A GALIZA COMO TAREFA – adaptações – Ernesto V. Souza

2020 passará a história como um ano não pouco catastrófico. Bem situado na cronologia de pestes, andaços, pânicos e colapsos. Os efeitos das crises múltiplas originadas nele provavelmente vão perdurar por anos. Porém, para mim, o mais interessante de tudo quanto leva acontecendo no percurso dos últimos 12 meses é o questionamento e confronto a tantas ideias, jeitos, condições, hábitos e formas sociais, laborais, económicas que tínhamos estabelecidas, fixadas, testadas, com selos de qualidade e que eram praticamente irreformáveis e inquestionadas.

Soprou um vento, uma gripezinha e lá foi tudo pelo ar, demonstrando que as cousas eram bastante menos sólidas, testadas, provadas e eficazes do que se pensava. E pouco se salva. Os modelos económicos, urbanos habitacionais, os modelos sociais e de relacionamento, os sistemas sanitários, educativos, culturais, o ócio, o trabalho, os transportes, os empregos.

Muito do que até há uns meses não podia ser: o teletrabalho, a educação a distância, a digitalização das pessoas idosas, a revolução do e-comércio, a externalização, virtualização e feche maciço de locais, empresas físicas, aconteceu, fixando em meses e dias, provavelmente para sempre, mudanças radicais que vão definir mais mudanças sociológicas de consequências imprevisíveis.

Mas, pelo momento, tudo a pior, o que se esperava gradual, acelerando, depois de um tempinho hesitante de keynesianismo. Uma aceleração feroz de capitalismo e recuada de direitos sociais e serviços públicos. E francamente resulta irónico, porque esta crise, por questionar questiona até a derrota do comunismo e a idoneidade e adaptabilidade do capitalismo, justo no seu momento mais álgido de discurso, ideologia e prática neo-liberal.

E ante esta avalanche de mudanças e de esmagamento dos objetos sólidos, a reação em Ocidente, está a ser lenta, rígida, pouco adaptativa e não ativa. Não se aproveita o tempo concedido para revisar as cousas questionadas, nem se analisa a massa de indicadores reais detetando problemas, incoerências, defeitos nos sistemas. Soam músicas de natal, e se anunciam mais desfeitas pela absurda obsessão dos políticos de manter a normalidade e de se perpetuar, uma legislatura mais nos carguinhos.

A contrário do ritmo que a realidade imprime, como uma grande onda imparável ou uma imensa massa de gelo, neve, árvores e rocha caindo, as sociedades, os modelos políticos e também os económicos, pretendem manter o cenário fixo, esperarem a que as cousas passem, a chuvalhada escampe. Deixar correr o tempo, em parálise e gelados de medo.

Fascina-me nestes meses, e já agora às portas do Natal, este jeito de encaixar tudo como drama. Alguém deveria considerar que a maior parte da gente está educada e funciona numa cultura de rigidez e inflexibilidades, no canto de numa de adaptabilidade e mudanças. E agora? fundida a realidade e com todos os indicadores em alarme.

[Marca tipográfica de Giovanni Manfrè (sec. XVIII)]

Neste ano também, na língua e na literatura galega, comprovamos como a realidade é abaladiça e o discurso de uma rigidez impossível.

Não chegou com o ano Carvalho Calero que se prolongará sem fechar, e já anuncia no horizonte o centenário da morte de Emilia Pardo Bazán, coincidente com o show simbólico da devolução do famoso Paço de Meirás,  por parte da família e herdeiros do Ditador Franco (45 anos depois da sua morte) ao Estado Espanhol.

A celebração oficial e institucional de Carvalho Calero, por mais que controlada, evidenciou mais uma vez que o sistema literário galego, definido e institucionalizado pelo próprio protagonista e depois esclerotizado nos últimos 35 anos, apresenta graves contradições e tem um problema de apartheid e com a integração do reintegracionismo.

Mas é mais. Conforme ao critério estabelecido por Carvalho Calero a literatura galega é a escrita em língua galega, mais também, e seguindo o discurso de fantasia isolacionista propugnado desde os anos 80 do século anterior, a literatura que não esteja escrita em galego institucionalizado segundo as normas ILG-RAG, fica fora do sistema institucional.

Mas fora do sistema institucional, não implica fora do sistema, apenas fora do mercado, do sistema comercial, de promoção e de ajudas do galego institucional. Pode-se excluir, pode-se ignorar, mas quase ninguém questiona a sério que o galego reintegracionista, não seja galego e portanto o escrito nele, literatura galega.

E até aí, ruim, mas bem, coerente. Uma língua, uma nação. O problema começa com a evolução do reintegracionismo na procura de um modelo de maior estabilidade e coerência e na sua constante de achegamento e procura de soluções gráficas no português contemporâneo, e a definição de uso de um Português da Galiza. Neste sentido resultam muito interessantes as exclusões, e também as contradições de estrangeirização que definem e apresentam ao modelo institucionalizado e ao esquema definido por Carvalho Calero.

E nestas volve incontornável a presença de Emília Pardo Bazán, reacionária, aristócrata, de estética cuidada e feminista, interessante e pioneira autora galega, de temática galega, de paisagem galega, de ambiente e sabor galego que escreveu toda a sua obra num interessante e marcado castelhano da Galiza. A ponta mais visível, justo com Valle-Inclán, diríamos de uma escola e icebergue que abrange boa parte da produção literária feita por galegos do século XV até o XXI.

E já postos a incordiar. E que se passa com a literatura em latim e noutras línguas europeias produzida por galegos? Que se passa com a produção literária e adaptativa das gentes galegas e descendentes, de cultura galega em Madrid ou Barcelona, em Lisboa ou Porto, na Havana, Buenos Aires, Santiago de Chile, México, Montevideu, Rio de janeiro, São Paulo, Paris, Londres, etc. São doutras literaturas, com rasgos galegos, percetíveis para nós mas invisíveis e que entram em relação, por eles e com eles noutras literaturas também não galegas.

Uma Língua, uma Nação? E que é uma Nação? e para que serve ser uma Nação sem ter um Estado? A Literatura galega só e apenas como literatura em galego? e o galego que vinha sendo? desde quando existe, e com que critérios foi fixado?

Vale para explicar alguma cousa este sistema concetual da Língua nacional e da Nação? tem utilidade acaso como modelo terminológico pre-coordenado para explicarmos as manifestações de uma cultura que tem na flexibilidade, na capacidade adaptativa, no relativismo e no sucesso e liberdade individual uns consensualizados valores sociais e uns mecanismos provados de funcionamento mimético e adaptativo? Vale para explicarmos uma sociedade em conflito, minorizada, com várias línguas, duas delas oficiais nos estados Espanhol e Português e espalhadas globalmente e com presença internacional?

E as manifestações literárias? não espelham as dominações, os protestos, os conflitos, não hesitam e dialogam umas com outras? E não está justamente presente isto tudo nosso, nuns quantos sistemas literários com os que interrelaciona e aos que interrelaciona? Serve para algo a classificação? e serve mais que a análise do total como realidade em conflito, como choque, como diálogo, como elo cosmopolita e mundano, como transação, imposição, dissimulo, adaptação?

Quanta rigidez inútil e quanto esforço em fantasiar Galiza e a produção literária das suas gentes diversas como uma realidade limitada, fechada e isolada do mundo para que não existem nem o português nem as suas literaturas que abrem portas, possibilidades e caminhos; e para as que o castelhano e as suas literaturas, omnipresentes, conformadoras e esmagadoras, não fazem parte do esquema explicativo.

Enfim, aí estamos, fazendo dramas e paralisados, como se apenas houvesse um jeito de pensar e de fazer as cousas, de celebrar as festas e ritos da passagem de ano e estas fossem obrigadas e obrigatórias. Mas o conto é outro, aberto, versátil, imprevisto, sem seguranças, nem formas estabelecidas. Como é o mundo e a vida.

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