A propósito das vacinas Covid e das vacinas em geral – “Dr. Lawrence Palevsky: Um pediatra antivacina que é uma fonte interminável de desinformação”. Por David Gorski

 

Publicamos dois textos (hoje o segundo) que se debruçam, um de forma indireta e outro de forma direta, sobre as posições dos defensores da não vacinação contra o Covid-19 e, mais em geral, da não vacinação:

 – Os surpreendentes ingredientes encontrados nas vacinas, por Zaria Gorvett;

Dr. Lawrence Palevsky: Um pediatra antivacina que é uma fonte interminável de desinformação, por David Gorski

Ambos os textos deixam a nu a charlatanice das posições dos antivacinistas. O personagem central neste caso é o Dr. Lawrence Palevsky, um pediatra antivacinas, com as suas intervenções no fórum legislativo do estado do Connecticut nos Estados Unidos, uma primeira em novembro de 2019 e outra em fevereiro de 2020. O texto do Dr. David Gorski, que analisa detalhadamente as posições do Dr. Lawrence Palevsky, conclui que L. Palevsky não devia ser médico e devia ser proibido de exercer medicina.

O texto de Zaria Gorvett, de outubro de 2020, não se debruça sobre as declarações de Palevsky, mas acaba por desmontar os fantasmas que este dito pediatra lança, como por exemplo, a ameaça das “nanopartículas” (que, como diz o Dr. Gorski, não são nanopartículas mas sim micropartículas) de alumínio das vacinas que acabarão por ir parar ao cérebro dos que se vacinam. Afinal, como diz Gorvett, “o adjuvante mais comummente utilizado no planeta é o alumínio. Este químico encontra-se na maioria das vacinas, incluindo a vacina contra a difteria, tétano e tosse convulsa (DTP), bem como as que protegem contra a hepatite A, hepatite B, HPV, encefalite japonesa, meningite B, antraz, pneumococo, e Haemophilus influenzae tipo b (ou bacilo de Pfeiffer)”. E “o alumínio não é apenas o adjuvante mais comum, mas um dos mais antigos”. E a Dra. Gorvett acrescenta: “Até hoje, o alumínio nas vacinas está sempre sob a forma de sais. Estes incluem hidróxido de alumínio (normalmente utilizado como antiácido para aliviar a indigestão e a azia), fosfato de alumínio (frequentemente utilizado em cimento dentário) e sulfato de alumínio potássico, que se encontra por vezes em fermento em pó.” Ora, segundo Palevsky, tudo isso vai parar ao cérebro, argumenta que não existem estudos sobre a segurança das vacinas e fala de estudos (sem concretizar que estudos são esses) que mostram que o cérebro, nomeadamente de doentes Alzheimer revelam a existência de nanopartículas de alumínio no cérebro. É caso para pensar que todos nós estaremos cheios de “alumínio” no cérebro. Está lançado o medo e a desconfiança sobre as vacinas.

O texto do Dr. David Gorski, especialista em cirurgia do cancro da mama, em Biologia do Cancro, e ele próprio investigador, desmonta passo a passo as charlatanices proferidas por Palevsky e defende que lhe seja retirada a licença para exercer medicina.

FT

_______________________

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

Dr. Lawrence Palevsky: Um pediatra antivacina que é uma fonte interminável de desinformação

O Dr. Lawrence Palevsky é um pediatra antivacina. O seu recente testemunho perante a assembleia legislativa de Connecticut, que está a ser apregoado em sites antivacina, mostra a que ponto ele é antivacinas.

 Por David Gorski

Publicado por  em 05/02/2020 (orginal aqui)

 

O Dr. Lawrence Palevsky é um pediatra. É também uma das coisas que mais detesto, um médico antivacina, tendo aparecido no filme de propaganda antivacina disfarçado de documentário, The Greater Good; espalhou ativamente desinformação antivacina entre as comunidades judaicas ortodoxas de Brooklyn e Rockland County em Nova Iorque; e tornou-se um promotor ativo da pseudociência antivacina e das teorias da conspiração ao ponto de eu defender que lhe seja retirada a licença para exercer medicina. Recentemente, tomei conhecimento de um vídeo dele fornecendo um testemunho de “perito” (se é que se lhe pode chamar isso) perante um fórum informativo da assembleia legislativa de Connecticut, que tem estado a considerar retirar a isenção religiosa à obrigatoriedade de vacina na escola estadual, e tinha tanta desinformação que me pôs os dentes a ranger, e quando os meus dentes começam a ranger as minhas mãos ficam com comichão para escrever no teclado uma refutação, particularmente porque o seu testemunho está a ser apregoado por sites de charlatães.

Pareceu-me também que uma refutação à pseudociência, desinformação e má ciência da antivacina é um exercício útil, porque, não se enganem, o Dr. Palevsky é um trunfo importante para os antivacinistas. Porquê? Primeiro, ele é médico e, ainda melhor e mais relevante para os seus propósitos, um pediatra que foi completamente para o Lado Negro em vacinas. Segundo, sendo um tipo branco de tardia meia-idade (acontece que ele começou a faculdade de medicina um ano antes de mim), ele parece uma voz autorizada quando dá o seu testemunho, mesmo quando esse testemunho consiste principalmente em lugares-comuns antivacinas facilmente refutáveis e na negação de que existem dados sobre certos aspectos da segurança da vacina quando, de facto, existem muitos dados. Como verá, em pouco mais de 18 minutos, o Dr. Palevsky lança uma verdadeira barragem de meias verdades e inverdades, de lugares-comuns e afirmações antivacinas que parecem plausíveis se você não souber muito sobre o assunto. Isto faz dele uma ameaça para a saúde pública:

O Dr. Lawrence Palevsky fala ao fórum legislativo de Connecticut

 

Permitam-me que me apresente; sou um homem de gosto antivacínico

O Dr. Palevsky começou o seu testemunho apresentando-se, contando a sua história a trabalhar em salas de urgência, unidades de cuidados intensivos e, mais tarde, em consultórios privados. Naturalmente, o que ele se esqueceu de dizer aos legisladores foi que o seu consultório privado é uma prática “pediátrica integradora“, que oferece charlatanice de nível como acupunctura e medicina chinesa, quiroprática, osteopatia, terapia crânio-sacral, medicina ambiental, homeopatia, e óleos essenciais, juntamente com modalidades de cura naturais como aromaterapia, yoga, pseudoterapia Reiki, meditação, reflexologia, e vigilância mental. Pior, a sua filosofia de tratamento de crianças é verdadeiramente horrível. Não admira que desde que entrou em contacto com o público, ele tenha “limpo” o seu website, expurgando-o da maioria dos seus elementos mais charlatães. Infelizmente para ele, porém, a todo-poderosa Máquina Wayback no Archive.org sabe tudo, lembra-se de tudo, e conta tudo:

Sintomas agudos, tais como febre, vómitos, diarreia, erupção cutânea, tosse, corrimento nasal, produção de muco e sibilo, são todas formas importantes de as crianças descarregarem acumulações armazenadas de resíduos ou toxinas do seu corpo. Estas toxinas entram e são armazenadas nos seus corpos devido a repetidas exposições no útero, ao ar, aos alimentos, à água, da pele, ao stress do sistema nervoso, e materiais injectados, que por qualquer razão, não saem facilmente dos seus corpos através dos meios normais de desintoxicação. Estas toxinas são demasiado irritantes para o corpo das crianças e devem ser removidas. Eventualmente, é atingido um nível crítico das toxinas, e as crianças adoecem com sintomas para as purgar. As crianças, portanto, devem poder ficar doentes, para que fiquem bem.

Na sua prática, o Dr. Palevsky encoraja os pais a permitir que os filhos expressem os seus sintomas quando estão doentes. Ninguém quer que as crianças “se sintam” doentes. Contudo, os pais podem aprender a usar remédios que ajudam as crianças a sentirem-se melhor e a sararem mais eficazmente, sem alterar a importante fisiologia que as está a ajudar a limpar os seus sistemas. Deixar as crianças ter os seus sintomas, sem os suprimir, pode ser um processo desafiante tanto para os pais como para os profissionais de saúde. Muitas vezes estamos frente a frente com o nosso próprio desconforto quando as crianças sentem desconforto devido às suas doenças. É difícil para nós vê-las “sofrer”, pelo que, reflexivamente, lhes damos algo para lhes trazer alívio imediato. Esta resposta reflexiva para suprimir os seus sintomas, no entanto, enfraquece-as e atrasa o seu processo de cura.

Continuarei a citar estas passagens cada vez que escrever sobre a promoção da pseudociência antivacina do Dr. Palevsky. De facto, se eu estivesse naquela sessão legislativa, citaria as palavras do Dr. Palevsky e perguntar-lhe-ia se realmente acredita em não vacinar porque as vacinas impedem as crianças de “exprimirem os seus sintomas” e experimentarem plenamente a glória do sarampo, papeira, varicela, Haemophilus influenza tipo b, etc. Pessoalmente, como disse da última vez que falei do Dr. Palevsky, cheguei à conclusão de que o Dr. Palevsky é um monstro. Ele parece ter acreditado (e quase certamente ainda acredita) que as crianças deveriam sofrer, que o seu sofrimento não deveria ser aliviado, que as crianças deveriam ser “autorizadas a ficar doentes”, pois fazer de outra forma não seria natural e impedi-las-ia de “limpar” e “curar” os seus sistemas adequadamente. Também não posso deixar de notar, como outros o fizeram, que existe aqui uma tensão distinta de negação da teoria dos germes. Não são tanto as bactérias e os vírus que causam febre e doenças. São as toxinas. Ele até o disse explicitamente, como outros já documentaram. O Dr. Palevsky merece definitivamente a sua entrada na Enciclopédia dos Lunáticos Americanos.

O Dr. Palevsky continuou o seu testemunho com o tipo de história que normalmente ouvimos de charlatães antivacinas como ele, nomeadamente que tudo o que lhe foi ensinado sobre vacinas na escola médica foi que “eram seguras; eram eficazes; e davam-nas”, dizendo que não lhe foi ensinada a ciência da segurança das vacinas. A razão pela qual esta narrativa específica é eficaz, independentemente de ser verdadeira ou não, baseia-se em algo que o leigo normalmente não sabe, nomeadamente que a escola médica é onde os estudantes vão para aprender os princípios básicos da medicina, a base comum sobre a qual a formação em residência se baseia para produzir o produto acabado, o médico totalmente treinado. Quando terminamos a faculdade de medicina, não estamos qualificados para praticar. Quando terminamos o internato, embora a maioria dos estados nos permita ser licenciados, não estamos realmente qualificados para praticar, razão pela qual alguém com apenas um ano de formação pós-graduada, embora tecnicamente capaz de praticar, não estará em condições de obter prerrogativas hospitalares e não poderá ser inscrito em quaisquer planos de seguro. Não, a verdadeira aprendizagem de como ser médico, por exemplo um pediatra, acontece no estágio, e aposto que o Dr. Palevsky aprendeu todos os potenciais efeitos secundários de cada vacina que estava no calendário na altura. Porquê? Porque ele estava a ser treinado para administrar vacinas, e se administrar vacinas precisa de saber como lidar com os efeitos secundários menores (por exemplo, febre, braço dorido, etc.) e reconhecer potenciais efeitos secundários graves.

O objetivo desta narrativa do Dr. Palevsky é enganar os leigos, levando-os a pensar que os médicos não têm qualquer formação em vacinas. Trata-se de uma narrativa profundamente desonesta. Claro que não me surpreenderia se, através das maravilhas do preconceito de confirmação e da memória seletiva, o Dr. Palevsky também se convenceu de que não recebeu qualquer formação deste tipo em estágio.

A parte seguinte do seu testemunho revela que o Dr. Palevsky é profundamente ignorante. Nele, ele contou a história de uma mãe que se aproximou dele em 1998 e lhe perguntou se sabia que havia mercúrio nas vacinas. A sério? Ele não sabia? Será que não sabia o que é o timerosal? Será que ele nunca leu os folhetos de embalagem? Eu sei que critico a forma como os antivacinistas usam mal as embalagens, mas as embalagens fazem pelo menos uma lista dos ingredientes das vacinas, e nessa altura o timerosal era também usado como conservante em soluções salinas para lentes de contacto. Em qualquer caso, aqui está o primeiro momento em que o Dr. Palevsky faz tudo para convencer os legisladores de que é um Homem da Ciência, dizendo: “Como estudante de medicina, fui treinado para pensar criticamente. Se vê uma observação, vai atrás dela e vê se há uma pergunta a fazer”. Dada a qualidade do testemunho do Dr. Palevsky, eu contestaria muito se ele alguma vez foi ensinado a ser um pensador crítico, na faculdade de medicina ou em qualquer outro lugar. Se o foi, a sua escola de medicina falhou claramente.

A parte seguinte do vídeo mostra como o Dr. Palevsky é ignorante. Ele relatou como tinha começado a investigar os ingredientes das vacinas e encontrou “muitos estudos com animais” mostrando que estes ingredientes eram “muito perigosos para os animais” e disse: “Não percebi porque é que estes ingredientes estavam nas vacinas”. Oh pá, basta perguntar. O que estava a fazer nesse testemunho não era mais do que papaguear a “artimanha das toxinas”. Há pessoas que lhe podem dizer porque é que vários ingredientes estão nas vacinas. O timerosal, quando estava nas vacinas, era usado como conservante para frascos multidose. O formaldeído é utilizado para inativar vírus, e são deixados vestígios, vestígios demasiado pequenos para causar qualquer dano, dado que o formaldeído é um produto normal do metabolismo e o corpo de uma criança tem muito mais dele do que qualquer vacina. Sei que o website do Centro de Educação de Vacinas do Hospital Infantil da Pensilvânia provavelmente não existia, mas mesmo nesta data tardia o Dr. Palevsky poderia, se assim o escolhesse, educar-se facilmente sobre o porquê exato de cada ingrediente da vacina estar nas vacinas e como nenhum deles é perigoso nas concentrações/doses presentes.

Naturalmente, o Dr. Palevsky está muito interessado em confundir correlação com causalidade e demonstrou-o ao relatar histórias de “milhares” de pais que pensavam que as vacinas tinham ferido os seus filhos, dizendo com ar indignado como “a cada um destes pais” foi dito que as vacinas “não tinham nada a ver” com os problemas de saúde dos seus filhos, doenças auto-imunes, regressão ao autismo, e coisas do género. Ele enumerou um monte de estatísticas, diretamente do mito da “geração mais doente” promulgado por Robert F. Kennedy, Jr. Cheio de falsa confiança, o Dr. Palevsky disse que, olhando para os ingredientes das vacinas, tinha A Ciência para explicar o que tinha acontecido a estas crianças. (lamento ser desmancha-prazeres: Não o fez e não o faz.) De facto, prosseguiu afirmando que os ingredientes da vacina podem “ser vistos como sendo responsáveis por cada um destes casos”.

 

Nanopartículas, emulsificantes, e vacinas, …credo!

É aqui que as coisas se tornam bizarras. O Dr. Palevsky fez um discurso alargado sobre a barreira hemato-encefálica, como característica estrutural dos vasos sanguíneos no cérebro e sistema nervoso central que impede que certos compostos e drogas entrem no tecido cerebral. Tendo exercitado as suas vastas capacidades de Dunning-Kruger [N.T. efeito Dunning-Kruger: em psicologia social, é um enviesamento cognitivo pelo qual indivíduos incompetentes tendem a sobrestimar a sua capacidade, enquanto indivíduos altamente competentes tendem a subestimar a sua capacidade em relação à dos outros.] lendo a literatura sobre animais, ele pontificou sobre a forma como, se se quiser introduzir uma droga no cérebro, se pode ligá-la a uma nanopartícula e, se se quiser introduzir ainda mais droga no cérebro, combina-se a droga ligada a uma nanopartícula com um emulsionante. (Os emulsionantes são compostos, como detergentes, que podem dissolver-se tanto em água como em gordura, estabilizando algo que é solúvel em gordura numa emulsão em água). Aposto que os químicos conseguem ver onde isto vai parar.

De acordo com o Dr. Palevsky, adivinhe? É exatamente assim que as vacinas são feitas! A nanopartícula é o sal de alumínio na vacina, e o emulsionante é algo como o polisorbato 80, que está em algumas vacinas. Naturalmente, isto leva o Dr. Palevsky a perguntar se isso significa que as nanopartículas e os emulsionantes nas vacinas podem contornar a barreira hemato-encefálica e levar os antigénios utilizados nas vacinas para o cérebro e explicar por que razão tantas crianças alegadamente se deterioram depois das vacinas, apesar de os médicos, os meios de comunicação social, o governo, etc., dizerem que não é a vacina. Aqueles de vós que conhecem a pseudociência da auto-imunidade de Yehuda Shoefeld verão agora onde isto vai dar.

Neste ponto, o Dr. Palevsky fez a primeira de várias afirmações irritantes de que “não existem estudos”, “Não se pode encontrar um único estudo na literatura que aborde se a injeção de alumínio no corpo penetra no cérebro, se algum ingrediente de vacina entra no cérebro, e se o polissorbato 80 melhora a entrega de algum desses ingredientes no cérebro”. É claro, ele alegou então que estes antigénios vacinais penetram no cérebro e causam inflamação.

Neste ponto, só posso dizer que o Dr. Palevsky não deve ter procurado muito, e não posso deixar de notar que o bom botão do blog Skeptical Raptor publicou recentemente uma discussão sobre este mesmo tópico, completada com uma listagem de estudos, sobre a distribuição farmacocinética do alumínio, tal como o fez um verdadeiro cientista da barreira hemato-encefálica e vosso servidor. Ele também escreveu uma desconstrução muito boa da alegação de que o polissorbato 80 decompõe a barreira hemato-encefálica, completado com uma lista de muitos estudos. Quanto aos estudos, gosto do que ele disse aqui:

Tenham em mente que o polissorbato 80 é bom para dissolver lípidos em soluções de água, mas não é bom deixar moléculas carregadas através do BBB, para o caso de alguém vir com as alegações de que ele se conjuga com o alumínio. Isto é algum nível de química de liceu.

Precisamente. Quando uma alegação contradiz o conhecimento (na melhor das hipóteses) da química 101, tudo o que faz é mostrar que a pessoa que faz a alegação é um idiota ignorante sobre a ciência por detrás da alegação. Outro erro cometido pelo Dr. Palevsky, as partículas de alumínio utilizadas como adjuvante nas vacinas não são nanopartículas. Como os cientistas da Blood Brain apontaram no seu posto, elas variam entre 2-10 μM de diâmetro, com um diâmetro médio de cerca de 3 μM. (Isto é micrómetros, não nanómetros.) É verdade, tem havido esforços para reformular as partículas de sal de alumínio como nanopartículas a fim de aumentar a imunogenicidade das vacinas, mas ainda são experimentais. Neste momento, as nanopartículas de alumínio não são utilizadas nas vacinas comercialmente disponíveis. Ainda mais importante, sendo micropartículas, as partículas de sal de alumínio nas vacinas tendem a permanecer localizadas no local da injecção. Polissorbato 80 pode formar nanopartículas, mas não da forma que o Dr. Palevsky afirma e não com alumínio, que está presente em partículas muito maiores, e, mais uma vez, já sabemos que não “quebra” a barreira hemato-encefálica para permitir que os antigénios da vacina entrem no cérebro.

Eu poderia continuar e continuar e continuar e continuar. Não é como se a distribuição de formaldeído após a injecção ou após a sua produção por metabolismo normal não fosse conhecida. A sério, o Dr. Palevsky precisa de voltar à escola para aprender um pouco de química, bioquímica e farmacologia, em particular farmacocinética e farmacodinâmica. Se o fizesse, poderia também descobrir que já conhecemos a farmacodinâmica do polissorbato 80 e do alumínio, e que as doses presentes nas vacinas são demasiado pequenas para fazer o que antivacinistas como ele afirmam.

 

Oh, não! Não há placebo salino!

Quanto menos se disser sobre esta questão, melhor, mas maldito seja se o Dr. Palevsky não passou ao lugar-comum antivacinas mais descerebrado, ignorante e fácil de refutar de todos, a artimanha do “não existem estudos aleatórios de vacinas versus placebo salino”. É um lugar-comum tão divorciado da realidade, um lugar-comum que basta uma rápida análise da PubMed para refutar, que eu realmente não quero perder muito tempo com isso a não ser para vos remeter, meus leitores, para discussões anteriores pelo Dr. Vincent Ianelli (também aqui); Helen Petousis Harris; e Skeptical Raptor. Saliento também que, ao contrário dos mitos antivacinas, de um ponto de vista científico um placebo salino nem sempre é o placebo mais apropriado, como qualquer pessoa que conceba ensaios clínicos de vacinas (isto é, não o Dr. Palevsky) sabe.

 

Oh, não! Não existem estudos de segurança!

O Dr. Palevsky é uma verdadeira fonte de reivindicações antivacina, e continuou, mergulhando em seguida na reivindicação de que não existem bons estudos de segurança de vacinas. Isto é, evidentemente, totalmente falso. Os testes de segurança das vacinas são, na realidade, muito rigorosos. Nada disso impediu o Dr. Palevsky de afirmar que os sujeitos humanos em ensaios de vacinas só são seguidos durante quatro ou cinco dias (embora ele “tenha admitido” que agora é até dez dias). Errado, errado, errado, errado, errado! Esse é outro mito antivacina. Há muitos estudos de longo prazo sobre a segurança das vacinas. O Dr. Ianelli até enumerou alguns deles para comodidade do Dr. Palevsky. Ele deveria ler este artigo. (Não, na verdade, ele deveria.) Há até um estudo que acompanhou as crianças durante 20 anos. Assim, quando o Dr. Palevsky afirmou que se o seu filho tiver um ataque 5 meses após uma vacina, não há “nenhum estudo” (esse lugar-comum idiota outra vez!) para mostrar de uma forma ou de outra se as vacinas poderiam ter causado o seu ataque, ele não está a revelar nada mais do que a sua profunda ignorância. Não, temos muitos e muitos estudos que nos dizem se um evento anos mais tarde é provável que tenha sido causado por vacinas.

Uma afirmação bizarra feita pelo Dr. Palevsky foi que as empresas farmacêuticas determinam o que será e não será considerado reacções adversas para efeitos de notificação nos ensaios clínicos. Esta alegação revela uma profunda falta de compreensão de como os ensaios clínicos são regulados e executados nos EUA. Embora seja verdade que os estudos de pré-aprovação são financiados e geridos pela empresa farmacêutica que procura licenciar a sua vacina – quem mais os financiaria? – eles são supervisionados pela FDA, que, graças aos regulamentos relativos à proteção dos sujeitos da investigação em humanos, exige que o ensaio seja aprovado e supervisionado por um conselho de revisão institucional (IRB). Os IRB são encarregados não só de garantir que a concepção do estudo seja ética, mas também de rever todos os relatórios de reacções adversas no ensaio, sejam elas quais forem. A lei exige a notificação de todas as reacções adversas. É verdade que existe uma avaliação sobre se um determinado evento adverso observado se deve ou não à vacina, mas não são apenas os investigadores ou a empresa farmacêutica que tomam essa determinação. A FDA está envolvida, tal como a IRB que supervisiona o ensaio clínico. O Dr. Palevsky fez soar como se a empresa farmacêutica pudesse simplesmente decidir qual o evento adverso que é e não é devido a uma determinada vacina num ensaio clínico.

Além disso, não sabe que muitos estudos de segurança de vacinas feitos após o período de pós-licenciamento não são levados a cabo por empresas farmacêuticas? São levados a cabo por governos, investigadores independentes e similares.

 

Oh, não! As crianças não vacinadas não podem causar surtos!

Lamento, mas esta afirmação merece uma mega irritação. O Dr. Palevsky disse no seu testemunho que não há estudos que demonstrem que os não vacinados possam iniciar uma epidemia. Primeiro, gostaria de ter podido deter o Dr. Palevsky ali mesmo e dizer-lhe que a palavra que ele procurava era “surto”, e não “epidemia”. Em epidemiologia e doença infecciosa, a palavra “epidemia”, embora muitas vezes usada indistintamente com a palavra “surto”, não significa a mesma coisa. “Surto” significa um rápido aumento do número de casos de doença infecciosa (tal como “epidemia”), mas numa área geográfica mais pequena do que “epidemia”. Mesmo assim, vou deixar passar.

Em qualquer caso, aqui vemos o Dr. Palevsky a usar a falácia do “mostre-me apenas um papel”. É também profundamente enganadora, pois muitas vezes chegamos a conclusões científicas baseadas na confluência de dados e estudos de diferentes fontes e disciplinas. É também uma parvoíce. Sabemos que a taxa de ataque de um agente patogénico durante uma epidemia é muito mais elevada entre os não vacinados do que entre os vacinados. Por exemplo, durante um surto de tosse convulsa, o risco de ser infectado com tosse convulsa é 23 vezes maior entre os não vacinados do que entre os vacinados. Para o sarampo, o risco aumentado é entre 22 e 35 vezes mais elevado. Vi mesmo um estudo que estima que os não vacinados têm uma probabilidade 200 vezes de apanhar sarampo durante um surto.

Quanto ao “não existem estudos”, é muitas vezes difícil determinar com certeza quem é o “paciente zero” em qualquer surto, e a literatura científica somente consegue identificar os candidatos mais prováveis para “paciente zero”. O que sabemos é que quando a cobertura vacinal de um determinado agente patogénico cai abaixo de um certo nível numa população, os surtos tornam-se muito mais prováveis, e o agente patogénico pode propagar-se muito mais rapidamente porque há muitos mais indivíduos susceptíveis. Sabemos que nos surtos mais recentes de sarampo nos EUA, a grande maioria dos indivíduos que sofreram de sarampo não estavam vacinados. Sabemos que no surto mais recente de sarampo entre judeus ortodoxos em Brooklyn, porque muitos não foram vacinados, um estudante infectou pelo menos 21 outras pessoas porque os pais ignoraram os avisos para não enviarem os seus filhos não vacinados à escola durante o surto.

Vezes sem conta, quando são estudados surtos de sarampo (e surtos de outras doenças infecciosas), verifica-se que a taxa de ataque nos não vacinados é muito mais elevada e que normalmente a maioria dos que adoecem não estão vacinados. Constata-se repetidamente que estes surtos começaram com um indivíduo não vacinado, regressando frequentemente após viajar para uma área onde há surtos em curso, trazendo a doença de volta e espalhando-a a outras pessoas não vacinadas.

Claro que o Dr. Palevsky alegou então que as vacinas não eliminam o agente patogénico do corpo, que os vacinados ainda podem ser portadores. Em primeiro lugar, isso não é verdade para a maioria dos agentes patogénicos; o Dr. Palevsky parece estar a referir-se principalmente à tosse convulsa, onde é controverso se as crianças vacinadas ainda podem ser portadoras assintomáticas, porque certamente não há outros exemplos de que eu tenha conhecimento. O que sabemos é que a vacina contra a tosse convulsa previne a doença e interrompe a propagação da tosse convulsa; portanto, vacinar é a coisa segura a fazer. (Sim, eu sei que a vacina diminui a imunidade, mas isso é tratado oportunamente com os impulsionadores). Por outras palavras, isto não é motivo para não vacinar e não é motivo para concluir que os não vacinados não causam e não perpetuam surtos.

Se quiser ter uma ideia de quão ignorante é o Dr. Palevsky, perto do fim do seu testemunho ele chegou mesmo a afirmar que 38% dos casos de sarampo no surto na Disneyland eram devidos ao sarampo de estirpe vacinal. Não. Este é um ponto de conversa antivacina que, como muitos outros, já foi refutado milhares de vezes, mas que simplesmente não morre.

 

Não existem estudos sobre vacinados/não vacinados!

O Dr. Palevsky adora jogar a cartada da “confusão entre correlação e causalidade” quando, mais uma vez, apregoou a retórica da “geração mais doente”, repetiu a sua desinformação afirmando que não existem estudos de vacinas individuais controlados por placebo salino, e depois afirmou que não existem estudos de resultados de saúde que comparem a saúde das crianças vacinadas com a das crianças não vacinadas. Mais uma vez, esta última alegação é um mito. Existem vários estudos deste tipo. Não, na verdade, existem. A sério, poderá o Dr. Palevsky deixar de repetir a mentira de que não existem estudos comparando os resultados de saúde em crianças vacinadas e não vacinadas quando existem? Claro, o que estes estudos mostram não é o que o Dr. Palevsky quer que você pense. Ao contrário de mostrar que as crianças não vacinadas são mais saudáveis do que as crianças vacinadas, no mínimo, mostram que as crianças vacinadas são tão saudáveis como as crianças não vacinadas, com alguns estudos a sugerirem que são em geral mais saudáveis. Evidentemente, sabemos que são mais saudáveis numa área, nomeadamente, que correm um risco muito menor de adquirir uma doença grave prevenível por vacinação.

O Dr. Palevsky desconhece claramente o fenómeno do enviesamento de confirmação. É um enviesamento ao qual todos os humanos são propensos, no qual nos lembramos de coisas que sustentam as nossas crenças e epreconceitos. Os cépticos e os cientistas tentam ter isso em conta quando examinam as provas. A maioria das pessoas, tal como o Dr. Palevsky, não o fazem, o que explica porque disse coisas como esta sobre crianças não vacinadas durante o seu testemunho:

São as crianças mais saudáveis que eu já vi.

Não, o Dr. Palevsky só pensa que os seus pacientes não vacinados são as crianças mais saudáveis que alguma vez viu, porque se lembra principalmente das que são saudáveis e a maioria das crianças na sua prática são, de qualquer forma, não vacinadas ou subvacinadas.

 

Arrogância, o teu nome é Dr. Larry Palevsky.

Mais ou menos os últimos cinco minutos do testemunho do Dr. Palevsky são verdadeiramente algo a contemplar, e não digo isso no bom sentido. A exibição de arrogância demonstrada pelo Dr. Palevsky nas suas afirmações exige ter imaginação. Por exemplo, ele salientou que as vacinas nem sempre produzem uma resposta de anticorpos e choque – que por vezes os títulos de anticorpos não se correlacionam com a imunidade, como se esta fosse uma grande descoberta que os cientistas têm escondido do público. A sério, as únicas pessoas chocadas ao saber que há pessoas que não desenvolvem uma resposta de anticorpos às vacinas e mesmo aquelas que não são imunes apesar de uma resposta de anticorpos são pessoas que não sabem nada sobre o sistema imunitário, mas que são alimentadas pelos lunáticos antivacinas. Não é como se os imunologistas não andassem a discutir e a estudar este fenómeno desde sempre, à procura de melhores correlatos de imunidade e de como tornar as vacinas mais imunogénicas. A sério, se, como fez o Dr. Palevsky, vais dizer disparates como afirmar que a vacinação pára a propagação da doença é uma suposição que nunca foi “solidificada na ciência”, vai imediatamente a um curso introdutório de imunologia e cala-te até teres passado no curso!

O Dr. Palevsky também se envolveu numa projecção espantosa, caracterizando que a atual fé nas vacinas é baseada em “crença” e “opinião” em vez de “ciência verdadeira”, acrescentando, “e as crenças vão muito longe”. Tendo ouvido o testemunho ilegítimo e enganador do Dr. Palevsky, só posso concluir que ele não reconheceria a “ciência verdadeira” se fosse um urso a mordê-lo no seu glúteo máximo. Quanto a “crenças que percorrem um longo caminho”, não brinco. Isso explica como o Dr. Palevsky pode dizer tais disparates divorciados da ciência e citar sem nomear os investigadores experiências em animais realizadas por investigadores como Christopher Shaw que não realizam nada mais do que a tortura desnecessária de ratos com tanta certeza que ele sabe do que está a falar quando alguém que conhece realmente o assunto reconhece o ignorante que ele é. (Se ele não é um ignorante, é um propagandista mentiroso. Não há uma terceira opção).

Chegou mesmo a fazer a ridícula afirmação de que, para proporcionar imunidade de rebanho, temos de ser capazes de provar que as crianças vacinadas são imunes. Eu sei o que ele estava a tentar dizer. Ele estava a tentar afirmar que, porque os títulos de anticorpos nem sempre se correlacionam com a imunidade, nunca se pode demonstrar a imunidade do rebanho. (Pelo menos acho que era a isso que ele estava a conduzir.) Adivinhe o quê? Podemos demonstrar a imunidade do rebanho pela observação de que quando uma percentagem superior a uma certa percentagem da população é vacinada contra um surto patogénico da doença causado por esse agente patogénico se torna muito menos provável. Podemos demonstrá-lo com exemplos como o surto de sarampo em Samoa, que só começou a diminuir quando a absorção de MMR passou dos 90%. O Dr. Palevsky até papagueou a mentira de Andrew Wakefield de que o vírus do sarampo está a sofrer mutações em resposta à vacina para se tornar mais virulento. Não está.

O Dr. Palevsky é ignorante. Ele está a espalhar desinformação antivacina. Também é perigoso devido ao seu estatuto de pediatra e também porque sabe como parecer e soar uma voz autorizada e convincente. Não surpreende, como mencionei anteriormente, que ele seja também um “pediatra integrador”, o que, infelizmente, acompanha a pseudociência, a má ciência, e o disparate antivacinas. Mais uma vez, direi que qualquer médico que não só utilize a charlatanice como a homeopatia, mas ponha activamente em perigo a saúde pública, não deve ser médico. É uma farsa que médicos como o Dr. Palevsky continuem a possuir licenças médicas e a tratar pacientes.

________________

O autor: David Gorski é oncologista cirúrgico no Instituto do Cancro Barbara Ann Karmanos, especializado em cirurgia do cancro da mama, onde também é Director Médico do Centro Integral de Mama Alexander J. Walt, Professor de Cirurgia e Oncologia na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Wayne, e professor do Programa de Pós-Graduação em Biologia do Cancro. Um investigador cujos principais interesses de investigação incluem o papel dos receptores de glutamato na promoção do crescimento e metástase do cancro da mama, o Dr. Gorski também dirige um laboratório de investigação activo e recentemente interessou-se activamente pelos problemas de sobre-diagnóstico e sobretratamento do cancro da mama. A sua investigação foi financiada pelo NIH, o Departamento de Defesa, a Fundação Conquer Cancer da ASCO, e outros, e foi publicada em revistas de prestígio como a Cancer Research, Clinical Cancer Research, Blood, Nature Reviews Cancer, e Nature. Além disso, foi co-director da Michigan Breast Oncology Quality Initiative (MiBOQI), um consórcio de qualidade a nível estadual dedicado a melhorar o tratamento de pacientes com cancro da mama no Michigan.

O Dr. Gorski interessou-se pela pseudociência e medicina “alternativa” por volta do ano 2000, quando, por acaso, entrou no grupo de notícias misc.health.alternative da Usenet e começou a examinar criticamente as reivindicações aí existentes.

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply