A GALIZA COMO TAREFA – oportunidades – Ernesto V. Souza

Dado que este natal passamos virtualmente, longe da família, tivemos que fazer sopas e festas com saudades. Depois de uma destas vídeo-conversas caóticas, um dos meus irmãos encaminhou-me umas fotografias de um velho Spectrum e alguns jogos que ele conserva.

A máquina corre, imaginem (e sem a porra das atualizações nem estar afetada por obsolescências) e podem se jogar os mais deles, conectando a terminal numa TV. O ritmo para carregar é lento, e os ruídos saudosos, como os gráficos. Tantas tardes passadas montando, instalando e jogando. Com este, com o pequeno ZX spectrum que tivéramos antes (que tinha de se ligar a um reprodutor de cassete externo) e mais com uma outra consola Philips de cartuchos que não conservamos, e agora parecem trebelhos efetivamente doutros séculos.

Entre toda essa tecnologia quase de museu há um livro daquela época, com pequenos programas e que ficou com os jogos. É um produto de quiosque, para o modelo anterior, provavelmente comprado porque trazia também alguma cassete com algum jogo. E porque os pais ofertavam estas cousas com os sonhos da programação e o futuro.

Lembro andar, mas a memória é fraca, debruçado naquelas páginas e tentando alguma vez em momentos diversos a tratar de dar forma naqueles códigos para lograr alguma pequena movimentação ou gráfica no ecrã.

O curioso, é que o livro está em português, isto não lembrava. Está usado e anotado a lápis (cousa suponho do outro dos meus irmãos que daquela tinha mais interesse em entender estas complexidades).

Não chegamos a reconstruir a origem do livro. Outra das minhas irmãs lembra vagamente ter aparecido uma dia meu pai (daquela mais novo do que eu sou agora) com a sua gabardina na mão, depois do trabalho com ele.

De qualquer jeito, indica que na Crunha de 1983, dalgum jeito que hoje nem se imagina, alguma literatura de quiosque portuguesa circulava; e associada a ócio e tecnologia. A aquelas primeiras aulas e usos da Informática e das primeiras programações escolares em BASIC (Cobol era um mito e uma palavra mágica que se ouvia cás de um amigo meu cujo pai trabalhava com enormes computadores e umas folhas de papel contínuo e escrita em pontinhos) naqueles  anos 80.

Relendo na introdução (e na propaganda com os títulos da coleção) dá para pensar em que oportunidade – quantas oportunidades perdidas – para deixar normalizado o galego na década de 1980; para abrirmos as portas e as janelas ao português, à diversão, à cultura popular e a tecnologia e lançar-se na grande aventura quotidiana do futuro, na Galiza, pela via mais doada e natural.

 

David Harwood : 60 Jogos para o ZX Spectrum (Portuguese) .- Lisboa: Presença (Tempos Livres), 1983.

 

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