Vivemos já com o natal do Sol 2020 no horizonte, mas os profissionais dos meios de comunicação social não-confessionais nem sonham o que de disparates e de doutrinas de horror e de terror os profissionais dos meios de comunicação social confessionais, com destaque para os católicos, têm de escrever, ou, pelo menos, têm de editar e publicar. Sob pena de serem compulsivamente afastados dos cargos pelo bispo titular de cada Diocese, o patrão-mor da empresa diocesana. É o que sucede, por exemplo, com o Semanário VP-Voz Portucalense. dirigido pelo meu amigo e quase-condiscípulo, Pe. Manuel Correia Fernandes, que, nessa função, conta com o incondicional apoio do Director Adjunto e possível sucessor, Rui Saraiva, que pessoalmente ainda não conheço.
Na edição imediatamente anterior ao chamado ‘Dia dos Defuntos’, o texto da responsabilidade do Secretariado Diocesano da Liturgia com que sempre fecha cada edição ao longo de cada ano, titula-se, ‘Indulgências plenárias pelos Defuntos’. Como recebo regularmente o Semanário, em permuta com o JF online, li o extenso Texto e estarreci. E logo aí me nasceu o título do Texto Fraternizar, da minha responsabilidade, que inicia a Edição 162, novembro 2020, ‘Indulgências ou Demências plenárias’?
Não posso nem devo, por recato e sanidade mental, transcrever aqui o Texto. Todo ele um vómito causador de sucessivos vómitos, a fazer lembrar o terrífico livro, ‘Missão Abreviada’, dos finais do séc. XIX. Nem o facto de sermos hoje terceiro milénio inibe os graúdos clérigos da ‘Penitenciária Apostólica’ de, ‘com especial mandato de Sua Santidade o Papa Francisco’, escreverem e publicarem em latim, italiano e espanhol, um “Decreto sobre as Indulgências plenárias no mês dos Defuntos’. E tudo porque, como é sabido, estamos a viver em clima de generalizada Pandemia Covid-19 que não permitiu este ano todo o regabofe dos anos anteriores nos Cemitérios, no Dia de Todos os Santos que, por ser feriado nacional, as populações há muito que aproveitam para os encher até abarrotar. Num sórdido e macabro espectáculo de vaidades e de ostentação de luxos e riqueza, de partir a alma aos mais insensíveis.
Nunca as populações quiseram verdadeiramente saber dos ‘seus’ mortos. Apenas dos túmulos e jazigos da sua vaidade. Nesse dia 1 de novembro de cada ano, carregados de flores, as mais caras do Mercado. E das roupas de alto preço com que os respectivos familiares lá se apresentam vestidos. A dizer com os carros topo de gama estacionados nas redondezas e nos quais se deslocaram centenas, senão milhares de kms, para tão macabro festim. De indulgências plenárias pelos Defuntos e do que é preciso fazer para as obterem – ‘confissão sacramental, comunhão eucarística e orações pelas intenções do Santo Padre’ – nunca quiseram nem querem saber. Este ano, com a pandemia a atacar em força, os cemitérios das cidades e aldeias, mesmo as mais remotas e desabitadas, não lhes serviram de passarela para as luxuosas e parolas passagens de modelo, a que os cristianismos, com destaque para o católico, estão hoje praticamente reduzidos.
O famigerado Decreto – atentem bem na linguagem nele utilizada – começa por esclarecer, ‘Chegaram a esta Penitenciária Apostólica numerosas petições dos Pastores sagrados [sic] solicitando que este ano, devido à pandemia de Covid-19 fossem comutadas as obras de piedade para obter as indulgências plenárias aplicáveis exclusivamente às almas do Purgatório, conforme estabelecido no Manual das Indulgências (conc. 29, 1)’. Vai-se depois a ver e as alternativas nele divulgadas são tantas e tais, que o que vale às ‘almas’ é que nem elas nem o famigerado Purgatório existem de facto. O que existe, e em superabundância, são as demências plenárias organizadas que dão pelo pomposo nome de religiões, igrejas e respectivos livros sagrados.
Quem pela vez primeira e última nos revela com as suas práticas e palavras maiêuticas carregadas de Sabedoria, que as religiões, igrejas e respectivos livros sagrados são demências plenárias, é Jesus Nazaré que os sucessivos líderes máximos, religiosos e políticos não descansam enquanto, ano após ano, o não matam como maldito e, em seu lugar, colocam um mítico cristo invicto, fundamento e pai de todos os sistemas de Poder e de doutrina. Criminosos, todos. Sem perdão, todos. Por mais chefes de Estado, bispos residenciais, sacerdotes e pastores de igreja que se digam. É fugir deles a sete pés! Atormentam e matam mais que a Covid-19! Enquanto vivemos na história e até depois de morrermos. Como no-lo revela, de fio a pavio, este Decreto da Penitenciária Apostólica que termina assim,
‘Por fim, para que as almas do Purgatório sejam ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e especialmente pelo sacrifício do Altar agradável a Deus (cf. Conc. Trento, Sess. XXV, decr. «De Purgatorio»), todos os sacerdotes são vivamente convidados a celebrar por três vezes a Santa Missa no Dia da Comemoração de todos os fiéis defuntos, de acordo com a norma da Constituição Apostólica «Incruentum Altaris» emanada pelo Papa Bento XV, de venerada memória, em 10 de agosto de 1915.’ Eis.
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