OS ESTADOS UNIDOS DA PARANOIA – DA CAÇA ÀS BRUXAS DE SALEM AO CONSPIRADOR-CHEFE DONALD TRUMP, por STEVE FRASER

 

 

Tomgram: Steve Fraser, Was American History a Conspiracy?

 

 

The United States of Paranoia – From the Salem Witch Hunt to Conspirator-in-Chief Donald Trump, por Steve Fraser

Tomdispatch.com, 15 de Outubro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

Será talvez deplorável da minha parte dizê-lo, mas a teorização da conspiração ao mais alto nível do governo deu-me um dos maiores presentes da minha infância, um aparelho de televisão. Uma vez quis escrever um ensaio sobre esse tempo chamado “Graças a Deus pelo Senador McCarthy!”. Em Abril de 1954, a minha mãe, uma caricaturista teatral e política, foi convidada pelo então liberal New York Post para desenhar as Hearings Army-McCarthy, prestes a serem exibidas no canal ABC. Eu tinha quase 10 anos de idade e as televisões estavam apenas a começar a entrar em número significativo nos  lares americanos, mas não no meu. Tinha  de ir ao apartamento de um amigo para apanhar as aventuras do Super-Homem e de outros personagens imperdíveis daquele momento, enquanto implorava aos meus pais (então estavam essencialmente falidos) por uma aparelhagem próprio para a nossa  casa.

O Post  deve ter comprado aquela televisão a preto e branco para que ela pudesse cobrir aquelas audiências dramáticas. O tema destas: acusações apresentadas contra o Exército dos Estados Unidos por aquele conspirador anticomunista senador Joseph McCarthy por ser “brando” com os Vermelhos. Ele era um monstro, mas não era bem de proporções trumpianas (não era o presidente dos Estados Unidos). Ainda assim, lembro-me de um dia andar na porta da frente do nosso apartamento depois das aulas e ver a minha mãe sentada em frente daquela nova televisão, a desenhar a cara icónica do senador. A sua cara foi, de facto, a primeira imagem que vi num ecrã de televisão na minha própria casa e, para mim, ele parecia aborrecidamente normal – ou seja, beligerante e belicoso como muitos dos pais dos anos 50 que conheci, incluindo o meu próprio.

Por isso, fiquei tanto indiferente como grato em relação a ele. Afinal, embora eie tenha causado problemas a tanta gente com as suas táticas baseadas no  medo aos vermelhos e acusações fantasticamente selvagens sobre comunas  no governo, trouxe-me a Disney e Lucy e Ed Sullivan. Como resultado, fiquei menos surpreendido do que algumas pessoas pela relação entre o nosso atual negociante de conspirações por excelência e os muitos ecrãs e entretenimentos das nossas vidas atuais – um borrão de má comunicação que envergonha aquela nossa antiga televisão a preto e branco.

Como hoje sugere  o participante regular no TomDispatch, Steve Fraser, enquanto revê a  história do pensamento conspiratório dos líderes deste país desde a caça às bruxas de Salem, temos agora na Casa Branca a mais completa personalidade de conspirador-chefe e de televisão. Ele é muito mais belicoso e brigão do que qualquer pai dos anos 50 que eu tenha conhecido e, a propósito, recentemente “só” rotulou de “comunista” a   candidata democrata a vice-presidente, Kamala Harris. Pergunto-me como é que a minha mãe o teria desenhado enquanto ele continua a bombear tweets e vídeos maníacos numa névoa de Covid-19 e numa euforia potencialmente esteroidal. Tom

Os Estados Unidos da Paranoia

Da caça às bruxas de Salem ao conspirador-chefe Donald Trump

Por Steve Fraser

As notícias são “falsas“; as eleições são “manipuladas”; um “estado profundo” conspira um “golpe”; o Juiz do Supremo Tribunal Antonin Scalia morreu de modo suspeito  na cama com uma almofada sobre o rosto; os auxiliares do ex-presidente Barack Obama conspiram para minar a política externa a partir de uma “sala de guerra“; o próprio Obama era uma toupeira muçulmana; o Serviço de Parque Nacional mentiu sobre a dimensão  da multidão na tomada de posse do presidente; as conspirações estão em curso em quase todos os departamentos e agências do poder executivo, incluindo o Departamento de Estado, a CIA, o Departamento de Justiça, a Administração Federal de Drogas, o Departamento de Segurança Interna e o FBI (“O que é que eles estão a esconder?”). Assim diz, e talvez até acredite, o presidente dos Estados Unidos da América.

Donald Trump não é o primeiro comandante-chefe a acreditar em conspirações. E algumas dessas conspirações eram suficientemente reais, mas ele é o nosso primeiro presidente conspirador. “Conspirar” em latim significa “respirar juntos”. O pensamento conspirativo é o oxigénio que sustenta a respiração política do Trumpismo. As fantasias paranoicas da Sala Oval formam metástases a partir da Beltway (1)  e acendem as paixões – medo e raiva especialmente – que põem os exércitos dos partidários  de Trump vigilantes e prontos para o que der e vier.

Os membros do círculo interno da administração mantêm o aquecimento  ligado. Michael Flynn, cuja carreira como conselheiro de segurança nacional durou apenas um nanossegundo, coloca tweets “New York Police Department blows whistle on new Hillary emails”: Money Laundering, Sex Crimes with Children, etc… MUST Read “. Michael Caputo, agora de licença do seu posto no Departamento de Saúde e Serviços Humanos, descobriu uma suposta “unidade de resistência” nos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças, empenhada em minar o presidente, mesmo que isso significasse aumentar o número de mortos da Covid-19.

Num planeta distante, distante – mas não ao ponto de impedir o presidente de visitar quando está com disposição ou o momento lhe parece propício – está a QAnon, em que a imaginação conspiratória realmente exala e se torna galática.

Os primeiros momentos da QAnon, a teoria da conspiração, foram centrados em torno de “Pizzagate”, que alegava que Hillary Clinton estava a dirigir uma rede de tráfico sexual de crianças a partir de uma pizzaria em Washington, D.C., onde as crianças eram supostamente armazenadas em túneis por baixo da loja. (Não havia túneis – o restaurante nem sequer tinha uma cave – mas isso não impediu que quase se tornasse num cenário de assassinato quando um crente na Pizzagate entrou na loja armado com uma espingarda de assalto e começou a disparar de forma selvagem).

Mas o QAnon estava a apostar em paradas mais altas do que apenas o tráfico sexual de crianças. Q (ele próprio terá sido um agente governamental) supostamente transmitia informações internas sobre os planos heróicos mais secretos  de Trump para organizar  um contra-ataque contra o “estado profundo” – uma conspiração para impedir uma conspiração, na qual o presidente estava a ser auxiliado pela investigação de Mueller a voar baixo  sob uma falsa bandeira.

Os apoiantes de QAnon são apenas os mais conhecidos entre os grupos orientados para a conspiração que emitem alertas sobre uma operação secreta da CIA para espalhar o lesbianismo ou avisos de direita de que os abrigos de tempestade da FEMA (Federal Emergency Management Agency) são realmente “cúpulas de morte” e/ou locais onde a “lei Sharia será aplicada”; ou revelações sombrias de que a “marca da besta” é afixada no código universal de preços, cartões inteligentes, e caixas multibanco; ou, até mais macabro ainda,  os gritos do animador de rádio a Alex Jones sobre eventos “bandeira falsa” como o massacre de crianças na Escola Primária Sandy Hook em Newtown, Connecticut, onde (segundo ele ) “atores de crise” foram empregados, pagos por George Soros, para simular um massacre que nunca aconteceu.

O objetivo de tudo isto é deixar claro quão perto estamos do Fim; isto é, do derrube ou destruição da Constituição e da República Cristã que ela representa.

O Presidente Trump namorisca  com este mundo de pensamento conspiratório. Reconhece timidamente uma afinidade com ele, depois evita a consumação total, sentindo que pode ser um bom remédio para o que de outra forma ameaça encurtar a sua esperança de vida política. Os “membros” QAnon  aparecem aos milhares nos comícios de Trump com cartazes e camisas onde se pode  ler “We Are QAnon”. (E 26 candidatos ligados a QAnon concorrem ao Congresso em Novembro próximo).

O pensamento conspiratório foi sempre um passatempo americano, incubando o que o romancista Phillip Roth outrora chamou “o berserk(2) indígena americano”. A maior parte do tempo, é cultivado à margem da vida americana e aí permaneceu. Em certas circunstâncias, no entanto, foi-se generalizando. É óbvio que estamos agora a viver exatamente num momento assim. O que normalmente pode parecer totalmente bizarro e louco ganha força e tem cada vez mais adeptos.

É costume, e talvez proporcione um conforto frio para alguns, pensar nesta forma deformada de ver o mundo como a aberração mental peculiar aos fortemente iludidos, incultos, desprezados, aos que perdem o seu ténue domínio sobre a sua posição social e estima, numa palavra , , os “deploráveis”(Hillary Clinton, para ser exato). Na verdade, porém, a conspiração, como no caso de Trump, teve muitas vezes origem e foi propagada por elites com efeito fatal.

Por vezes, este tem sido o trabalho de verdadeiros crentes, por muito bem educados e revestidos de autoridade social que sejam. Outras vezes, os que se encontram no topo têm cinicamente vendido ao desbarato   o que sabiam serem  disparates. Noutros momentos ainda, as elites têm sido autoras de conspirações que eram demasiado reais. Mas uma coisa é certa: sempre que uma tal conspiração foi absorvida por multidões, surgiu como um subproduto de algum desalinhamento mais profundo e como  uma fratura da ordem social e espiritual. Na maioria das vezes, os ameaçados por tais convulsões têm recorrido ao fabrico de  conspirações como uma forma de autodefesa.

 

Ali  na Criação

A caça às bruxas, da qual o presidente nos lembra tediosamente ser a vítima, começou há muito, muito antes mesmo de o país ser um país. Cotton Mather, um importante teólogo puritano numa sociedade onde a igreja exerceu enorme poder e influência, detetou um “Pacto Diabólico” em Salem, Massachusetts, em 1692. Ali, os servidores  de Satanás supostamente conspiraram para destruir os justos (torná-los doentes e matá-los) e derrubar a ordem moral. Quando o frenesim das bruxas já tinha feito o seu caminho, já tinham infetado 24 cidades circundantes, encarcerado 150 pessoas, coagido 44 a confessarem desígnios diabólicos, executado 20 dos irrecuperáveis, deixado quatro a definhar e morrer na prisão, e matado o marido de uma alegada bruxa ao esmagá-lo até à morte sob uma pilha de pedras pesadas.

Salem é hoje infame, principalmente como uma história exemplar de histeria em massa, mas que desde o seu início foi sancionada e encorajada pelos melhores e mais brilhantes da Nova Inglaterra. Cotton Mather foi acompanhado por ministros e magistrados locais ansiosos por permitir “provas espectrais” para condenar os acusados.  As fissuras sociais alimentaram a ansiedade.

As preocupações com as mulheres arrogantes  (viúvas em particular), especialmente com as suas próprias fontes de rendimento e por isso livres de supervisão patriarcal, adicionavam-se  ao sentimento  de desorientação. A escravatura e a corrente subterrânea de medo e apreensão  que ela gerou entre os escravos pode também ter aumentado a tensão. Poderá ser uma mera coincidência que o primeiro a “confessar” os seus conhecimentos sobre reuniões satânicas tenha sido Tituba, uma escrava cuja ligação  a um grupo de quatro jovens raparigas pôs em marcha o processo de caça às bruxas? O medo de conspirações esclavagistas, reais ou imaginárias, fazia parte do subconsciente psíquico do empreendimento colonial e continuou a sê-lo durante muitos anos após a conquista da independência.

As elites, sejam elas teocráticas ou seculares, podem estar inclinadas, como Mather, a recorrer à conspiração e até a envolverem-se nas suas próprias conspirações quando a ordem social a que presidem parece seriamente disfuncional. Tomemos como exemplo os pais fundadores.

Revolução e Contra-Revolução

Pouco depois da independência ter sido conquistada, os pais fundadores começaram a conspirar contra os seus companheiros revolucionários entre os hoi polloi(3). A Constituição é um documento venerado. No entanto, ela nasceu na sombra, parteira de pessoas que temiam pela sua posição social e bem-estar económico.

A maioria dos líderes da revolução, se não todos, eram homens de negócios, inseridos no comércio transatlântico como plantadores, proprietários de navios, comerciantes, banqueiros, corretores de escravos, advogados, ou grandes proprietários de terras. Mas a revolução tinha dado voz a outro mundo de pequenos agricultores largamente autossuficientes nas cidades e aldeias, bem como de colonos fronteiriços, muitos deles em desacordo com os mecanismos comerciais e fiscais – empréstimos, dívidas, impostos, ações e títulos – dos seus compatriotas ligados à vida marítima.

Eclodiram as revoltas fiscais. As legislaturas estatais comandadas pelo que foi risivelmente referido como o “elemento democrático” declararam moratórias sobre, ou cancelaram, dívidas ou emitiram  papel-moeda, desvalorizando efetivamente os ativos dos credores. A autoridade civil estava em descrédito.   Os agricultores pegaram em armas.

Os homens com bens responderam. Elaboraram uma constituição destinada a restaurar a autoridade das elites dominantes. O novo governo federal deveria ser dotado de poderes para tributar, pedir empréstimos, tornar inviolável a propriedade privada e acabar com as insurreições locais. Esse era o plano.

Ganhar apoio para isto, porém, não foi fácil face a tanta agitação. Por essa razão, os pais fundadores reuniram-se secretamente em Filadélfia – todas as janelas e portas do Salão da Independência foram deliberadamente fechadas apesar do calor sufocante – para que nenhuma palavra das suas deliberações pudesse ser ouvida fora da sala. E por uma boa razão. A reunião foi autorizada apenas para oferecer possíveis emendas aos artigos da Confederação existentes, e não para fazer o que fez,  que foi  criar  um governo totalmente novo. Quando os “conspiradores” de Filadélfia acabaram por apresentar o seu trabalho ao público, houve uma reação feroz e a Constituição esteve quase a abortar. Os seus autores foram frequentemente rotulados de traidores contrarrevolucionários.

Menos de 10 anos depois, os próprios padrinhos da Constituição dissolver-se-iam em inimizade fraterna. Mais uma vez, as acusações de cabalas revolucionárias e contra-revolucionárias fariam ferver o clima político.

John Adams e Alexander Hamilton denunciariam Thomas Jefferson e James Madison como agentes do jacobinismo ateu , coniventes em segredo com os camaradas revolucionários franceses para nivelar a paisagem social e deixar livre curso a  um sistema dominado por  “rapazes, imbecis e rufias”.  Jefferson e Madison retribuíram o favor acusando os seus antigos irmãos de conspirar para restaurar a monarquia (alguns tinham de facto tentado persuadir George Washington a aceitar a realeza), de serem “aristocratas conservadores”, procurando restabelecer uma sociedade hierárquica de níveis   e ordens. (Mais uma vez, era verdade que Hamilton tinha defendido uma presidência vitalícia e algo na linha da Câmara dos Lordes). Tudo parecia estar em equilíbrio nessa altura, tanto quanto  a imaginação febril conspiratória dos altos e poderosos se tornou a base emocional para os primeiros partidos políticos de massas na América: os Republicanos-Democratas de Jefferson e os Federalistas de Adams.

Se pensam que Donald Trump introduziu um nível sem precedentes de vitríolo e de carater de assassínio na vida pública, pense novamente. Pouco foi considerado fora dos limites para aqueles pais fundadores, incluindo insinuações sexuais ligadas a enganos políticos e insinuações escabrosas sobre “alienígenas” que infetam a pátria com ideologias depravadas. Era uma fossa de que só um conspirador se poderia aproveitar  completamente. Dois séculos mais tarde, essas aventuras no lado negro, ainda que largamente esquecidas, deveriam ser vistas como tendo  um laço  familiar.

Os  Assassinos de Deus

O fabrico de conspirações não foi o legado mais feliz da era revolucionária, mas foi um legado duradouro. As elites sociais e religiosas da Nova Inglaterra, por exemplo, temiam o ateísmo que parecia estar embutido na revolução e o seu desafio implícito a todas as hierarquias, e não apenas às clericais. Assim, por exemplo, Timothy Dwight, presidente do Colégio Yale e pastor, teve pesadelos sobre “as nossas filhas” se terem tornado as “concubinas dos Illuminati”, uma alegada sociedade secreta, ateísta até ao seu âmago, cujos membros, alegadamente, usavam pseudónimos e se organizavam em hierarquias complexas com o propósito de engendrar a revolução francesa sem Deus.

Aqueles “Illuminati” iam e vinham, mas o espectro do ateísmo perdurou   como elemento vital da imaginação política conspiratória pré-Guerra Civil. Um movimento antimaçónico, por exemplo, surgiu na década de 1830 para lidar com os Maçons, uma ordem secreta alegadamente criada para abrigar intenções anti-republicanas e especialmente anticristãs e para se envolver em rituais pagãos, incluindo beber vinho a partir de crânios humanos.

Os sentimentos antimaçónicos tornaram-se uma verdadeira força e até evoluíram para um partido político (o Partido Anti-Maçónico), que exerceu uma influência considerável em Nova Iorque, Pensilvânia, Vermont, e noutros locais – mais uma prova da facilidade com que o espectro das conspirações contra Deus podia inflamar a vida pública. Estamos hoje a reviver isso, hoje.

Os pirómanos  mestiços

Juntamente com a cultura americana em geral, a imaginação conspiratória das classes altas tornou-se cada vez mais secular com o passar do tempo. O que mais os alarmava era a luta de classes, e não a guerra espiritual. Desde os anos após a Guerra Civil até à Grande Depressão dos anos 30, este país foi palco de uma batalha mais ou menos ininterrupta, na frase da época, entre “as massas e as classes”; entre, ou seja, os explorados e os seus exploradores ou aquilo a que poderíamos agora chamar os 99% e o 1%.

Uma forma de justificar um tratamento duro, mesmo assassino, com as classes inferiores cronicamente irrequietas era alegar que entre eles estavam os agentes encobertos da revolução social. Se houve revoltas dos mineiros de carvão de antracite na Pensilvânia, culpabilizem-se  e depois enforquem-se os Molly Maguires, alegados terroristas irlandeses importados do velho país. Se houve manifestações da fome exigindo  apoio  público e trabalho durante cinco miseráveis anos de depressão económica na década de 1870, culpem os subversivos refugiados da Comuna de Paris, trabalhadores que só recentemente tinham tomado o controlo rebelde daquela cidade e agora ameaçavam a santidade da propriedade privada nos Estados Unidos.

 

Legenda: Imagem de Richard Harris e Sean Connery no filme “The Molly Maguires”: Mineiros irlandeses enforcados por lutarem contra as horríveis condições de trabalho.

Se houve greves a nível nacional sobre a jornada de  oito horas de trabalho na década de 1880, isso deve-se ao  trabalho de células anarquistas secretas incitando “os pirómanos mestiços” – imigrantes, também conhecidos pelas opiniões respeitáveiscomo sendo os  “lobos eslavos” – a revoltarem-se nas ruas. Em 1913, a Guarda Nacional do Colorado e o exército privado de guardas da companhia Rockefeller não se importaram de metralhar uma colónia de mineiros do Colorado, incluindo as suas mulheres e filhos, matando pelo menos 21 deles, porque afinal eram peões de conspiradores sindicalistas dos Trabalhadores Industriais do Mundo (coloquialmente conhecidos como “Wobblies”) que defendiam Um Grande Sindicato para todos os trabalhadores.

A histeria de classe alta, constituída pelos  capitães da indústria, principais financiadores, os jornais mais respeitáveis como o New York Times, anciãos de todas as principais denominações protestantes nos Estados Unidos, os hierarcas  da Igreja Católica, e políticos de ambos os partidos, incluindo presidentes, fez furor  durante todo o período  da Primeira Guerra Mundial. Isto culminou com o infame terror vermelho que atravessou todo o período da guerra e mesmo depois da guerra.

Prisões em massa e deportações de radicais e imigrantes; o encerramento de jornais e revistas dissidentes; o assalto e pilhagem de quartéis-generais de esquerda; a proibição de reuniões de massas; o envio do Exército, da frente ribeirinha de Seattle para a região da siderurgia na Pensilvânia e Ohio, para reprimir as greves – tudo foi perpetrado por elites políticas nacionais e locais que afirmaram que o país estava mortalmente ameaçado por uma conspiração bolchevique global com sede em São Petersburgo, na Rússia. Tentativas de derrubar o governo pela força e pela violência estavam, assim o afirmaram também, logo ali, ao virar da esquina.

Foi assim que a mentalidade conspiratória naqueles anos se transformou numa arma e os terrores noturnos que conjurou tornaram-se contagiantes, saltando dos salões do Congresso e da sala do gabinete na Casa Branca para o  coração do país. Um vendedor de roupa de Connecticut foi preso durante seis meses por dizer que o líder revolucionário russo Vladimir Lenin era inteligente. Em Indiana, um júri levou dois minutos para absolver um homem por matar um “estrangeiro” que tinha gritado: “Para o inferno com os Estados Unidos”. O Evangelista Billy Sunday pensou que poderia ser uma boa ideia “colocar de pé os radicais à frente  de um pelotão de fuzilamento e poupar espaço nos nossos barcos”.

O Grande Medo

O Procurador Geral A. Mitchell Palmer expressou melhor o alcance imaginado do “Grande Medo”, um pavor generalizado de uma conspiração diabólica que supostamente procurava atacar os próprios alicerces da vida civilizada. Denunciando “as histéricas mulheres neurasténicas que abundam no comunismo”, alertou para uma conspiração infernal “lambendo os altares das igrejas, saltando para o campanário do sino da escola, rastejando para os cantos sagrados dos lares americanos para substituir os votos matrimoniais por leis libertinas”.

Pode-se ouvir algo semelhante na recente incursão de Donald Trump contra o “socialismo” e a forma como Joe Biden e os Democratas ameaçam Deus, a família e o país.

É defensável afirmar  que a América nunca se tenha verdadeiramente recuperado desse primeiro susto vermelho.

Uma geração mais tarde, essa mesma paisagem noturna cosmológica, levada a um pico  de febre durante os primeiros anos da Guerra Fria pelas alegações do senador Joseph McCarthy de que os comunistas espreitavam nas mais altas esferas do governo, iria aterrorizar legiões de americanos. A sua notória “conspiração tão imensa” chegou a todo o lado, afirmou, desde o Departamento de Estado e o Exército aos estúdios de cinema, aos escuteiros, às agências de publicidade, e aos Correios. Nenhum lugar na América, parecia, estava livre de subversão vermelha.

Ainda assim, é instrutivo recordar que a cultura de conspiração da Guerra Fria de McCarthy foi, de facto, posta em marcha logo após a Segunda Guerra Mundial não por ele mas por figuras altamente posicionadas na administração do Presidente Harry Truman, à medida que os juramentos de lealdade se tornaram comuns e as purgas da burocracia governamental começaram. E note-se aqui a ironia: não foram os conspiradores comunistas mas o próprio Estado de segurança nacional, em particular a Agência Central de Inteligência, que primeiro conduziu uma carteira sempre em expansão de experiências de controlo da mente e de modificação do comportamento, enquanto lançava campanhas de desinformação, tramas de assassinatos, golpes de Estado, e todas as outras variedades de ações encobertas a nível global. Isso, tal como aconteceu, foi a verdadeira nova realidade da América e foi de facto tão conspiratória como qualquer outra oferta da zona lunática.

Tudo isto nacionalizou a mentalidade conspiratória nos mais altos níveis da nossa sociedade e ajudou a torná-la numa parte permanente da forma como milhões de pessoas compreendem a forma como o mundo funciona.

O Conspirador-Chefe Perdido no Espaço

Donald Trump pode então ser visto como sendo apenas o mais recente de uma longa fila de pessoas com poder que ou acreditavam ou, por razões de estado, interesse de classe, ou cálculo político, fingiam acreditar em grandes conspirações. No entanto, como em tantas outras maneiras, Trump é, de facto, diferente.

Os conspiradores do passado ofereceram uma visão geral do mundo, que também era acompanhada com descrições meticulosamente detalhadas de como todas as partes da conspiração supostamente funcionavam em conjunto. Por vezes, estes conjuntos provaram ser puzzles assustadoramente intrincados que só os iniciados conseguiam compreender. Tais cosmologias eram reforçadas por “provas”, pelo menos de uma espécie, que tentavam estabelecer ligações entre acontecimentos que de outra forma ocorreriam aleatoriamente, para provar o quão perspicaz era a conspiração nas suas configurações diabólicas. E havia sempre alguma grande ideia  – uma tomada de controlo satânica ou domínio mundial – pela  qual toda a elaborada conspiração seria posta em marcha, algo que, por mais repugnante que fosse, no entanto, ia chegar muito além onde o destino da humanidade seria estabelecido.

Nada disto caracteriza o reinado do atual conspirador-chefe. Trump e a sua tripulação simplesmente carregam as ondas aéreas e a Internet com um fluxo constante de acusações desconectadas, um “conjunto de dados” de fragmentos aleatórios. Nenhuma prova de qualquer tipo é considerada necessária. De facto, quando as provas são apresentadas para refutar uma das suas conspirações, são frequentemente reinterpretadas como prova de um encobrimento para manter o zumbido do enredo. Também não há nenhuma grande teoria que explique tudo ou aponte para um propósito superior… exceto numa hipótese. No estrangeiro, por todo o lado, existe, segundo a expressão  clássica do Senador McCarthy dos anos 50, uma “conspiração tão imensa” para – o quê mais? – destruir o Donald. O Donald é o único e único “eleito” sem o qual a América está condenada.

Vivemos em tempos conspiratórios. O declínio dos Estados Unidos como uma superpotência incontestável e a sua descida a uma indiferença plutocrática face ao bem-estar da comunidade é o viveiro de tal conspiração. Há soldados a serem  enviados para combater guerras intermináveis e de propósito vago contra “inimigos” esquivos sem qualquer perspetiva realista de resolução, muito menos “vitória” ao estilo americano, seja o que for que isso possa significar nos dias de hoje. O “dinheiro negro” mina o que resta dos protocolos e ideais democráticos. Desigualdades brutais e ainda crescentes na distribuição da riqueza e dos rendimentos são aceites ano após ano como de costume. .

Tudo isto gera ressentimentos e suspeitas inteiramente justificados.

Na medida em que as conspirações políticas se enraízam hoje em dia entre populações mais vastas, é em parte como uma espécie de sociologia popular que tenta fazer algum sentido, por mais viciada que seja, de um mundo em que as verdadeiras conspirações florescem. É um mundo onde as complexidades da globalização ameaçam subjugar toda a gente e um sentimento de perda de controlo, especialmente na América pandémica, é agora uma situação crónica à medida que a mera existência se torna cada vez mais precária.

Trump é, sem dúvida, o principal cúmplice nesta situação. E o seu narcisismo produziu uma versão distinta, ainda que degradada e muito menos coerente, das conspirações mais grandiosas do passado. Ainda assim, como no passado, quando tentamos enfrentar o que  um historiador da CIA chamou de conspiração de “espelhos  selvagens” em que somos todos obrigados a habitar, talvez seja melhor voltarmos a nossa atenção para os “melhores e mais brilhantes” da América do que para os “deploráveis” que são tão fáceis de enganar e de tomar como sendo os responsáveis.

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(1) – NT – alcunha dada ao conjunto dos serviços públicos de Washington directamente ligados ao poder político

(2) – Sobre o significado de berserk pode ler na Wikipedia clicando em:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Berserker

(3) – Em grego, as massas, o povo comum – por vezes usa-se com sentido depreciativo

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Fonte: Tomgram: Steve Fraser, Was American History a Conspiracy? Texto publicado em 15 de Outubro  e disponível em :

https://www.tomdispatch.com/post/176762/tomgram%3A_steve_fraser%2C_was_american_history_a_conspiracy/#more

 

 

Steve Fraser, a TomDispatch regular, is the author of Mongrel Firebugs and Men of Property: Capitalism and Class Conflict in American History. His previous books include Class MattersThe Age of Acquiescence, and The Limousine Liberal. He is a co-founder and co-editor of the American Empire Project.

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Copyright 2020 Steve Fraser

 

 

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