CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – LXXIII – A POLÍTICA MONETÁRIA E ORÇAMENTAL DO REINO UNIDO ESTÁ A TORNAR-SE VIRAL, por VICTOR HILL

 

UK fiscal and monetary policy go viral, por Victor Hill

Masterinvestor, 17 de Julho de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O financiamento monetário – através do qual os bancos centrais compram obrigações do Estado para financiar os seus défices – é agora comum, sobretudo no Reino Unido. Mas durante quanto tempo pode o governo britânico confiar na árvore do dinheiro mágico para pagar as suas contas, pergunta Victor Hill.

 

Eis a árvore da moeda mágica!

 

Afinal de contas, ela existe! – apesar da Sra. May ter dito que não havia nenhuma. Os Tories foram em tempos o partido da prudência fiscal, finanças robustas e auto-disciplina – lembram-se da parelha pantomimeira de Cameron-Osborne e do seu regime de austeridade? De facto, os Conservadores ganharam as eleições gerais há apenas sete meses, alegando que o Sr. Corbyn era um gastador a quem não se podia confiar os cordões da bolsa nacional. Mas agora o Sr. Sunak não pode levantar-se na Câmara dos Comuns sem prometer um milhar de milhões  aqui ou três mil milhões  ali, como se o seu trabalho fosse apenas continuar a empurrar o pilim…Mais uma vez, o vírus mudou tudo.

Consideremos apenas a extraordinária deterioração das finanças governamentais que se tem vindo a verificar desde que o Primeiro-Ministro Johnson declarou um confinamento  nacional a 23 de Março. O défice orçamental de 2020-21 previsto no primeiro orçamento do Sr. Sunak de 11 de Março era de cerca de 44 mil milhões de libras – pelo que os livros ainda não se equilibrariam mas, como proporção do PIB, o défice desceria para 2,1 por cento – respeitável por qualquer comparação internacional. No Relatório Especial que co-escrevi com James Faulkner em meados de Abril, especulei que o défice subiria provavelmente acima  de 150 mil milhões de libras esterlinas. Isto baseou-se numa estimativa do custo do Job Retention Scheme (a iniciativa da suspensão temporária de trabalho financiada pelo governo) mais uma estimativa da redução de impostos para o ano.

Mas só em Maio o governo britânico pediu emprestado 55 mil milhões de libras – isto é nove vezes mais do que em Maio de 2019. A última estimativa do IFS [NT – Institute for Fiscal Studies] é que o défice  orçamental  de 2020-21 será de cerca de £350 mil milhões – cerca de 18 por cento do PIB, e o dobro do défice de 2008-09. Será ainda de 150 mil milhões de libras esterlinas em 2021-22. O rácio da dívida do Reino Unido em relação ao PIB passará de pouco mais de 80 por cento para pouco mais de 100 por cento em quatro meses – e ainda está a aumentar. Isto é totalmente sem precedentes, mesmo em comparação com a trajetória das finanças públicas durante a Segunda Guerra Mundial.

O que aconteceu é que as despesas do Estado foram aumentadas para níveis extraordinários – muito para além de tudo o que os sonhos dos senhores Corbyn e McDonnell sonhavam em Dezembro passado – enquanto que as receitas fiscais (receitas do governo) se encolheram para um nível visto pela última vez há 40 anos. E cerca de 200 mil milhões de libras do défice esperado de mais de 300 mil milhões de libras serão agora financiados pelo Banco de Inglaterra através de uma flexibilização quantitativa (QE).

Sabíamos que o Sr. Johnson considerava a austeridade como um palavrão. Mas nenhum de nós esperava um tsunami de novas despesas a esta escala – mas então quantas pessoas previam uma pandemia em 2020? A pandemia não o dissuadiu de acelerar um programa de investimento em infraestruturas; pelo contrário, ele anunciou um programa para construir, construir, construir dentro do espírito do New Deal de FDR[NT – Franklin Delano Roosevelt]. Como se esta fosse a idade da pá e do túnel, e não a da IA e da robótica.

Depois há a questão dos cuidados sociais – ou seja, como pagamos os cuidados aos idosos. Um Serviço Nacional de Cuidados pode estar em risco – e será colossalmente caro (e não funcionará por razões que explicarei em breve).

O Sr. Sunak, um antigo aluno da Goldman Sachs, compreende a economia monetária e financeira. Mas será que ele compreende que novas despesas são fáceis, enquanto a redução do excesso de despesas é geralmente impossível do ponto de vista político? Nove milhões de trabalhadores ainda estão a ser despedaçados, com o Estado a pagar 80% dos seus salários até £2.500 por mês. Quando o esquema terminar em Outubro, um número considerável desses nove milhões será despedido e reclamará benefícios posteriormente. O bónus de retenção de emprego do Sr. Sunak de £1.000 a pagar em Janeiro não será suficiente para evitar um aumento massivo  do desemprego. Soubemos ontem que os números da folha de pagamentos do Reino Unido já tinham diminuído em 649.000[i]. E o custo de possivelmente quatro milhões de pessoas desempregadas será enorme e duradouro – não incluindo o custo da desordem social daí resultante.

O esquema da suspensão temporária  pode ser visto como uma medida de emergência única; mas as refeições escolares gratuitas nas férias, uma vez concedidas, estão provavelmente aqui para ficar. Para não mencionar os 1,5 milhões adicionais de novos requerentes de benefícios desde Março. Depois há o esquema para pagar os salários de até 300.000 jovens a crédito universal se as empresas os empregarem durante pelo menos seis meses. A Grã-Bretanha tem beneficiado enormemente desde a era Thatcher de um mercado de trabalho flexível. O que a Grã-Bretanha precisa não é de interferência governamental no mercado de trabalho, mas sim de uma requalificação abrangente. (A política do Sr. Blair de que todos os jovens devem ir para a universidade – quer académica ou não – descarrilou isso – e deve ser desfeita). O Sr. Sunak é um dos poucos políticos britânicos que emergiu da pandemia com a sua reputação reforçada. Mas como devemos encará-lo dentro de cinco anos?

O que enfrentamos (como os senhores Cameron e Osborne entenderam em 2010) é um défice estrutural que só irá aumentar com o passar do tempo. Dado o envelhecimento da população, os custos dos cuidados de saúde e das pensões irão inevitavelmente aumentar. Em 2037, um quarto da população do Reino Unido terá mais de 65 anos. O OBR[NT – Office for Budget Responsibility] projetava mesmo antes da pandemia atingir o país que o rácio dívida/PIB do Reino Unido poderia atingir um espantoso 282 por cento até 2068 se estas questões não forem abordadas. Mas ninguém em nenhum dos lados da divisão política tem um plano para sustentar  as nossas finanças.

A pedido do Sr. Bailey…

 

Andrew Bailey foi nomeado como novo Governador do Banco de Inglaterra pelo antecessor de Sunak, o ministro  Javid. A palavra nos círculos Tory é que o Número Dez teria preferido muito Andy Haldane, o altamente respeitado Economista-Chefe do Banco, na cadeira de topo. Sabe-se que  Bailey acredita que não é tarefa dos bancos centrais financiar as despesas excessivas  dos seus governos. Embora tenha presidido ao corte das taxas de juro para um incrível 0,1% (chamemos-lhe zero), estaria disposto a aumentar as taxas se a inflação ganhasse força. E, dados estes níveis de dívida governamental, mesmo uma taxa de base de apenas um por cento poderia explodir as finanças do governo.

Poucos economistas esperam um aumento das taxas a curto prazo; mas muitos, não menos importantes, como Tim Congdon, acreditam que é provável que as pressões inflacionistas se acumulem a médio prazo. Já existe um surto de inflação puxada pela procura no Reino Unido. À medida que as pessoas regressam aos salões de cabeleireiro, estão a descobrir que os preços subiram substancialmente. Isto deve-se em parte ao facto de os proprietários de salões de cabeleireiro terem tido de investir em equipamento de proteção, e em parte porque tiveram de cobrir os seus custos fixos, ao mesmo tempo que geraram zero receitas durante quase quatro meses. E passa-se a mesma história na indústria hoteleira.

Mais significativamente, há o impulso monetário no sentido de uma inflação mais elevada. Nos primeiros dez anos de QE no Reino Unido, o Banco de Inglaterra injetou cerca de 450 mil milhões de libras esterlinas na economia britânica. Mas desde o confinamento de março, a Velha Senhora injetou mais 745 mil milhões de libras na economia. Em condições económicas “normais”, esta injeção  poderia alimentar um aumento da inflação. Mas sucede que desde cerca de 2006 não temos estado a viver  em condições “normais”.

Em toda a zona euro-UE, EUA, Japão e até os bancos centrais conservadores da Suécia estão a imprimir dinheiro para emprestar aos governos com resultados peculiares. Cerca de um quinto do stock global total da dívida pública tem agora um rendimento negativo. Isto significa que os investidores estão a pagar aos governos pelo facto de terem “o privilégio”  de lhes emprestar o seu dinheiro. Isto ameaça a viabilidade dos investidores institucionais, tais como fundos de pensões e seguradoras, a longo prazo.

E supondo que o Sr. Bailey decidisse que já chega – e recusar, à queima-roupa, comprar mais títulos de divida pública recém-emitidas? E se os fundos de pensões entrassem em greve sobre estas aquisições ? Esse seria o momento em que o governo teria de aumentar os impostos de forma acentuada e à pressa. Sem dúvida que as pessoas que se inclinam para a Esquerda acolheriam de bom grado gastos mais elevados e impostos mais elevados – talvez impostos sobre a riqueza dos “ricos” (dos quais os super-ricos escaparão e que serão suportados pela classe média pobre e sofredora que já paga impostos sobre a riqueza sob a forma de imposto sucessório). E será que os impostos sobre a fortuna englobariam a habitação e os ativos das pensões? Mas será para isso que o governo Tory foi eleito? Da próxima vez, se quiser o socialismo, poderá votar em Sir Keir Starmer em vez dos  Keynesianos do Partido Conservador.

O perito fiscal Sir Edward Troup considera que, mais cedo ou mais tarde, aumentos substanciais dos impostos são inevitáveis [ii]. Neste momento, dada a fragilidade da economia, o aumento dos impostos está fora de questão, uma vez que ao fazê-lo qualquer recuperação poderia ser estrangulada. O imposto sobre ganhos de capital, diz Sir Edward, precisa de ser reformado; mas isso não será suficiente. A dada altura, os “grandes” impostos – imposto sobre o rendimento, seguro nacional e IVA – terão de ser lançados. Um aumento do imposto sobre o rendimento de apenas um cêntimo na libra aumentaria cerca de 5 mil milhões de libras – embora mesmo isso seja ração para galinhas quando se tem um défice de 300 mil milhões de libras. E atualmente os salários médios estão a cair pela primeira vez em seis anos, pelo que as receitas marginais associadas a um aumento do imposto sobre o rendimento estão a diminuir.

Quando os impostos aumentam, todos os agregados familiares economicamente ativos serão afetados, sendo os jovens mais negativamente afetados do que os idosos. O IFS calcula que 40 por cento dos menores de 25 anos ou estão com os empregos temporariamente suspensos  ou na situação de desempregados, em comparação com 25 por cento dos jovens de 35-54 anos. Esta é outra razão para acabar com o “triplo bloqueio” do Sr. Osborne sobre as pensões de reforma na função pública.

Neste momento, de acordo com o último Monitor Fiscal do FMI, a carga fiscal no Reino Unido situa-se em 36,6% do PIB – em comparação com 52,8% em França. Em Hong Kong e Singapura, é de cerca de 20 por cento. Podemos estar certos de que os Trabalhistas argumentarão que impostos mais elevados são simultaneamente viáveis e desejáveis.

A única forma de retirar o país deste fosso de endividamento e depressão é fomentar um crescimento económico dinâmico. Isto, por sua vez, só pode ser conseguido se a produtividade britânica, que tem sido medíocre desde a crise financeira, for abordada. Haverá algumas oportunidades para o fazer após o dia 31 de Dezembro. Mas será que o governo Johnson as aproveitará?

Há uma escola de pensamento de que a inflação é boa porque reduz o peso da dívida em termos reais. Mas uma inflação mais elevada significaria também taxas de juro mais elevadas e, portanto, custos do serviço da dívida muito mais elevados. E cerca de um terço das emissões em vigor estão indexadas de qualquer forma, tornando a inflação irrelevante. Provavelmente iremos viver com níveis impressionantes de endividamento num futuro previsível.

O Inverno vem a caminho

 

As finanças públicas estão, por agora, fora de controlo. A libra esterlina não é uma moeda de reserva e o Reino Unido tem um enorme défice comercial como contraponto do seu  défice fiscal. Estamos provavelmente prestes a começar a negociar nos termos da OMC com a UE e um acordo comercial abrangente com os EUA parece improvável (aparentemente, o Sr. Gove, que é de facto o vice-primeiro-ministro, está contra isso). A China está a tornar-se desagradável. (O regime de Pequim sempre foi desagradável, mas a elite de Westminster fingiu o contrário).

O Reino Unido parece agora solitário – especialmente dado que o presidente mais anglófilo da minha vida está a lutar pela sua vida política. A grande estratégia óbvia seria reunir novamente as democracias anglófonas que reconhecem Sua Majestade A Rainha como o seu Chefe de Estado numa zona económica comum. A Secretária de Estado do Comércio, Sra. Truss, aspirou a algo nesse sentido – mas, aparentemente, está de saída, tendo caído em desagrado para com Cummings.

E o início do Inverno – daqui a apenas quatro meses – está a encher de apreensão os decisores políticos. Um relatório divulgado esta semana pela Academia de Ciências Médicas do Reino Unido alertou que uma segunda vaga de Covid-19, combinada com um surto de gripe sazonal, poderia resultar em mais 120.000 mortes no Reino Unido. Pode ou não haver uma vacina prontamente disponível até ao primeiro trimestre de 2021 – embora houvesse algumas notícias encorajadoras nessa frente esta semana, com os títulos das empresas farmacêuticos a valorizarem-se em conformidade. Apesar disso, devemos preparar-nos para mais más notícias.

Irei explorar o tema da nova política monetária mais aprofundadamente e num contexto global na edição de Agosto da revista Master Investor. Explicarei como, tal como temos mantido empresas  zombies através de taxas de juro quase nulas, estamos a entrar na era dos estados zombies: nações com dívidas que não conseguem crescer e que não vão a lado nenhum. Na realidade, elas já existem.

***

Sobre outro tema, aqueles que dizem mal do Presidente Trump pela forma como lidou com a pandemia nos EUA podem refletir que (como sabemos agora, graças à sua sobrinha magoada, Mary) o seu próprio avô morreu da gripe espanhola em 1919, forçando o seu pai, Frederick, a tornar-se chefe de família aos 12 anos de idade. É muito interessante que o Presidente nunca o tenha mencionado.

Esta semana, o Presidente abanou a sua equipa de campanha enquanto as sondagens revelavam que ele estava atrás de  Biden por dois dígitos. Alguns acreditam que ele já perdeu. Em breve, vou expor os riscos negativos  que se apresentam para todos os investidores com   uma presidência Biden.

[i] See: https://www.bbc.co.uk/news/business-53427304

[ii] Interview on BBC R4’s Today Programme, 07:53 hours 16 July 2020. Available at https://www.bbc.co.uk/sounds/play/m000kwfl 

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