SEGUNDO CANTO PARA A RENOVAÇÃO DO NATAL, de REINALDO FERREIRA (filho)

 

Selecção e montagem de Cid Simões

Voar fora da asa, 15 de Dezembro de 2014

 

A Noémia de Sousa

 

 

Tudo foi emprestado e alheio

Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:

A gruta, que os presépios embelezam,

– Ou talvez um estábulo?

– Ou talvez o ventre autêntico da mãe?

A burra e a vaca,

José, que era o pai cómodo,

E a mãe, que era o empréstimo supremo,

O recurso, a verdade

E a necessidade

Para que Deus nascesse entre os homens,

Mais do que Deus,

Um Homem.

Havia os magos com presentes deslocados,

O astro dos sinais,

A voz, o anjo, os pastores e a frase

Que nos presépios fabricados

Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.

Havia a noite e nós,

Filhos de pai e mãe,

Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,

Fruto d’A que não teve marido neste mundo

Para que o filho deslisasse sem pecado.

E havia Herodes,

Para que não fosse fácil

O que era inevitável.

E houvesse drama.

Ora bem.

Entre a burra e a vaca,

Dentro do hálito tépido das bestas,

Sobre as palhas

E ao nível das tetas,

O menino jazia

Nascido,

Que é como quem diz cumprido

Da promessa que havia.

José,

Os magos e os pastores

Tinham a sua fé;

A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;

A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,

Que é tudo,

Porque tudo e nada são a mesma coisa;

O Menino tinha o mistério de ser menino

E já Deus;

Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe

E só mãe.

Ela é o Natal.

Ora bem.

Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,

Nem sequer de José,

Do amável, do amoroso José

Que nos enternece

E discreto desaparece

Pela esquerda baixa

Do primeiro quadro da tragédia

De que somos o coro

– E também a tragédia.

Mas falemos d’Ele,

Que Ele é Ele,

Mesmo quando se faz pequenino

Para ter o nosso tamanho.

Não falemos da noite,

Que é um pouco mais que tudo isso,

– E menos do que a mãe,

De quem falemos.

Ora bem.

Ela ali estava para ser pintada.

Para ser pintada na vista do conjunto

Que é o Natal,

Comparsa dos presépios que hão-de vir,

Entre arraiais e foguetes

E estrelas de papel.

Ela ali estava para ser pintada

Na fuga para o Egipto,

Ao trote gracioso do burrito,

Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,

Que mandam mais que Herodes

E todos os seus bigodes.

Ela ali estava para ser pintada.

Para ser pintada – pouco e bem –

Sem o burrito, só com Sant’Ana e S. José

No breve engano de ser só mãe

Dum filho que fosse só filho.

Ela ali estava para ser pintada

No alarme de Jesus entre os doutores.

Ela ali estava p’ra não ser pintada

Depois que Jesus fez trinta,

Antes dos trinta e três

(Disseram trinta doutores:

– Diga trinta e três.

Ele disse.

Ele disse e morreu

Sem sofrer dos pulmões).

Ela ali estava para ser pintada

E no zénite de Jesus ser Jesus,

Depois dos trinta,

Quando Jesus

Fez

Trinta e três,

Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.

Ora bem.

A cruz que Ele trazia,

Mal lhe pesava.

Ele esperava.

Ele salvava.

Ele descia

E por isso subia.

Ela era mulher, era mãe – e Sabia.

A sua cruz

Era Jesus.

O seu inferno

Era ser mãe do Eterno

Que havia de sangrar

E morrer

Pelo caminho.

Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,

Que é como quem diz, no estábulo.

Não é a estrela que A deslustra

(O Universo e todos os seus astros

Não valem o que Ela é);

Não são os magos que A repelem

Para o canto, de não ser rainha,

Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;

Não é José que A excede, porque José é José,

E isso lhe basta sem ser bastante;

Não é o Filho que A tolda,

Porque Ela é a Mãe.

Ora bem.

É ser a Mãe.

É ver que o Seu menino

Não é apenas menino,

Mas a dose anunciada

De Homem e Deus;

A ponte que tem de ser pisada

Para que haja estrada

Para os céus;

É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,

O filho que Ela estremece

Vivo e já morto,

Porque o Pai quer e Ela obedece.

Irmãos em Cristo!

Irmãos do mesmo pai,

Quem quer que seja o Cristo

Que buscais.

Esta é a Sua hora!

A Sua – e a nossa.

Ela é o Natal.

Ave-Maria.

Ora bem.

 

Reinaldo Ferreira (filho)

 

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Leia este poema en Voar Fora da Asa, clicando em:

voar fora da asa: Segundo canto para a renovação do Natal – Reinaldo Ferreira (filho)

 

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UM CAFÉ NA INTERNET – Let my people go, por Noémia de Sousa

Leiam mais, sobre Noémia de Sousa, clicando em:

Noémia de Sousa – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

E sobre Reinaldo Ferreira (filho):

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI: REINALDO FERREIRA (FILHO) (novaaguia.blogspot.com)

Reinaldo Ferreira – Infopédia (infopedia.pt)

 

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