A direita dividida sobre as políticas de confinamento contra o Covid no Reino Unido – “Um aliado do número 10 Downing Street avisa que a abordagem draconiana de Boris Johnson regressará depois para o assombrar”. Por Camilla Tominey

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

O texto que se segue é bem elucidativo das posições de uma certa direita quanto às políticas que devem ser seguidas para combater o Covid, um artigo saído recentemente num bem conhecido meio de comunicação social, o The Telegraph.

The Telegraph, informa que um apoiante do atual governo britânico alerta para o facto da abordagem apelidada de draconiana por parte de Boris Johnson terá uma alto custo político em virtude da quebra da economia e do emprego. É a tese da “economia acima das vidas humanas”, de “o governo não poder emitir dinheiro para responder a uma situação de emergência”, do “orçamento equilibrado”, enfim, das políticas austeritárias.

Mas, e de onde vem a pressão desta vez? Quem é esse tão amigo do governo britânico. Nada menos que um conhecido e influente lobista inglês, James Frayne, fundador em 2017 de Public First, empresa especializada em campanhas de persuasão pública para apoiar objetivos das empresas e que promete criar campanhas que “mobilizem as pessoas” em nome dos seus clientes. Com a opinião pública a seu lado, argumentam, o governo pode ser persuadido a seguir um determinado caminho; ao “posicionar as pessoas comuns contra as elites”, afirma ter feito lobby com sucesso contra os planos do governo para aumentar os impostos e a regulamentação sobre as empresas. Quem são hoje os seus clientes não é conhecido. James Frayne é também colunista em Conservative Home, blog britânico de direita.

James Frayne é também muito próximo do Ministro do Cabinet Office Michael Gove, departamento que apoia o primeiro-ministro na gestão do governo. É bom recordar que este sr.Frayne foi diretor de comunicações no Departamento de Educação de 2011 e 2012, quando trabalhou em estreita colaboração com o Sr. Gove, então Secretário da Educação [governo de David Cameron], e o Sr. Cummings, atual conselheiro especial de Boris Johnson. Relebre-se que David Cameron, enquanto primeiro-ministro do Reino Unido, aplicou como principal política as medidas de austeridade com vista à redução do défice público, em tudo semelhante, aliás, às políticas praticadas pela União Europeia (ver por exemplo aqui). Estamos pois perante pressões (lobying, em linguagem jargão e mais suave) vindas do mais alto nível do governo britânico.

O próprio Banco de Inglaterra, pela boca do seu economista chefe, vem ajudar à festa, alertando “que os receios “histéricos” poderiam arruinar as esperanças de uma recuperação”, leia-se, os esforços de contenção do Covid com medidas mais rigorosas (que o dito economista apelida de receios histéricos!) dão cabo da economia.

Este sr. Frayne, está a ser pago (e bem pago) pelo governo britânico (leia-se pelo excelentíssimo contribuinte) para efetuar sondagens de opinião pública, e a articulista, editora associada do The Telegraph, que vai dando uma no cravo e outra na ferradura, não deixa de o salientar (não vá o diabo tecê-las, leia-se, afinal as medidas draconianas poderão ser a política correta): o sr. Frayne, via Public First, recebeu entre março e junho £58.000+£75.000+£42.000+£78.187,07= +£253.187,07, antes de celebrar em julho um contrato de +£840.000!

E então o sr. Frayne lança pérolas como:

– “não se metam com o Natal inglês” (precisamente um dos momentos de maior risco de contágio seja de que vírus for)

– o Governo deveria “deitar para o lixo quase todas as sondagens de opinião“, dizendo: “A opinião pública está num estado de total irrealidade e tem estado há muitos meses“. Não só muito democrático, como também muito científico: se as sondagens não estão de acordo com o que eu penso, deitam-se fora (e naturalmente nem pensar em divulgá-las). Afinal, o dinheiro que me foi pago para as fazer nem é assim tanto dinheiro…

– “o público não tem qualquer sentido do estado real da economia – e, portanto, não tem qualquer sentido dos compromissos que o Governo está a fazer entre a saúde pública e as finanças públicas“, leia-se, as pessoas estão muito preocupadas com os riscos de saúde, conscientes de que isso tem um preço, a grave quebra da economia.

– “Estrategicamente falando, comunicar sobre a economia é agora o desafio mais importante das comunicações, devido à necessidade de preparar as pessoas para o risco equilibrado“. Ou seja, propaganda, propaganda, propaganda, há que dar a volta à cabeça das pessoas dê lá por onde der.

– “Agora há pouco ganho em que os cientistas continuem a falar sobre os riscos para a saúde. Eles não ajudarão a manter o público a seu lado se um milhão de pessoas se juntar às filas de desemprego. Ou seja, há que correr com os cientistas que sós estão a atrapalhar o negócio. A minha ciência, a da economia, vale mais que todas essas vidas que, infelizmente (sniff…!), terão de desaparecer a bem da ECONOMIA.

– “as hipóteses da cavalaria chegar com milhões de vacinas antes de o dinheiro acabar parecem reduzidas. Parece provável, a dada altura, que tenhamos de encontrar uma forma de viver com o risco” e “quando, de repente, o Governo retirar o apoio financeiro”. Ahh, o dinheiro vai acabar! Por isso, não há como evitar as vítimas “colaterais” (quantas?) Mas quando vai o dinheiro acabar? E porquê? Porque razão há-de o governo retirar o apoio financeiro? Aqui parece o gato escondido com o rabo de fora: orçamento equilibrado, dívida pública abaixo de 60% do PIB. Mas não saiu o Reino Unido da UE, entre outras coisas, por causa destas fantasias sem sustentação? Não lhe bastou já a experiência de austeridade com David Cameron e Ca.?

Contudo, este artigo é também sinal de que a direita no Reino Unido está dividida quanto à política que deve ser seguida no combate ao Covid-19, e de momento parece prevalecer a linha que coloca a defesa da vida à frente da economia. Parece-nos que a isso não será alheio o facto de o primeiro-ministro Boris Johnson ter estado em internamento hospitalar 7 dias em abril passado, três dos quais nos cuidados intensivos, tendo regressado ao seu posto após duas semanas de confinamento.

 

FT

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Um aliado do número 10 Downing Street avisa que a abordagem draconiana de Boris Johnson regressará depois para o assombrar

James Frayne[1] diz que Rishi Sunak[2] deveria ser mais “honesto com o público” sobre os riscos que a economia e o emprego enfrentam

 Por Camilla Tominey, editora associada

Publicado por  em 30 /09/2020 (ver aqui)

 

Boris Johnson é apanhado entre os rebeldes do bloqueio dos Tory e os conselheiros científicos. CRÉDITO: BOB

 

Será que a abordagem draconiana de Downing Street à pandemia “regressará para os assombrar em tempos mais calmos”? Esta é a opinião de um aliado do nº 10, que apelou a Boris Johnson para mudar a sua estratégia do coronavírus e concentrar-se mais no impacto económico. No meio de crescentes críticas à forma como o Governo lidou com a crise, James Frayne – que é próximo de Dominic Cummings, o principal conselheiro do Primeiro Ministro – acusou-o de “jogar à sorte com a sua morte política nos últimos tempos”. Ele não está sozinho. Allister Heath argumenta que “este governo de Jekyll e Hyde está a enfurecer até os lealistas do primeiro-ministro“. Veio depois de o economista-chefe do Banco de Inglaterra ter avisado de que os receios “histéricos” poderiam arruinar as esperanças de uma recuperação.

Entretanto, o Sr. Johnson desafiou os apelos a um abrandamento das restrições da Covid, insistindo que a “única forma” de combater a segunda vaga do vírus é fazendo sacrifícios que poderão ter que aumentar. Ele concordou anteriormente com um acordo com os rebeldes Tory, que exigiam que o Parlamento tivesse mais influência. Leia a aqui a história de como 80 deputados conservadores ganharam a sua batalha. Camilla Tominey descreve-os como “conservadores tigres sedentos de sangue“. (…).

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Um aliado número 10 apelou ao Governo de Boris Johnson para mudar a sua estratégia de coronavírus e concentrar-se mais no impacto económico da pandemia de coronavírus, no meio de crescentes críticas sobre a forma como o Governo lidou com a crise.

James Frayne, que é próximo do conselheiro principal do Sr. Johnson, Dominic Cummings, e até há pouco tempo realizou uma pesquisa de grupo focal para o Gabinete do Governo, acusou o Governo de “estar a jogar com a sorte da sua morte política nos últimos tempos” e advertiu que a abordagem draconiana de Downing Street “voltará para os assombrar em tempos mais calmos”.

Os deputados passaram a quarta-feira a fazer circular amplamente o artigo do Sr. Frayne no website do Conservative Home, que instava o Número 10 a “desvalorizar os cientistas”.

Também apelou ao Governo e “desafiou” Rishi Sunak, o Chanceler do Tesouro, para ser “honesto com o público” sobre os riscos para a economia e empregos causados pelo Covid.

O Sr. Frayne acusou o Governo de “compreender mal o carácter dos ingleses” ao encorajá-los a denunciar” os seus vizinhos, dizendo: “Os ministros devem lembrar-se de quem são os ingleses: cumpridores da lei; justos; [nuclearmente] centrados na família; e, em última análise, liberais.

“Pressioná-los para a desobediência civil para proteger as suas famílias acabará catastroficamente mal. E, façam o que fizerem, não se metam com o Natal inglês”.

Advertiu que Downing Street fez “inimigos vitalícios dos pais de classe média dos estudantes nas últimas semanas”.

Apesar da sua carreira na investigação de grupos de interesse, o Sr. Frayne, também um aliado próximo do Ministro do Gabinete Michael Gove, sugeriu que o Governo deveria “deitar para o lixo quase todas as sondagens de opinião”, dizendo: “A opinião pública está num estado de total irrealidade e tem estado há muitos meses”.

O Sr. Frayne é um aliado próximo de Michael Gove CREDIT: Toby Melville/Reuters

 

O perito em estudos de mercado, a cuja empresa, Public First, foi adjudicado em Julho um contrato de £840.000 para investigar a opinião pública sobre as políticas Covid-19 do Governo, salientou que “o público não tem qualquer sentido do estado real da economia – e, portanto, não tem qualquer sentido dos compromissos que o Governo está a fazer entre a saúde pública e as finanças públicas”.

Apelando ao Sr. Sunak para “começar a dizer ao público algumas verdades fundamentais sobre a necessidade de proteger a economia”, disse ele: “O público não é parvo, e acabarão por aceitar isto. Mas é uma mensagem que vai levar tempo a filtrar; precisa de ser entregue agora.

Estrategicamente falando, comunicar sobre a economia é agora o desafio mais importante das comunicações, devido à necessidade de preparar as pessoas para o risco equilibrado”.

Contrariando a confiança do Sr. Johnson no Grupo Consultivo Científico para Emergências (Sage), ele acrescentou: “Agora há pouco ganho em que os cientistas continuem a falar sobre os riscos para a saúde. Eles não ajudarão a manter o público a seu lado se um milhão de pessoas se juntar às filas de desemprego.

Embora a natureza da conversa seja necessariamente brutal e desconfortável, o Governo deve começar a falar sobre o equilíbrio dos riscos das restrições em curso.

Tem de o fazer – as hipóteses da cavalaria chegar com milhões de vacinas antes de o dinheiro acabar parecem reduzidas. Parece provável, a dada altura, que tenhamos de encontrar uma forma de viver com o risco (o gráfico abaixo mostra as áreas do Reino Unido com as taxas mais elevadas de infeção por coronavírus).

Taxa de infecções por Covid-19 nos últimos sete dias

 

Se os ministros não prepararem agora o terreno, encontrarão o público num estado de choque hostil quando, de repente, o Governo retirar o apoio financeiro. Como parte deste processo, têm também de começar a encorajar o público a começar a gerir o seu próprio risco“.

O Sr. Frayne também recomendou que o Governo “abandonasse o uso casual de linguagem técnica inútil que as pessoas comuns não podem compreender“.

Referindo-se à taxa “R” de infecção, disse ele: “Como parte da mudança para promover vozes políticas, tem de haver um ónus na utilização da linguagem mais simples“.

Também sugeriu que seria “muito mais fácil manter o público a seu lado” se a Grã-Bretanha fosse vista como “cooperando com os outros países e aprendendo lições com eles“.

Criticando as restrições de quarentena “olho por olho” do Governo, disse que as relações internacionais não receberam a atenção que mereciam, acrescentando: “Foi um verdadeiro ponto baixo da crise“.

O Sr. Frayne foi diretor de comunicações no Departamento de Educação de 2011 e 2012, quando trabalhou em estreita colaboração com o Sr. Gove, então Secretário da Educação [governo de David Cameron] [3], e o Sr. Cummings, seu conselheiro especial.

Public First recebeu £58.000 em Março pelo Gabinete de apoio ao Primeiro-Ministro pelo trabalho de grupo de discussão sobre o “Gov Comms EU Exit Prog”, depois mais £75.000 mais tarde nesse mês para um trabalho classificado como “Insight and Evaluation”.

Em Abril, 10 dias após o confinamento, o Gabinete do Governo pagou ao Public First £42.000 pelo trabalho classificado de novo como “EU Exit Comms”. O primeiro pagamento por trabalho listado como sendo relacionado com o coronavírus foi a 27 de Maio: £78.187,07. Um total de £253.187,07 foi pago ao Public First antes da celebração do último contrato a 5 de Junho.

De acordo com o artigo do Sr. Frayne, ele já não está a empreender trabalho com o Gabinete de apoio ao Primeiro-Ministro, dizendo que o trabalho “é, em última análise, extremamente baixo em termos de margem de lucro, absorvente e um desvio do trabalho comercial“.

 

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A autora: Camilla Tominey, é a editor associada do The Daily Telegraph, cobrindo a política e a família real. Durante os seus 20 anos de carreira, cobriu grandes eventos noticiosos, incluindo o 11 de Setembro, seis eleições gerais e o Brexit, além de ser um dos principais comentadores reais do mundo. A sua reportagem exclusiva a dar a notícia da relação do Príncipe Harry com Meghan Markle foi nomeada para o Scoop of the Year nos Prémios da Imprensa Britânica de 2016.

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Notas do tradutor

[1] Conhecido lobista conservador, fundador em 2017 de Public First, empresa especializada em campanhas de persuasão pública para apoiar fins corporativos. Promete criar campanhas que “mobilizem as pessoas” em nome dos seus clientes. Com a opinião pública a seu lado, argumentam, o governo pode ser persuadido a seguir um determinado caminho; ao “posicionar as pessoas comuns contra as elites”, afirma ter feito lobby com sucesso contra os planos do governo para aumentar os impostos e a regulamentação sobre as empresas. Quem são hoje os seus clientes não é conhecido. (ver wikicorporates aqui). É também colunista em Conservative Home, blog britânico de direita que apoia mas é independente do Partido Conservador (ver wikipedia aqui).

[2] Chanceler do Tesouro do governo do Reino Unido desde fevereiro de 2020.

[3] David Cameron, enquanto primeiro-ministro do Reino Unido, aplicou como principal política as medidas de austeridade com vista à redução do défice público, em tudo semelhante, aliás, às políticas praticadas pela União Europeia (ver por exemplo aqui).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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