A segunda vaga pandémica que atacou a Itália nas últimas semanas dividiu a ligação virtuosa entre direito à saúde, ciclo económico e estabilidade social, que, na passada Primavera, tinha levado a comunidade nacional a unir as forças e a suspender todas as actividades com o fim de contrariar a difusão do vírus. O confinamento generalizado, imposto pelo governo, limitava de facto os movimentos pessoais e a liberdade empresarial, mas apontava para o direito à saúde como prerrogativa indispensável para o desenvolvimento económico e social.
Depois de dois meses de confinamento (naturalmente subsidiados pelo governo com algumas medidas), os dados registaram os efeitos positivos daquelas medidas com um decréscimo importante do número de contágios. Durante o Verão, porém, muitos iludiram-se com a possibilidade de reviver os ritos habituais da estação sem excessivas precauções: férias no estrangeiro, ajuntamentos em discotecas e outros lugares da “movida” estival.
Assim, no Outono, a segunda fase da pandemia apanhou-nos impreparados, não obstante os conspícuos investimentos concedidos ao Sistema Sanitário Nacional para a investigação de novos fármacos, das redes de mapeamento dos contactos, da prática difundida dos tampões. Agora, infelizmente, os hospitais têm grandes dificuldades em assistir o grande número de doentes que chegam às urgências. Isto é devido não apenas a carências endémicas de financiamento mas também a defeitos estruturais do sistema, porque os vários lugares predispostos à cura, presentes no território, são controlados pelo Ministério da Saúde mas são geridos autonomamente, como prevê a Constituição, pelas administrações regionais, o que comporta uma extrema diferenciação nos resultados das práticas curativas.
As Regiões do Sul, como a Campânia, enfrentam a crise pandémica com extrema dificuldade por causa da falta de pessoal especializado e da existência de estruturas clínicas obsoletas e insuficientes. A rica Lombardia, pelo contrário, investiu no decorrer dos anos ingentes fundos para a construção de grandes hospitais e centros de investigação médica de excelência, na maior parte dos casos em regime privado, depauperando deste modo a medicina territorial de proximidade, confiada aos médicos de família, que formam a base do sistema sanitário público e gratuito para todos os cidadãos.
Durante a dupla crise pandémica foram deficientes, sobretudo na Lombardia, as estruturas sanitárias territoriais intermédias – centros de prevenção, casas de saúde – que, interceptando os doentes enviados pelos médicos de base, poderiam curar em casa os menos graves e impedir o entupimento das urgências e enfermarias dos hospitais. Nos momentos de maior difusão do vírus da primeira fase, muitos doentes, nas províncias lombardas, sobretudo idosos, ficaram isolados e morreram sem tratamento.
As respostas da política
A palavra-de-ordem que actualmente circula nos vários centros do poder consiste em evitar um segundo confinamento generalizado, que levaria a Itália ao desastre económico; as medidas tomadas, todavia, são diversas e muitas vezes contraditórias. A comunidade científica insiste na necessidade de restrições destinadas a reduzir a curva esponencial dos contágios; o governo, por seu lado, está emanando uma série de medidas restritivas, progressivas e continuamente actualizadas consoante a avaliação do grau de contágio nas diversas regiões; os presidentes das regiões, por sua vez, resistem a activar medidas impopulares, como o encerramento de bares e restaurantes, cinemas e teatros, e reclamam, sendo preciso, decisões nacionais ou então completa liberdade de acção.
Se os vários poderes do Estado não conseguem elaborar uma visão unitária e consensual dos métodos capazes de circunscrever a curva pandémica, é inevitável que a emergência sanitária se transforme numa gravíssima crise social. Demonstram-no as manifestações que, nos últimos tempos, enchem as praças italianas: não obstante as propostas de subsídios a fundo perdido para cobrir os prejuízos de muitas actividades, as categorias mais penalizadas, como a restauração e comércio, vieram para a rua manifestar o seu insuportável desconforto; muitas vezes, porém, as manifestações legítimas e pacíficas transformaram-se em violentos recontros com as forças da ordem, fomentados por grupos de neofascistas e de “casseurs”.
Algumas notas positivas
A pandemia está a mudar os percursos e as relações da acção política: as dificuldades do governo, as suas intervenções incertas deveram-se em grande parte à falta de coesão entre as forças que o compõem. O partido de Renzi cria obstáculos de toda a espécie, talvez para esquecer a sua escassa fortuna eleitoral; o M5s está dividido em opostas facções de poder, e embora disponha de um grande número de parlamentares, perdeu nas últimas eleições autárquicas pelo menos metade dos consensos obtidos em 2018 (de 32 a 16-14%). O Partido Democrata, mais forte por um certo sucesso nas eleições regionais de Setembro passado, entre mil dificuldades, tenta programar a sua acção de governo tendo em vista o futuro: nesta tentativa é apoiado por alguns importantes movimentos da sociedade civil; as “Sardinhas”, abandonadas as ruas, estão a discutir sobre a sua colocação política no campo da esquerda; o “Forum pelas Desigualdades”, em conjunto com associações do voluntariado, interroga-se sobre novos e possíveis equilíbrios sociais para o futuro, na intenção de transformar a crise pandémica em oportunidades.