CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – LXXVI – JORNAL DO ANO DA PESTE XIII: OS FRASCOS DO DESTINO – por VICTOR HILL

 

 

 

 

Journal of the Plague Year XIII – The Vials of Destiny, por Victor Hill

Masterinvestor, 11 de Dezembro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

 

O programa global de vacinação em massa contra o Covid-19 começou no Reino Unido na terça-feira (08 de Dezembro) quando uma avó de 91 anos de idade com uma T-shirt de pato de Natal foi inoculada em Coventry. Será este o início do fim? pergunta Victor Hill.

O destino da humanidade em caixas de pizza

Em primeiro lugar, alguns factos práticos sobre como a vacina Pfizer-BioNTech baseada no mRNA da Pfizer-BioNTech vai ser transportada e administrada.

O MHRA do Reino Unido foi a primeira agência reguladora médica a aprovar a vacina na quarta-feira da semana passada (02 de Dezembro). Os carregamentos da vacina começaram a chegar do seu local de fabrico em Puurs, na província belga de Antuérpia, quase imediatamente – por camião através de Dover e por via aérea. A vacina, que deve ser mantida a uma temperatura de cerca de 70 Celsius negativos (muito mais fria do que um congelador normal), vem em frascos de vidro do tamanho de um dedo mindinho. Cada frasco contém cinco doses.

Os frascos são acondicionados em caixas de pizza – bandejas planas brancas – cada uma das quais contém cerca de 175 frascos. Cinco destas caixas de pizza são carregadas numa mala refrigerada especial que é embalada com gelo seco (dióxido de carbono ultracongelado). Assim, cada mala contém 975 frascos ou 4.875 doses e pode ser armazenada por até dez dias. Depois disso, as caixas de pizza podem ser transferidas para um supercongelador para armazenamento posterior ou para um frigorífico convencional e armazenadas a 2-5 Celsius por até cinco dias – após o que se tornarão inutilizáveis, uma vez que não podem ser recongeladas.

Presumivelmente, levará cerca de um dia para as vacinas descongelarem de menos 70 para mais 3 Celsius – não poderão ser injectadas enquanto ainda congeladas. O conteúdo de cada frasco é então diluído com solução salina estéril antes de ser injetado no ombro do paciente. Os pacientes serão solicitados a aguardar um curto período de tempo após a  tomada da injeção  para verificar se não existem efeitos secundários graves imediatos.

50 hospitais em Inglaterra que possuem os supercongeladores necessários foram designados centros de vacinação. Além disso, numerosas consultórios médicos  realizarão vacinações pelas quais serão pagas £12,58 por vacina (isto é 25% mais do que pela vacina contra a gripe). E haverá os chamados centros de vacinação em massa localizados em recintos desportivos e centros de conferências. (Talvez os hospitais Nightingale possam ser reformulados para esse efeito). Na primeira fase, os centros hospitalares irão suportar o esforço.

Ainda não está claro qual é a capacidade de armazenamento destes hospitais. Fala-se também de uma possível escassez de frascos de vidro e mesmo de gelo seco. Para não falar de agulhas, toalhetes com álcool e equipamento de proteção para os médicos. E depois há a capacidade de pessoal: estarão disponíveis suficientes profissionais de saúde  treinados onde são necessários? O que é evidente é que a implementação do programa de vacinação irá exigir um elevado grau de planeamento logístico. Há muitas coisas que podem correr mal.

.O governo britânico encomendou 40 milhões de doses da vacina Pfizer-BioNTech – suficientes para vacinar 20 milhões de pessoas, dado que cada pessoa necessitará de duas doses com 21 dias de intervalo. No entanto, quando a encomenda foi feita, a Pfizer tinha um calendário de produção de 100 milhões de doses antes do final deste ano. Este número foi agora reduzido para metade. Portanto, não é claro quanto tempo levará para a entrega da encomenda completa. Isto torna a implementação mais problemática, uma vez que o governo tem de coordenar as faixas de vacinação de acordo com o momento em que a vacina estiver disponível.

O primeiro lote de entregas foi para 800.000 injeções ; mas um segundo lote antes do final do ano fornecerá mais alguns milhões – embora isso tenha sido questionado. A Pfizer disse que planeia fabricar 1,3 mil milhões de doses da vacina em 2021. A Morgan Stanley calcula que a vacina poderá render à Pfizer e à BioNTech 10 mil milhões de dólares em receitas no próximo ano.

A incerteza sobre a disponibilidade é especialmente desafiante uma vez que, na Semana 4 do lançamento da vacinação, o número de doses terá de duplicar como resultado das segundas doses. Vamos assumir que, se se  conseguir vacinar 500.000 pessoas por semana (optimista, a meu ver) durante as Semanas 1 a 3, com a primeira dose. Na Semana 4 sobe para um milhão de vacinações à medida que as pessoas da Semana 1 voltam para a segunda dose – e assim sucessivamente. Não está claro para mim se, no caso de haver falta de vacina, as pessoas da segunda vacina teriam prioridade sobre as novas pessoas da primeira vacina. Os administradores precisam de saber, na medida do possível, exatamente quantas doses estão a entrar no país e em que dias, e terem a certeza de para onde foram.

A licença da MHRA para a vacina não é apenas uma luz verde – especifica exatamente onde e quando, e em que condições, a vacina pode ser administrada. As vacinas não serão administradas em lares por causa da questão do armazenamento a frio. No entanto, parece haver alguma dissidência a este respeito na Escócia, onde o governo do SNP (NT: Partido Nacional Escocês) disse ter encontrado uma forma de dividir uma mala em duas. Isso poderia ser contestado pelo regulador.

A população total de adultos registados nos serviços   de saúde do Reino Unido é de cerca de 50 milhões, e cada adulto necessitará de duas injeções – portanto 100 milhões no total. Se o objetivo de lançamento for de um milhão por semana, então todo o programa levará quase dois anos. Só para vacinar os maiores de 60 anos (13,5 milhões de pessoas), serão necessários mais de três meses.

As diretrizes do SNS impedem que o programa de vacinação funcione em plena capacidade na primeira fase, uma vez que os médicos são obrigados a supervisionar pessoalmente cada vacinação. Como resultado, os 50 centros hospitalares em Inglaterra só poderão levar a cabo 300 vacinações por dia. Isto significa que a rede de centros hospitalares só efectuará 105.000 vacinações na primeira semana. Mas um médico sénior escreveu que a administração de uma vacina pode ser ensinada com segurança aos leigos em 15 minutos. Os membros das forças armadas são treinados para administrar vacinas, tal como os não-médicos em clínicas móveis criadas para o efeito. .

E enquanto for dada prioridade à vacinação Covid-19, outras condições de saúde graves, incluindo o cancro, permanecerão sem tratamento.

O médico vai recebê-lo agora…

A mensagem predominante do Serviço Nacional de Saúde por todo o Reino Unido é: Não nos telefone – nós telefonamos-lhe. Os residentes do Reino Unido que estejam registados num serviço de saúde serão convidados a frequentar um centro de vacinação a uma determinada hora e data, à medida que o tempo passa, por ordem da sua prioridade. Pelo menos até ao final deste ano, a enfase será sobre os residentes com mais de 80 anos, residentes em lares e prestadores de cuidados. A maioria das pessoas que receberam a vacina na terça-feira tinham noventa anos ou mais.  Considerando que cerca de um terço das 63.000 pessoas que morreram com Covid no Reino Unido eram residentes em lares de idosos (o que inclui pessoas que normalmente estavam em lares mas morreram no hospital). Nesta base, avançar, vacinar menos de um por cento da população poderia evitar um terço de toda a mortalidade, o que representa um bom retorno do investimento para os economistas da saúde. Outro quase um terço das mortes no Reino Unido ocorreu entre as pessoas com mais de 80 anos que não eram residentes em lares, e são as segundas na fila.

Só para complicar ainda mais o quadro, as vacinas Moderna (NASDAQ:MRNA) e Oxford-AstraZeneca (LON:AZN) também poderão ser aprovadas em breve – possivelmente mesmo antes do Natal. O governo britânico encomendou previamente sete milhões de doses da vacina Moderna e 100 milhões da Oxford. Estas serão sujeitas a diferentes questões logísticas e, por conseguinte, terão licenças diferentes. Não é claro se o mesmo centro de vacinação poderá administrar mais do que um tipo de vacina. Como já disse anteriormente, seria bom que aos cidadãos pudesse ser oferecida uma escolha de vacina – mas duvido muito que assim  seja. Teremos o que nos é dado.

Em qualquer caso, a vacina Moderna pode estar em falta. A vacina reivindica uma taxa de sucesso de 94,5% – mesmo nos idosos – e pode ser armazenada a apenas menos 20 Celsius; embora seja mais dispendiosa uma vez que cada dose é de 100 microgramas – três vezes a da vacina Pfizer-BioNTech. Mesmo que aprovada este mês, a vacina não estará disponível no Reino Unido antes da Primavera, porque foi dada prioridade aos EUA. Foram feitas encomendas adicionais de vacinas para vacinas  desenvolvidas pela Novavax (NASDAQ:NVAX), Janssen (propriedade da Johnson & Johnson (NYSE:JNJ), GSK-Sanofi Pasteur (LON:GPA/EPA:SAN) e Valneva (EPA:VLA).

O governo do Reino Unido (cujo mandato só é válido, pelo que parece, em Inglaterra) disse que não prevê qualquer passo no sentido de tornar a vacinação obrigatória. No entanto, Nadim Zahawi MP, recentemente nomeado ministro das vacinas, indicou que a vida quotidiana se tornaria difícil para os que recusam a vacinação, uma vez que muitas atividades exigirão provas de vacinação. Qantas (ASX:QAN) já anunciou que quando retomar o serviço normal todos os passageiros serão obrigados a fornecer certificados de vacinação a fim de embarcarem num avião. Mesmo restaurantes e teatros poderão exigir certificados de vacinação a tempo.

Alguns comentadores já estão a pensar nos desafios adicionais que irão surgir quando os programas de vacinação forem implementados nos países em desenvolvimento – particularmente nos países tropicais. No final de 2021,  há os países que têm a vacina e os que a não têm, o que criará fortes contrastes. Podemos esperar que o Dr. Ugur Sahin e o Dr. Ozlem Türeci, os co-fundadores da BioNTech, que falaram das suas preocupações humanitárias, atuem nesta matéria. E vai haver um debate sobre quanto do nosso orçamento de ajuda externa se vai desviar nesta direção. Até que este coronavírus também seja erradicado no mundo em desenvolvimento, e se houver aqui um relaxamento do programa de vacinação, continuará a existir o risco de que possa regressar ao primeiro mundo com uma vingança.

Uma palavra de prudência. Embora haja fortes evidências de que a vacina Pfizer-BioNTech irá conferir imunidade, ainda não sabemos se ela pode parar a transmissão do vírus dos vacinados para os não-vacinados. As vacinas nasais que são administradas diretamente nas vias respiratórias podem ser mais eficazes na redução da transmissão do que as que são injetadas no braço.

Eficácia

Na quarta-feira (09 de Dezembro) foi noticiado que dois profissionais de saúde que tinham sido vacinados na terça-feira tinham comunicado reações anafilatóides graves. O MHRA avisou o SNS que as pessoas com alergias significativas podem não ser candidatos adequados para esta vacina. Alergias significativas significam pessoas suscetíveis que transportam auto-injectores de adrenalina (Epi-pens) a todo o momento. Isto só irá confirmar os preconceitos dos antivacinas. Será interessante ver como eles influenciam a tomada da vacina à medida que o tempo avança.

Infelizmente, precisamente porque a vacina foi administrada em primeiro lugar aos mais vulneráveis, é provável que haja mais relatos de reações adversas. Os residentes dos lares sofrem de todo o tipo de condições médicas naturais quase diariamente e algumas podem manifestar-se logo após a vacinação – embora não devido a ela. A Dra. Helen Talbot, professora associada de medicina na Universidade de Vanderbilt declarou na semana passada numa audiência do Congresso que ainda não existem dados que demonstrem que a vacina Pfizer-BioNTech funcione nas pessoas velhas e frágeis.

Os quatro médicos chefes dos Serviços de Saúde  do  Reino Unido avisaram o NHS na semana passada que qualquer implementação de vacinas teria apenas um impacto marginal no número de casos e admissões hospitalares durante os próximos três meses. Alguns temem que o acordo de quatro nações  para aliviar as restrições durante cinco dias no Natal provoque uma terceira vaga de novas infeções depois disso.

A influenza – gripe – não pode ser totalmente erradicada porque existem dezenas de estirpes de gripe, cada uma das quais está em rápida evolução, de modo que os cientistas têm de desenvolver uma nova vacina contra a gripe todos os anos. O coronavírus Covid-19, por outro lado, evolui muito mais lentamente, pelo que parece atualmente. Quanto mais rapidamente o erradicarmos, mais hipóteses temos de o impedir de evoluir para algo realmente mortal como a varíola ou o Ébola.

Euforia bolsista e infortúnio económico

Os mercados bolsistas, particularmente nos EUA, parecem pensar que estamos nos Ruidosos Anos 20 que se seguiram à gripe espanhola – e lembremo-nos de como isso levou a  1929. O pressuposto é que o programa de vacinação irá restaurar a normalidade até meados de 2021. Com  essa ideia, são encorajados pelo objetivo do Presidente eleito Biden de vacinar 100 milhões de americanos nos seus primeiros 100 dias.

De acordo com o OBR (NT: Office for Budget Responsibility), a produção britânica não voltará aos níveis de 2019 até finais de 2022, com um PIB 3% inferior ao que poderia ter sido de outro modo. Mais preocupante é a perspetiva no mercado de trabalho. Os postos de trabalho no setor retalhista  estão em clara queda  – especialmente na sequência do desaparecimento de Debenhams e Arcadia, que em conjunto representam cerca de 25.000 postos de trabalho. Isto é importante porque, para muitas pessoas, tais como estudantes e pessoas envolvidas em profissões sazonais, o comércio e a hotelaria em geral  oferecem uma fonte importante e constante para os empregos a tempo parcial. Pense nos modelos que trabalham sem contratos em Topshop e atores que sem espetáculos passam  a trabalhar como empregados de mesa em restaurantes de Covent Garden. O desaparecimento destas empresas é uma má notícia para as finanças públicas, mas também para o mercado de trabalho flexível, mercado este  que deu ao Reino Unido uma vantagem económica.

Em termos de preços de valores na bolsa a farmacêutic  Pfizer (NYSE:PFE) subiu de $37 no dia em que a vacina foi declarada viável (09 de Novembro) para cerca de $41 quando eu escrevo estas linhas; mas a Moderna (NASDAQ:MRNA) mais do que duplicou de $76 para $156. Em contraste, o preço da AstraZeneca (LON:AZN) caiu de £8,30 para £8,10. Claramente os mercados não estão impressionados com as estatísticas de eficácia desta última. Mas será que o regulador terá reservas semelhantes?

Dar o  exemplo

O Dr. Sahin sugeriu que Sua Majestade a Rainha HM e Sir David Attenborough poderiam ser vacinados em direto na TV para incentivar o cidadão comum a vacinar-se. A Rainha Charlotte, a esposa de George III (o rei louco George que perdeu a América) era muito favorável  ao programa de vacinação contra a varíola de Jenner, tendo perdido dois filhos devido à doença. Do mesmo modo, a Rainha Vitória popularizou o uso de clorofórmio.

O governo do Reino Unido já obteve  o apoio de celebridades – e isso é certamente o que vai acontecer também na América de Biden. Daqui a meses veremos  Gwyneth Paltrow, George Clooney, Sir Ian McKellen, Hugh Grant, Dames Judy e Maggie aparecerem  no écran a  dizerem-nos:  Se eu fui vacinado também o podem ser.

***

No início desta semana atravessámos de carro uma Norfolk gelada até à premiada adega Winbirri Vineyard, localizada mesmo à saída  de Surlingham. Quando chegámos (de máscara, é claro) as vinhas podadas estavam cobertas de geada – estavam dois graus negativos, embora o sol de Inverno tenha aparecido  para nos saudar. Lee, proprietário-gerente e filho do fundador, que ali tem vivido sempre, viu sem problemas a minha lista de compras. Depois olhou  para a loja de vinhos tipo hangar, emergiu com um carrinho carregado e transferiu as minhas compras para o meu próprio carro.

Uma boa parte dessas garrafas serão presentes de Natal – em parte a minha campanha para convencer os amigos de que a produção das vinhas inglesas, mesmo nesta latitude, é mais do que meio decente; e em parte por causa da minha crescente convicção de que deveríamos pensar globalmente mas comer (e beber) à maneira local. (Localismo versus globalismo.) Sem dúvida que a iminente imposição de tarifas sobre as importações de vinho tornará a diferença  de preços menos desencorajador.

Este ano mudou-nos a todos – em algumas pequenas coisas  para melhor. E noutras não.

 

Journal of the Plague Year XIII – The Vials of Destiny – Master Investor

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