica a esta ameaça bem estabelecida, mas amorfa, pareciam valer a pena. No início dos anos 70, afinal, muitos investigadores tinham utilizado um argumento semelhante contra o recorrer a modelos informáticos para prever as alterações climáticas, argumentando que os cientistas não deveriam traficar previsões.

Outros ignoraram esse conselho, produzindo algumas das primeiras projeções sobre o impacto terrível das alterações climáticas, e com eles algumas das primeiras oportunidades para tentar fugir a esse destino. Para Oppenheimer, a tentativa de prever as consequências da migração, impulsionada pelo clima, requereu esforços igualmente provocadores. “Se outros têm melhores ideias para estimar como as alterações climáticas afetam a migração”, escreveu ele em 2010, “eles deveriam publicá-las”.

Desde então, a abordagem de Oppenheimer tornou-se comum. Dezenas de outros estudos aplicaram a modelação econométrica a problemas relacionados com o clima, aproveitando muitos dados  para melhor compreender como as mudanças e conflitos ambientais conduzem, cada um deles, às migrações e tentar clarificar como funciona o ciclo. O clima raramente é a principal causa da migração, é o que os estudos têm geralmente encontrado, mas é quase sempre uma causa exacerbante.

À medida que investigaram mais de perto, os investigadores em migrações  encontraram as impressões digitais subtis do clima em quase todo o lado. A seca empurrou muitos sírios para as cidades antes da guerra, agravando as tensões e levando a um descontentamento crescente; as perdas de colheitas levaram ao desemprego que alimentaram as revoltas da Primavera árabe no Egipto e na Líbia; o próprio Brexit, foi indiscutivelmente um efeito de ondulação do afluxo de migrantes trazidos para a Europa pelas guerras que se verificaram.

E todos esses efeitos estavam ligados ao movimento de apenas dois milhões de pessoas. À medida que os mecanismos de migração climática se tornarem mais acentuados – escassez de alimentos, escassez de água e calor – o potencial latente para o movimento em grande escala parece astronomicamente maior.

TABASCO. Bayron Coto (frente) deixou a sua casa nas Honduras para sustentar a sua família após um furacão ter destruído as culturas locais de milho, feijão e café.

O Sahel do Norte de África fornece um bom exemplo. Nos nove países que se estendem pelo continente desde a Mauritânia até ao Sudão, o extraordinário crescimento populacional e o acentuado declínio ambiental estão em rota de colisão. As secas passadas, muito provavelmente causadas pelas alterações climáticas, já mataram mais de 100.000 pessoas.

E a região – com mais de 150 milhões de pessoas e em crescimento – está ameaçada pela rápida desertificação, pela  ainda mais grave escassez de água e a desflorestação. Atualmente, os investigadores nas Nações Unidas estimam que cerca de 65% das terras cultiváveis já foram degradadas. “O meu profundo receio”, disse Solomon Hsiang, um investigador e economista climático da Universidade da Califórnia, Berkeley, é que a transição de África para uma civilização pós-climática “conduza a uma efusão constante de pessoas”.

A história é semelhante no Sul da Ásia, onde vive quase um quarto da população mundial. O Banco Mundial prevê que a região terá em breve a maior prevalência de insegurança alimentar do mundo. Embora cerca de 8,5 milhões de pessoas já tenham fugido – reinstalando-se principalmente no Golfo Pérsico – mais 17 a 36 milhões de pessoas poderão em breve ser desenraizadas, na opinião do Banco Mundial. Se os padrões do passado podem servir de  medida, muitos estabelecer-se-ão no Vale do Ganges na Índia; no final do século, as ondas de calor e humidade tornar-se-ão tão extremas lá que as pessoas sem ar condicionado simplesmente morrerão.

Se não for a seca e os insucessos nas colheitas a forçarem um grande número de pessoas a fugir, será a subida das águas do mar a fazê-lo.  Estamos agora a aprender que os cientistas climáticos têm vindo a subestimar o deslocamento futuro devido à  subida das marés por um fator de três, sendo o número provável de cerca de 150 milhões a nível mundial. Novas projeções mostram que a subida das marés levará a que as águas passarão a ocupar  grande parte do Vietname até 2050 – incluindo a maior parte do Delta do Mekong, atualmente com 18 milhões de habitantes – bem como partes da China e Tailândia, a maior parte do sul do Iraque e quase todo o Delta do Nilo, o celeiro do Egipto. Muitas regiões costeiras dos Estados Unidos estão também em risco.

Através de toda a investigação, surgiram previsões aproximadas sobre a escala da migração climática global total – variam entre 50 milhões e 300 milhões de pessoas deslocadas – mas os dados globais são limitados, e subsistem incertezas sobre como aplicar padrões de comportamento a pessoas específicas em locais específicos. Agora, porém, novas investigações em ambas as frentes criaram uma oportunidade para melhorar tremendamente os modelos.

Há alguns anos, geógrafos climáticos da Universidade de Columbia e da Universidade da Cidade de Nova Iorque começaram a trabalhar com o Banco Mundial na construção de uma ferramenta de próxima geração para estabelecer cenários de migração plausíveis para o futuro. A ideia era construir modelos  ao estilo das medidas praticadas por  Oppenheimer como  resposta ao ambiente e combiná-los com outros métodos de análise, incluindo um modelo de “gravidade”, que avalia a atratividade relativa dos destinos com a esperança de antecipar matematicamente onde é que os migrantes podem ir parar. O relatório resultante, publicado no início de 2018, envolveu seis instituições europeias e americanas e levou quase dois anos a ser concluído.

O trabalho do Banco visou os pontos quentes do clima na África Subsaariana, Ásia do Sul e América Latina, focando-se não no deslocamento de emergência de pessoas por via dos desastres naturais, mas nas suas respostas premeditadas ao que os investigadores chamam mudanças “lentas” no ambiente.

Determinaram que, à medida que as alterações climáticas progredissem apenas nestas três regiões, cerca de 143 milhões de pessoas seriam deslocadas dentro das suas próprias fronteiras, deslocando-se principalmente de zonas rurais para cidades e vilas próximas. O estudo, porém, não foi afinado a alterações climáticas específicas, como o declínio das reservas de águas subterrâneas. E nem sequer se tentou abordar o elefante na sala:

Como é que o clima empurraria as pessoas a migrar através das fronteiras internacionais?

 

CHIAPAS, MEXICO. Coto (direita) subindo para um comboio com outros migrantes

No início de 2019, The Times Magazine e ProPublica, com o apoio do Centro Pulitzer, contrataram um autor do relatório do Banco Mundial – Bryan Jones, um geógrafo do Baruch College – para acrescentar camadas de dados ambientais ao seu modelo, tornando-o ainda mais sensível às alterações climáticas e expandindo o seu alcance. O nosso objetivo era retomar o estudo  onde os investigadores do Banco Mundial o tinham deixado, a fim de modelizar, pela primeira vez, a forma como as pessoas se deslocariam entre países, especialmente da América Central e do México em direção aos Estados Unidos.

Primeiro reunimos conjuntos de dados existentes – sobre estabilidade política, produtividade agrícola, stress alimentar, disponibilidade de água, ligações sociais, clima e muito mais – a fim de aproximar à complexidade caleidoscópica da tomada de decisões humanas.

Depois começámos a fazer perguntas: Se as colheitas continuarem a diminuir devido à seca, por exemplo, e as pessoas forem forçadas a responder mudando-se, como fizeram no passado, podemos ver para onde irão e ver que novas condições poderão introduzir? É muito difícil modelizar a forma como as pessoas pensam individualmente ou responder a estas perguntas utilizando pontos de dados individuais – até porque muitas vezes os dados simplesmente não existem. Em vez de adivinhar o que Jorge A. vai fazer e depois multiplicar essa decisão pelo número de pessoas em circunstâncias semelhantes, o modelo analisa populações inteiras, calculando a média das tendências na tomada de decisões comunitárias com base em padrões estabelecidos, e depois ver como essas tendências se desenrolam em diferentes cenários.

No total, alimentámos o nosso modelo com mais de 10 mil milhões de pontos de dados. Depois testámos as relações no modelo retroativamente, verificando onde a causa e o efeito históricos poderiam ser apoiados empiricamente, para ver se as projeções do modelo sobre o passado correspondem ao que realmente aconteceu. Assim que o modelo foi construído e estratificado com ambas as abordagens – econométrica e gravitacional – analisámos a forma como as pessoas se moviam à medida que as concentrações globais de carbono aumentavam em cinco cenários diferentes, que imaginam várias combinações de crescimento, comércio e controlo de fronteiras, entre outros fatores. (Estes cenários tornaram-se normais  entre os cientistas e economistas climáticos na modelização de diferentes vias de desenvolvimento socioeconómico global).

Só um supercomputador poderia processar eficazmente o trabalho na sua totalidade; estimar a migração da América Central e do México num caso exigiu o carregamento da nossa consulta para um mainframe federal alojado num edifício do tamanho de um pequeno campus universitário fora de Cheyenne, Wyo, gerido pelo Centro Nacional de Investigação Atmosférica, onde mesmo aí  foram necessários quatro dias para a máquina calcular as suas respostas.

Os resultados são construídos em torno de uma série de pressupostos sobre as relações entre os desenvolvimentos do mundo real que não foram todos validados cientificamente. O modelo também assume que as relações complexas – digamos, como a seca e a estabilidade política se relacionam umas com as outras – permanecem consistentes e lineares ao longo do tempo (quando na realidade sabemos que as relações mudarão, mas não sabemos como). Muitas pessoas ficarão também presas pelas suas circunstâncias, demasiado pobres ou vulneráveis para se moverem, e os modelos têm dificuldade em prestar contas por eles.

Tudo isto significa que o nosso modelo está longe de ser definitivo. Mas cada um dos cenários que produz aponta para um futuro em que as alterações climáticas, atualmente uma influência perturbadora subtil, se tornam uma fonte de grandes perturbações, conduzindo cada vez mais à deslocação de vastas populações.

GUATEMALA CITY. Fracas colheitas estão cada vez mais a  levar residentes do mundo rural  emigrarem para as cidades .
(continua)

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[1] Veja-se: Groundswell: Preparing for Internal Climate Migration, dissponível em:

https://www.worldbank.org/en/news/infographic/2018/03/19/groundswell—preparing-for-internal-climate-migration

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Para ler a parte I deste trabalho, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

PARA ONDE É QUE ELES IRÃO? – A GRANDE MIGRAÇÃO CLIMÁTICA – por ABRAHM LUSTGARTEN e MERIDITH KOHUT – I

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