A GALIZA COMO TAREFA – magosto – Ernesto V. Souza

Magostos são momentos de festa ou reunião, durante a colheita das castanhas, em que se assam, depois de escolhidas e de picadas, numa fogueira. Qualquer época do ano, em que haja, são boas assim. Mas presta mais e gorenta com o frio fora e vinho dentro, perto da lareira, em companha – este ano não pode ser – amiga ou familiar.

Provavelmente, nestas partes do mundo em que estamos, no oeste da península e no hemisfério norte, a confirmação do outono, com todas aquelas cores matizadas de castanhas, amarelas e douradas, nas árvores, e caídas pelo chão fazendo tapete, tenha um algo de limite marcado. Como em nenhuma outra das passagens, tão definida a sensação de fim e aviso da passagem do tempo. De mais um ano que fecha.

Wheel of the Year, Ilustração tomada de The Celtic journey blogue

A ideia do ciclo anual, nas culturas celtas, tem a ver com um sentido bem definido de “separação de tempos” com repetições de processos aprendidos de sobrevivência e aproveitamento, balizados por ritos e celebrações ; na segmentação do ano, a chave era, e até certo ponto ainda é, as estações com os seus trabalhos.

O aviso das folhas caindo, mais o frio, a contemplação das rodeiras, feitas por uso nos caminhos velhos. A cena coloca, sem dúvida, o tempo nas vistas e convida urgente a colheitar e desfrutar dos fartos bens do ano velho.

É este o tempo de ter apanhados os frutos e o vinho, de rematar o ciclo a que São Miguel dera saída, de preparar o porco para o São Martinho e de celebrar o Santo André. Ano velho, ano novo na roda do ciclo celta ou camponês. De Santos a Natal.

Não surpreende ao passeante, ao enveredar, nestas datas, à luz purpura da tarde, pelos passeios dos parques ou os caminhos, ou nas corredoiras na aldeia, que a mente escape às lembranças, e que estas vaiam se fazendo mais e mais presentes com os anos.

Não surpreende, não, que os celtas, coloquem nestas datas a passagem do ano. Nem que situem no 30 de outubro, o momento que os defuntos são permitidos de andar pelo mundo dos vivos. As sombras convocam a lembrança dos velhos e dos amigos que já passaram. Assim é, a cada ano mais, com a própria consciência do tempo que nos vai superando.

Nestes dias, nos passeios, acompanham-me muito, as lembranças, quase a presença, dos meus avós, retranca, versos galegos, reflexão contra o mundo e o poder, ditos, conselhos, horror à barbárie, e um sentido da independência social e pessoal definido, repartido entre o popular cidadão urbano e o reflexivo caçador-pescador pelas soidades dos montes. Lembro às tias solteiras da minha mãe, e a minha avoa, na sua cozinha, ou nas tardes de outono de conversa, sempre com aquele ponto de fuga, librepensador, rebelde ao seu jeito, reivindicativo na memória e protestos: a propriedade, os estudos, o trabalho, o “não há homem bom” e “melhor quedar para vestir santos que para despir bêbados”. Sentencias firmes com cheiro a cozinha, fascinantes habilidades na costura (um ofício dá dinheiro, e os quartos independência) e advertências várias contra os cregos e gentes de catequese.

Lembro os velhos mestres da diáspora e as suas conversas pelas ruas, bairros e cemitérios repletos de galegos daquelas cidades, com as que por vezes sonho misturadas: o cubano Anton Garcia Antón, o grande pratense António Pérez Prado, o duo quase cómico e gamberril do Paco Canto e o Rogélio Martínez e também o Manolo Sas. E também, como esquecer, as cálidas conversas multifacetadas, no IGI e de carro com Diaz Pardo. Lembro a Benito Ferreiro na névoa infantil, a Manuel Casal na sua humilde casa da Crunha mostrando-me com respeito imenso as lembranças e as cartas, os livros do seu irmão, e a Elvira Varela na sua biblioteca e nas ruas da Crunha. Lembro também o humor revolucionário e camarada do Joam Paz.

O velho e fino liberalismo da Crunha, a habilidade e auto-suficiencia das gerações, a esquerda latino-americana, a memória dura e profunda das mulheres, o exílio republicano, a diáspora, os sobreviventes com memória, um pontinho de cosmopolitismo e independência, de justiça social e de retranca didática permanente, tudo arredor de um mesmo centro.

Assim, com o inventário feito e já apanhados os réditos em função do trabalho organizado e dos azares do ano, podemos acougar, ir comendo castanhas, celebrar a vida, na espera da chegada do inverno. A festividade popular do Santo André, avisará, com a terra já fria, “o nortinho que alumea e a geada”, como diz Otero Pedrayo:

“o triunfo da pureza, intelixencia e clasicismo do inverno, sobre a sensualidade, imaxinación e barroquismo do outono. Está resacado o viño. Sandado da sua paixón, pode oferecer consello e conforto. Xa se esquece o fume azul dos magostos e no sequeiro um lume maiso vai enxoitando as castañas escolheitas. Xa están aradas as agras e o pan limpo de saramagos polas mans lixeiras das mulleres que se xuntan en tropas e parolando nas curtas horas de sol, arrincado as máas herbas, fánlle cóxegas os ollos” (“Noite de San Andrés”, Parladoiro, Galaxia, 1973, p.130.)

É o tempo perfeito para uma introspeção profunda, para desacelerar, e preparar, para lembrar e fazer inventário, enquanto descemos para o inverno. Para refletir sobre o ano que passa e o porvir. Vêm meses escuros com final de boca de lobo, antes do ressuscitar da vida.

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