A GALIZA COMO TAREFA – sentimentalidades – Ernesto V. Souza

Suponho que a gente aí vai sabendo que na Galiza continuamos a debater a respeito da formalização da língua. O debate é forte a respeito da representação escrita. Mas na realidade atinge a ideia do que seja ou não a língua galega.

Uns apostam por aproveitar os dous séculos que levamos de alfabetização escolar e os bastantes mais de tradição literária escrita em Castelhano; outros queremos uma escrita mais vinculada à origem medieval e na órbita do Português. A primeira tem o apoio do mundo institucional, académico e editorial galego, a segunda vai emergindo do ativismo contestatário e ganhando presença nesses espaços. Pelo meio há tendências ponte e tentativas que basculam mais para uma ou outra em função de práticas, hábitos, querencias e interesses. Toda a gente por enquanto está orgulhosa de ser galega e também não o pode evitar, assim com todos os defeitos e virtudes.

E nesta e deste jeito, andamos desde os anos 80 do século passado, metidos num conflito civil de normas e no contexto triunfal de uma calculada estratégia desarmante e favorável ao nacionalismo espanhol democrático, centralista, unificador e jacobino em prática homogeneizadora na tentativa de estabelecer o castelhano como língua oficial e comum a todo o Estado.

É uma guerra de 30 anos. Parecem poucos, mas são mais. E mais se juntamos os conflitos dos anos 20-30 do século XX e as grandes batalhas a meados e fins do século XIX. Todas coincidentes com as mais fortes campanhas de construção, reestruturação ou rearme do nacionalismo de estado espanhol com esse seu projeto centralista e unitarista.

Buxaina (imagem na wiki)

O conflito de normas é, porém, irrelevante. Acontece na elite intelectual e ilustrada. A malta passa, que tem outros problemas concretos e outras necessidades a respeito do uso de línguas e da alfabetização. Nas atuais circunstâncias, sem tantos ou os mesmos anos sem o nacionalismo político galego no poder ou como força determinante nas instituições políticas galegas; sem uma política linguística e educativa em mãos de um poder político nacionalista galego, na realidade, é pouco ou nada o que se pode fazer.

Sem um poder político que impulse o uso social do galego e faça uma política educativa de imersão e promoção, sem um poder político que tome a sério o ensino do português, o galego continuará com rumo certo à folclorização simbólica e à desaparição como língua social.

A tragédia está servida: o reintegracionismo ganhará a batalha, porque é dominante nas catacumbas, e tem reservas no espaço da marginalidade e a resistência, mas o galego como língua social da Galiza, se nada muda em breve, perderá a guerra.

E ensarilhados nisto, damos voltas e mais voltas arredor das normas, da linguística, da sociolinguística, da micro linguística, da política, das estratégias, do associativismo e da administração como se fossemos uma buxaina, para chegarmos frequentemente onde outros já estiveram ou estavam ontem.

Daquela, por que é que não nos pomos de acordo, entre nós, sendo todos galegos e patriotas? Acho que isso e esta imagem de briga surpreende em Portugal a quem se achegar do galeguismo. É um muito de esforço, e não pouca perda de tempo, tentar de nos compreender tratando de ver matizes no meio da mêlée. Nomeadamente quando as morradas, labaçadas e pontapés vão se percebendo em função de sentimentalidades diversas originadas nas afinidades, simpatias e gentes que conhecemos da Galiza e contam da feira segundo lhes vai nela.

1 Comment

  1. Bem certo Ernesto e bem falado.
    Nas divisões há coysas que vão mais aló. Fala Elias Torres de Norma linguística e afetividade; e a afetividade é um construto cultural de vivências, onde está a família, a contorna, a escola, a mkli o que quer que for, qhe nos faz afetivos a espanha e estrageiros a Portugal, e isso é algo que ao peszoal custa lhe muito de mudar. Um moddlo de escrita é um canto a consolidação do castelhano e seu reconhecimento masuma vivência bem mamada…

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