NO INFERNO DOS GRANDES BURGUESES DO NORTE: O TESTEMUNHO DE EMPREGADAS DOMÉSTICAS PORTUGUESAS, por MICKAËL CORREIA

OBRIGADO A MICKAËL CORREIA, MEDIAPART E LÍDIA MARTINS


Dans l’enfer des grands bourgeois du Nord: des femmes de ménage portugaises témoignent, por Mickaël Correia

Mediapart, 15 de Agosto de 2020

Selecção de Lídia Martins

Tradução de João Machado

 

Para a alta burguesia francesa, as #empregadas domésticas portuguesas são as mais integradas, « pérolas a conservar a qualquer preço ». Por detrás das paredes das suas propriedades trava-se contudo uma luta de classes quotidiana.

As mãos nodosas da Rosa* voltam minuciosamente as páginas de um caderno de espirais. Nos quadradinhos e com uma letra de escola, ela registou uma vida inteira de serviço doméstico. «Vejam, apontei aqui: 7,15 euros limpos à hora. Era o meu salário de mulher de limpeza no fim de 2017, ao fim de trinta anos de antiguidade. Eles inscreviam-me, mas também me pagavam um certo número de horas não registadas», suspirou a mulher baixinha de 63 anos.

«Eles» são uma família riquíssima instalada no #Norte desde o fim dó século XIX. Ela investiu nas fiações antes de se tornar um dos pilares da indústria têxtil da região. O seu digno representante, Édouard M., foi a encarnação de uma figura do patronato paternalista local (ver Caixa negra). Na década de 1970, reinava sobre fábricas de lanifícios de Tourcoing, a norte de Lille, assim como na África dos Sul ou nos Estados Unidos. Depois, o grupo diversificou-se, mas os filhos e netos de M. ainda dirigem empresas do têxtil de ponta situadas no departamento.

Rosa vive numa das casas estreitas em tijolo típicas dos bairros populares de Roubaix e de Tourcoing. Sentada na sua sala toda em em couro de imitação, ela faz a retrospectiva do seu percurso até ser contratada como mulher de limpeza pelos M.: “Sou da Covilhã, uma cidade da indústria têxtil portuguesa. Cheguei a França em Abril de 1968, tinha 11 anos. O meu pai tinha atravessado clandestinamente, a pé, a fronteira, um ano antes.  Trabalhou como operário na Tiberghien, uma enorme fábrica de fiação de Tourcoing». Aos 18 anos, a jovem emigrante portuguesa torna-se operária na Lainière de Roubaix, depois na fábrica têxtil Desumont.

Desde o princípio do século XX, que a aglomeração Roubaix-Tourcoing, apelidada como a «Manchester francesa», é uma das capitais mundiais do têxtil, com mais de 110 000 assalariados a trabalhar no sector. O patronato do Norte esquiva as sucessivas crises do sector apostando na venda por correspondência – criando grupos como La Redoute e Les 3 Suisses –  e recorrendo à mão de obra imigrada portuguesa ou magrebina. Mas desde o princípio dos anos 1980 que a desindustrialização golpeia a região. Roubaix soçobra no desemprego em massa.

A fábrica Desumont encerrou as portas. A minha mãe já servia numa família da grande burguesia do Norte. Tinha uma tia que era a criada de Édouard M. Um dos seus filhos precisava de uma mulher de limpeza. Comecei a trabalhar em 1986 e servi sem descontar durante dois anos até que me contrataram e fui morar na casa deles», conta Rosa.

De um dia para o outro, a operária desempregada deixa Roubaix para ir para Marcq-en-Barœul, o arrebalde de luxo de Lille.

“O contrato era muito abusivo, mas precisava muito de dinheiro. Por exemplo, ficou estipulado que, em um de cada dois anos,  eu não teria o direito de ir de férias, ficava obrigada a passar as minhas quatro semanas de licença na propriedade», refere a ex-empregada da casa.

Solar e as casas do patrão, piscinas, cavalariças, casa de campo e prados o domínio dos M. é imenso, à imagem do património dos habitantes de Marcq-en-Barœul. A comuna é uma das municipalidades francesas com mais residentes sujeitos ao imposto sobre a riqueza imobiliária.

A menos de seis quilómetros dali, Roubaix é considerada como a cidade mais pobre do Hexágono – 45 % da sua população vive abaixo do nível da pobreza.

Marcq-en-Barœul e as povoações vizinhas de Bondues, Mouvaux e Wasquehal – um triângulo que alguns apelidaram de «BMW» – estão cheias de moradias abastadascom nomes bucólicos como A Cerejeira, A Pradaria ou O Faial. As grandes famílias burguesas do Norte vivem ali discretamente. Mas por detrás das sebes de ciprestes impecavelmente tratados que crecam estas propriedades esconde-se um violento inferno doméstico.

»Eu fazia toda a limpeza da casa, lavava a roupa, passava a ferro, preparava as refeições», pormenoriza a Rosa. «Sem contar que criei os quatro filhos deles, a receber sem descontar: ao fim da tarde, por vezes, tinha de voltar às 19 horas só para dar banho a um dos miúdos…»

Durante os três anos em que trabalhou no seio da intimidade dos M., o distanciamento de classe era rigoroso. No dia a dia, a mulher da limpeza portuguesa não tinha licença para utilizar as mesmas casa de banho que os patrões, a beber a agua mineral deles ou a sentar-se numa das cadeiras para descansar.

« Um dia, a filha deles com 7 anos. estava muito agitada enquanto eu tratava dela. Pedi-lhe que se acalmasse e ela atirou-me esta: “Tu és a criada, tens de me obedecer”». conta a Rosa com tristeza. Na propriedade, os filhos da criada não devem dar-se com os de quem a emprega. “Eles diziam-se que eu não devia bricar com eles, porque os pais tinham-lhes dito que eu era pobre», testemunha um dos filhos da Rosa.

«Sábado sim, sábado não, à noite, sempre no Natal e em quase todos os feriados, eu era obrigada a servir nas festas de família deles», conta a antiga empregada. «Obrigavam-me a usar uma saia preta com um avental branco pequeno. Eu achava aquilo horrível, sentia-me ridícula.»

Estes jantares eram organizados em condições de trabalho deploráveis, A Rosa não tinha tempo de comer, nem autorização para guardar para si uma parte do que tunha passado todo o dia a cozinhar. «Aquilo era extenuante  física e moralmente. As minhas costas estavam todas partidas à força de servir convidado a convidado individualmente em pretos muito pesados, e isto durante horas. Ao mesma tempo, ficava stressada porque as refeições eternizavam-se: como eu tinha conseguido que me pagassem mais depois da meia-noite, impunham-me que limpasse tudo, antes de essa hora fatídica», explica ela.

Os feriados legais a que a mulher da limpeza tem direito e as ausências por motivos familiares ou de saúde são, ao que dizem, uma fonte de tensão permanente com o patrão.

Face aos os seus discursos culpabilizantes, a Rosa tem de estar sempre a invocar os seus direitos mais elementares. «A minha patroa não suportava que eu gozasse as minhas quatro semanas de férias», garante. «Sempre que regressava ao trabalho, ela martelava com ironia: “Então divertiu-se muito? Uma semana não lhe chega para descansar?” A seguir a uma das raras vezes em faltei por doença, tive a Indecência de falar em feriados. Replicou-me: “Nem pense nisso, voltou mesmo agora de férias!»

Quando, em 2005, o seu filho mais novo foi levado de urgência para o hospital devido a uma agressão, Rosa, depois de ter ousado pedir autorização para sair de casa: “Não pode ir assim, primeiro tem de acabar de limpar a casa de banho,»

Exploração doméstica

No fim da década de 1960, a imigração portuguesa intensifica-se em França, Só nos anos de 1969 a 1971, 350 000 portugueses instalam-se no Hexágono.

«A estratégia dos imigrantes portugueses na altura é de ganhar rapidamente o máximo de dinheiro que possível: proletarizam-se em França para poderem sair do proletariado no regresso ao país», recorda Victor Pereira, historiador especialista da emigração portuguesa e maître de conférences na universidade de Pau. «Mas o projecto evolui com a passagem do tempo: as crianças nascem, vão para a escola aqui e o regresso a Portugal torna-se mais complicado porque a seguir à queda da ditadura em 1974, as autoridades portuguesas concentram-se no repatriamento dos retornados, os portugueses instados nas antigas colónias africanas.

E o historiador acrescenta: «Para os portugueses de Roubaix-Tourcoing, é difícil distinguir entre imigração económica e política. Muitos deles vêm da região da Covilhã, no centro do país, que foi um centro da indústria do têxtil agitado por greves operárias reprimidas pela ditadura fascista de Salazar. Acrescenta-se a isto a guerra colonial portuguesa: muitos rapazes emigraram para França para fugir ao serviço militar, que os obrigava a combater quatro anos em Angola, Moçambique ou na  Guiné-Bissau».

Tal como a Rosa, a Sandra, com 75 anos, é originária do centro de Portugal e chegou ao Norte em !968. Operária pespontadeira numa fábrica têxtil, é despedida em 1985 quando o estabelecimento industrial é encerrado. Então torna-se mulher de limpeza em Mouvaux para duas famílias importantes: os V. e os T.

Nome incontornável da indústria têxtil local, o grupo V, era dono na década de 1960 de nada menos de uma trintena de manufacturas entre Roubaix e Tourcoing. Esta poderosa família dispunha de ramificações tentaculares económicas e políticas. Os T. estão, no que lhes diz respeito, intimamente associados ao desenvolvimento da indústria textil do Norte, No século XIX fundaram um banco de prestígio que apoiou os empreendedores ricos do território.

Enquanto vai cavando a sua pequena horta, a Sandra vai dizendo: «Sinceramente nunca tinha visto pessoas como estas,» Durante mais de trinta anos, ela limpou, esfregou, aspirou, passou a ferro e cozinhou para estes dois nomes grandes do capitalismo familiar nortista. Mas o seu emprego de mulher de limpeza não passou de uma longa travessia do deserto em termos de direito do trabalho. «Fossei muito para eles sem descontar e nunca tive contrato de trabalho», salienta a Sandra.

Tal como Rosa, ela tem de estar inteiramente disponível, especialmente para as festas de família. »Ao domingo à noite, estava esgotada e morta de fome: estava proibida de de me servir dos pratos, tinha de comer às escondidas», confessa.

A empregada doméstica é deste modo estreitamente controlada. No começo dos anos 2000, numa ocasião em que os V. foram viajar durante um mês, quando voltaram acusaram-na de se ter atrasado no início de um dia de trabalho. «Fiquei aterrorizada porque realmente tinha começado uma manhã com meia hora de atraso. Tinha ido ao médico, e havia muita gente à espera. Soube mais tarde que eles tinham pedido a um vizinho para me vigiar. Ao fim de vinte anos de trabalho, pregarem-me esta!», disse indignada.

Quando o marido morreu em 2013, Sandra, que tinha então 68 anos, continua em casa dos V. e dos T. Tendo-se ausentado durante uma semana por causa do enterro, os últimos não deram qualquer sinal da menor compreensão, apesar de ela estar havia 28 anos a trabalhar para eles: os sete dias foram friamente descontados na sua folha de pagamento.

Ao fim de duas décadas de devoção doméstica e de poupança conscienciosa, a Sandra consegue finalmente compar a sua própria casa, uma moradia modesta. A partir daí, as admoestações paternais são frequentes e nunca mais lhe aumentam o seu salário horário apesar de estar tanto tempo ao serviço. “Repetiam-me vezes sem conta: «Vai comprar uma bela propriedade graças ao dinheiro da França! O que dá cabo de mim, é que não param de dizer de dizer que nós, as portuguesas, somos boas trabalhadoras, bem integradas, limpas e sérias, mas não aceitam que nós tenhamos os mesmos direitos que eles”, denunciam.

A Sandra desfaz-se em lágrimas; »Há 20 anos, tive de levar a minha neta para casa dos V.  porque a mãe dela estava fora. Foi só por umas horas. Pu-la na sala de jogos, ela sentou-se com todo o juízo numa cadeirinha e a mãe da minha patroa gritou-lhe aos ouvidos, como se ela fosse um cão: “Senta-te imediatamente no chão!”» E concluiu. «Eu toda orgulhosa por lhe apresentar a minha neta de 7 anos, mas aquilo foi uma humilhação terrível.»

Em casa dos M., quanto à Rosa, está sempre a ser comparada aos magrebinos, julgados como menos serviçais e pior integrados do que os portugueses. «Relembravam-me que éramos católicos como os franceses, que tínhamos a mesma cultura e que éramos um povo corajoso», recorda a Rosa. Quando começam os grandes trabalhos anuais de manutenção da propriedade, ela tem de fazer entrar os operários negros ou magrebinos por uma porta de serviço. «A minha sobrinha, que habitualmente me substituia nas minhas folgas, os M. nunca mais a chamaram, a partir de um dia de 2018, quando souberam que a filha dela andava com um árabe», lamenta.

Depois da independência da Argélia em 1962, a França receava ser submersa por uma vaga de imigração norte-africana. Em 1964, sob a pressão do patronato, já na altura ansioso pela mão-de obra portuguesa barata, o primeiro ministro Georges Pompidou autoriza a entrada livre em França de todos os portugueses indocumentados. «Para legitimar o racismo contra os argelinos, as autoridades francesas prepararam um discurso sobre os portugueses serem bons trabalhadores, pouco reinvindicativos, mas também representantes da  imigração europeia mais recente (a seguir aos italianos e aos espanhóis) e por isso mesmo, assimiláveis», diz Victor Pereira. «É absurdo, porque ninguém conhece os portugueses – e ainda hoje continuam a não conhecê-los: são célebres desconhecidos”.

Para o universitário, os estereótipos ligados às mulheres da limpeza portuguesas, como o seu servilismo nato ou o facto de serem trabalhadoras de confiança, são construções sociais, formuladas a partir de situações em que foram postas à prova ou de humilhações. «Muitos tentavam por exemplo apanhar as suas empregadas em falso, escondendo notas debaixo do sofá.» reforça Victor Pereira. Havia todo um capital de reputação a ganhar junto do patrão para a seguir ganharem a confiança de outros casais – “Quanto à minha Maria, pode-se confiar nela.” Estratagemas traiçoeiros confirmados pela Rosa e pela Maria, que no princípio das suas carreiras encontravam dinheiro deixado negligentemente debaixo das camas ou nas camisas para passar a ferro.

«Os portugueses foram alvo de um processo de racialização em França, em contraponto à imigração argelina. Foram-lhes colados estigmas essencializantes, como o serem naturalmente “dóceis”, “duros no trabalho”, representantes de “boas gentes” com ambições limitadas e que “se integram muito bem”, comenta Margot Delon, encarregada de pesquisa CNRS (NT -Centre National de Recherche Scientifique) no Centro de Sociologia de Nantes. Têm um estatuto superior ao das minorias coloniais e pós-coloniais mais dominadas, mas inferior ao dos “Brancos”. Os portugueses representam deste modo uma categoria intermediária, que nas ciências sociais se designa  como os “Brancos honorários”.

Segundo aquela socióloga esta “branquidão vazia” traduz-se sobretudo pelo facto de uma forte proporção de mulheres portuguesas ocuparem posições dominadas e segregadas no mercado de emprego, como empregadas domésticas ou porteiras. «Os seus patrões criam fronteiras físicas e sociais no interior dos lares», é a conclusão de Margot Delon em relação ao percurso da Rosa e da Sandra. Quando já não se precisa delas perdem rapidamente a sua utilidade e são deitadas fora.»

Demissão à força

Na sala, a televisão pública portuguesa apresenta o novo programa de Verão. Ana, de 65 anos, está de braços cruzados na marquise da sua cozinha. «O meu pai, o meu irmão e eu fomos todos contratados pelas fábricas de Tourcoing dos Tiberghien. A paisagem triste, cheia de chaminés, fazia uma diferença chocante em relação à Covilhã!» recorda-se ela. «A seguir. as fiações abriram todas falência, engravidei do meu primeiro rapaz e achei facilmente algumas casas pequenas, As portuguesas já tinham boa fama.»

Depois de trabalhar sem descontar para um casal de grandes industriais de renome, Ana volta aos D. em 1991. A família está na origem de uma empresa florescente que actualmente tem entre os sus clientes  Louis Vuitton, Areva e Total.

No solar deles no norte de Lille, com piscina, sauna e campo de ténis, Ana suou sangue e água, remunerada com cheques de serviço de trabalho e sem contrato de trabalho. «Nunca conseguia fazer todo o serviço, porque a propriedade era gigantesca, um verdadeiro labirinto de escadas.» explica. «Reinava uma desordem monstruosa, eles deixavam sempre a roupa pelo chão, e além disso tinha de tratar dos três filhos, aos quais me liguei muito.»

Os D. cultivam um capricho, o dos cães grandes de raça do tipo são bernardo ou pastor alemão. «Tinham cinco. Era horrível, porque eu passava manhãs inteiras a limpar os excrementos, a urina, os restos de terra em toda a casa.” recorda Ana. «Batiam-se muitas vezes uns com os outros. E depois um dia, foi o acidente.»

Numa manhã de março de 2015, a mulher da limpeza, ao chegar à propriedade foi atacada por um dos molossos: «Ele queria morder  um cão com que não se entendia. A minha mão ficou toda esfacelada nas guelas dele. Havia sangue em todo o lado, viam-se-me os ossos.» Foi cozida de urgência no hospital de Tourcoing, com vinte pontos, mas a ferida, muito grave, infetou-se. A Ana beneficia então de uma paragem por acidente de trabalho que o médico lhe vai renovando todos os meses, para se restabelecer e ter reabilitação por especialistas.

«Durante todo este tempo, a minha patroa assediou-me a querer saber quando é que eu poderia retomar o trabalho. O meu médico afirmou-me que, visto o meu estado de saúde, era completamente impossível», revela a Ana. »Pressionou-me de tal maneira que, sempre que o telefone tocava, todo o meu corpo tremia. Em Novembro, não aguentei mais. Tinha medo de perder o trabalho, e voltei.»

O regresso ao trabalho transforma-se num pesadelo. Habitualmente os D. chamavam uma empresa especializada para, uma vez por ano, limpar os vidros do solar, mas desta vez a patroa exigiu que Ana, já com 60 anos, executasse estes trabalhos perigosos apesar da sua mão ferida.

«Não encontrei a mesma pessoa. Ela queria forçar-me a pedir a demissão do meu posto de trabalho: como eu estava a cinco anos da minha reforma e tinha sido vítima de um acidente de trabalho, devia dar-me indemnizações maiores. Para eles não era nada, tão ricos que são… », refere a sexagenária.

Ao fim de três dias de trabalho, o médico de Ana exigiu que não voltasse ao trabalho. Como estava aterrorizada pelos D. foi com a companhia de um mediador para os patrões assinarem os documentos que estipulam a inaptidão medicamente comprovada da assalariada devido a um acidente de trabalho. Ao entregar-lhe o cheque para saldar todas as contas, a patroa ainda objecta: “Não esperava isto de si…» Naquele mesmo ano o volume de negócios da empresa da família D. ultrapassou os 100 milhões de euros.

«Somos cada vez mais procurados por portuguesas que trabalharam como mulheres de limpeza, porteiras ou zeladoras de prédios. Elas têm antiguidades correctamente calculadas e os patrões apercebem-se de que vão ter de pagar indemnizações  de reforma antecipada que consideram pesadas.» assegura Eloy Fernandes, militante da CGT (Confédération Générale du Travail), na secção Assalariados ds Serviços Pessoais (SAP). «Então fazem tudo para os despedir. Isto traduz-se num assédio moral com observações depreciativas sobre a sobrecarda do trabalho ou  tarefas degradantes para efectuar.

Desde 2015 que a Rosa sofre de uma doença pulmonar crónica antes de contrair uma hepatite grave no Verão de 2016. A partir dessa altura, o ambiente nos M. degrada-se. Alquebrada fisicamente e a aproximar-se da reforma, a mulher da limpeza é alvo de pressões e humilhações para que abandone o seu posto de trabalho. No início de 2017, a Rosa pede aos patrões que adquiram uma esfregona. No dia seguinte, ela encontra um simples esfregão com um bilhete manuscrito: “Para limpar o chão de joelhos. Eu ia para o trabalho com um aperto no estõmago, a tentar adivinhar o que me iria cair em cima. O pior é que tinha problemas de consciência quando me diziam: “Estamos mesmo a contar consigo” ou “Não nos deixe ficar mal”, conta a mulher da limpeza.

«Eles não queriam despedir-me nem esperar até á minha reforma, para não terem que pagar indemnizações», insurge-se a Rosa. «É a maneira de proceder deles: assediar para que sejamos nós a tomar a iniciativa de nos irmos embora. Foi o que aconteceu com a minha antecessora assim como com a minha tia que trabalhava como escrava para o Édouard M.» No fim de 2017, a sua tenacidade fez com que finalmente fosse despedida, um ano antes da sua reforma.

Ao fim de trinta anos de exploração doméstica, ela vai-se embora com 7482,59 euros, incluindo a indemnização por despedimento e o saldo da conta, sem uma palavra de agradecimento nem uma prenda à partida. «Abri o envelope com o cheque: chorei de raiva. Nem sequer arredondaram o montante, dizendo que estavam a cumprir com o mínimo legal.» indigna-se a Rosa. «Invocar o Código do Trabalho, apesar de me terem estado regularmente a pagar sem descontar. É o cúmulo!»

Corpos gastos, espíritos quebrados

O funcionário permanente da CGT-SAP, Stéphane Fustec, observa: «Há pouco tempo que lidamos com portuguesas fragilisadas, isoladas profissionalmente, que chegam a ter quarenta anos de trabalho doméstico e que renunciam aos seus direitos devido à ligação afectiva com quem as empregou. A convenção colectiva para o emprego particular desrespeita muito o código do trabalho: é autenticamente o serviço mínimo.»

Em 2017 a Sandra, numa queda em casa, fracturou com gravidade a parte superior de um braço. Propõe então á sua nora substitui-la em casa dos V. e dos T, enquanto se estivesse a recompor da sua ferida.. Quando regressa, os patrões dão-lhe a entender que, devido ao acidente com o braço, não poderá ter a mesma capacidade que antes e propõem-lhe contratá-la apenas dois dias por mês para limpar as pratas e engomar as roupas.

«A minha nora era nova, desempenhava tarefas mais pesadas como limpar os tectos, então porque haviam de se atrapalhar por causa de uma velha de 70 anos?» concede a Sandra. «Não aceitei a proposta deles. Apesar dos meus trinta anos de antiguidade, decidi ir-me embora sem indemnização nenhuma. Quis manter a minha dignidade.»

Ainda hoje, a nora da Sandra faz a limpeza das casas dos V. e dos T. Como ela não tem outro emprego nem carta de condução, o marido leva-a de carro desde Orchies, 70 quilómetros ida e volta todos os dias, por um salário miserável.

É suficiente observar-lhes  com etenção a postura laboriosa, os ombros curvados ou as mãos deformadas. A Rosa, a Ana e a Sandra têm os corpos marcados. «Perdi mais de 50% da minha capacidade respiratória por causa da água de Javel, da soda cáustica e dos aerossóis que eu tinha de utilizar todos os dias», acrescenta a empregada dos M.

A Ana sofre de algodistrofia, uma doença das articulções ósseas muito dolorosa. Quanto à Sandra, já sofreu  duas intervenções cirúrgicas aos joelhos. Todas as três comprovam terem as costas arruinadas, à força de desempenharem tarefas de limpeza repetitivas – transportar as compras e os cestos com quilos de roupas pelas escadas, esfregar as casas de banho com o corpo curvado.

As mulheres da limpeza chegam à reforma fisicamente muito afectadas. As estaísticas mais recentes do ministério do trabalho mostram que as taxas de acidentes de trabalho e de doenças profissionais estão a aumentar três vezes mais do que a média entre os assalariados dos serviços pessoais, segundo a análise de Stéphane Fustec da CGT-SAP. As empregadas de serviço doméstico não têm que efectuar uma inspecção médica durante a sua carreira. Por outro lado, o trabalho doméstica é muito atreito a acidentes, devido à repetição  dos movimentos e à diversidade das tarefas.

Para além dos corpos gastos, a violência de serem brutalmente postas na rua ao fim de décadas de trabalho por patrões com quem tinham estabelecido fortes laços de intimidade deixa marcas psicológicas. «De noite, tenho regularmente pesadelos: que continuo lá em casa, nos D., a fazer a limpeza», confessa a Ana.

Há cinco anos que ela é acompanhada por uma psicóloga para se tratar de uma grande depressão. Também a Rosa se recompões com dificuldade de uma depressão, na sequência dos dois últimos anos de trabalho, mentalmente  muito desgastantes. «Estava sempre a chorar. Tinha medo de não conseguir fazer face às dificuldades: tudo aquilo teve um impacto nas relações com a minha família e com as minhas amigas.»

«A partir de agora, por causa de tantos anos mal pagos e de trabalhar sem descontar, vou receber menos de 900 euros por mês de reforma, incluindo a minha complementar, apesar de estar a dar no duro desde os 16 anos», diz a Ana, desolada. O seu marido teve de meter baixa recentemente por causa de uma hérnia discal ao fim de quarenta anos de fábrica têxtil e de trabalhos por fora.

Viúvas e a viverem sozinhas, a Sandra e a Rosa estão também a receber reformas módicas, rondando os 800 euros por mês. Para sobreviverem, são obrigadas a continuar a fazer algumas horas de limpeza, Sempre para ilustres famílias burguesas do Norte. E sempre sem descontarem. São certamente portuguesas bem integradas.

Caixa Negra

Se tiver informações que nos queira comunicar, pode cotactar-nos pelo endereço enquete@mediapert.fr . Se quiser enviar documentos por uma plataforma altamente segura, pode contactar-nos pelo sítio frenchleaks.fr.

A pedido das interessadas, os testemunhos das mulheres de limpeza foram anónimos.

Contrariando as regras que adoptámos em Mediapart, optámos voluntariamente por manter anónimos os nomes das grandes famílias para que elas trabalharam, para não expor estas mulheres da limpeza que aceitaram testemunhar. Com efeito, era-nos impossível publicar os nomes dos patrões, sem lhes fazer perguntas e assegurar o contraditório, conforme está estipulado na lei. Contactá-los e pedir-lhes que replicassem acarretaria inevitavelmente a identificação de estas mulheres que tiveram a coragem de descrever o seu quotidiano degradante e as humilhações que tiveram de suportar.

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Pode ler este artigo no original clicando em:

https://www.mediapart.fr/journal/france/150820/dans-l-enfer-des-grands-bourgeois-du-nord-des-femmes-de-menage-portugaises-temoignent

(só para assinantes)

e também em:

https://www.cercledesvoisins.org/blog/index.php/rubriques/actualite/3612-dans-l-enfer-des-grands-bourgeois-du-nord-des-femmes-de-menage-portugaises-temoignent

https://www.salaireavie.fr/post/dans-l-enfer-des-grands-bourgeois-du-nord-des-femmes-de-m%C3%A9nage-portugaises-t%C3%A9moignent

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