Assim vai a Itália… – Renzi diz a Conte: “Vamos começar de novo”. Mas o PD já vê as eleições a virem, por Andrea Carugati

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Renzi diz a Conte: “Vamos começar de novo”. Mas o PD já vê as eleições a virem

Governo em crise. A busca de construtores está parada. Os sucateiros tentam travar o lançamento de Italia Viva (partido de Renzi)

 

 Por Andrea Carugati

Publicado por em 21/01/2021 (original aqui)

 

Matteo Renzi e Nicola Zingaretti © Lapresse

 

Dois dias após a votação do Senado que salvou Conde mas sem maioria absoluta, ainda não há sinal do fim do túnel. Pelo contrário, à medida que as horas passam, as esperanças do Primeiro-Ministro de organizar rapidamente um novo grupo no Senado para apoiar o governo estão a desvanecer-se.

A crise está a apertar perigosamente, ao ponto de Matteo Renzi – aquele que causou com a convicção de que não iria a eleições – tenta agora uma travagem de emergência: “Uma vez que ainda estamos a tempo de parar, o meu apelo é «não façam uma simples troca de deputados individuais, voltem à política»”, disse ele ontem à cadeia Piazzapulita. “A nossa abstenção de terça-feira foi um sinal de abertura ao compromisso, se quiserem debater, em locais institucionais, nós estamos lá”.

UM APELO FORA DO TEMPO máximo, segundo se ouve no governo, e também no PD. “Matteo meteu-se num buraco e agora não sabe como sair dele”, dizem desde a sede do Partido Democrático (no largo Nazareno em Roma), onde a preocupação cresce de dia para dia. Assim como a convicção de que a situação está “a deslizar num plano inclinado para as eleições”.

Ontem Goffredo Bettini [do Partido Democrático] repetiu-o mais uma vez: “Se nestas semanas conseguirmos consolidar e aumentar os números, tudo bem. Nesse caso, teremos um governo Conte e o primeiro-ministro apresenta-lo-á ao presidente Mattarella. Espero que seja assim, mas não é certo. Caso contrário, iremos a eleições, o resultado natural numa democracia quando todas as opções estão esgotadas”.

É precisamente no final das outras opções que os Democráticos estão a raciocinar. Cientes de que não podem participar num governo de unidade nacional com a Forza Italia e a Liga, por razões ideais e programáticas, certamente, mas também porque “nas próximas eleições corremos o risco de desaparecer”. “Mas como podemos fazer um governo institucional com uma direita que está ligada a Orban na Europa? Não se podem juntar coisas que não se encaixam”, insiste Bettini, agora numa base diária.

NA FRENTE PARLAMENTAR, a operação “alargamento”, a caça aos “responsáveis” e aos “voluntários” não descola. A investigação a cargo do secretário do Udc [União do centro] Lorenzo Cesa não só deteve a busca neste grupo parlamentar (que em todo o caso reclamava a demissão de Conte antes de começar a negociar), como fez explodir dentro do M5S um grito de desconforto, “Há um limite para tudo”. “É evidente que esta consolidação do governo não pode ter lugar à custa da questão moral, dos valores que sempre defendemos e que são fundamentais para o projecto 5 Estrelas”, avisa Di Maio.

Uma delimitação, partilhada por Di Battista, Laura Castelli e outros grandes, que é poderá complicar muito as coisas. Tanto que entre os “grillini” (os do Movimento 5 Estrelas) alguém se pergunta se não será o caso de reabrir as portas à Itália Viva. “Faço uma distinção entre os deputados do Italia Viva e Matteo Renzi. Com os colegas do Italia Viva continuamos a trabalhar bem”, diz a líder do grupo na Comissão de Finanças da Câmara, Vita Martinciglio. “No amor como na política nunca digam nunca…”.

FORA DOS IDEAIS, o problema é que os responsáveis não são suficientes. E que mesmo que 3-4 senadores de Renzi se distanciem (fala-se insistentemente de Eugenio Comincini, Leonardo Grimani, Donatella Conzatti e Anna Maria Parente, ontem à noite longa reunião dos grupos com Renzi que tentou parar os resultados) isso não seria decisivo, dado que sem senadores vitalícios a maioria oscila entre 152 e 153 votos, dez abaixo do limiar de sobrevivência.

E a justiça continua a ser uma questão que divide o recrutamento de centristas e de forzisti (deputados do Forza Italia). “Não posso apoiar um executivo com Bonafede na Justiça”, disse ontem Luigi Vitali, senador apuliano do Forza Italia que oscila na balança. “Fui contactado como muitos outros, mas nesta situação não vejo margens para avançar para a constituição de um novo sujeito político”. Também cortejaram os três senadores próximos de Giovanni Toti, mas eles insistem: “Precisamos de um governo de unidade nacional. Traduzido: Mario Draghi. Um nome que agrada muito a Forza Italia e aos moderados da Lega como Giorgetti.

TAMBÉM OS RESPONSÁVEIS que já assumiram estão a lutar: a estas horas a tentativa no Senado é de construir o grupo Maie-Italia23, lançado há alguns dias por Ricardo Merlo e Raffaele Fantetti como um embrião do projecto Conte. Deverão juntar-se nele Sandra Mastella, os antigos membros do Forza Italai Andrea Causin e Mariarosaria Rossi, Lello Ciampolillo e Gregorio De Falco. Com os atuais 5 senadores chegariam a 10, portanto um grupo autónomo, decisivo para elevar a maioria nos comités de maioria incerta e no líder do grupo parlamentar. Mas, até ontem à noite, a amálgama ainda não tinha sido bem sucedida.

 

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O autor: Andrea Carugati [1975 – ], jornalista italiano, licenciado em Comunicação Política por Bolonha. Cronista parlamentar, escreve para Il Mannifesto.

 

 

 

 

 

 

 

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