CARTA DE BRAGA – “cromos e rios” por António Oliveira

Só mudam os cromos!

É verdade e, para o confirmar, sirvo-me de um excelente texto de António Guerreiro no ‘Público’, criticando o abuso de notícias repetindo as do dia anterior, iguais às da semana passada e encadeadas nas do mês anterior, ‘Todos os dias, o empenho destes jornalistas em nos fazer imergir na peça que eles interpretam em vários andamentos (perigo, desastre, tragédia, apocalipse) deixa-nos obtusos, anestesiados, irritados ou aterrorizados de acordo com a nossa permeabilidade e <literacia mediática>’.

A única diferença é a cara dos apresentadores dos diferentes canais, por competirem, cada um a seu modo, na dramatização dos conteúdos das notícias, não sabendo explicar se por convicção, se por coerção ou funcionalismo pragmático. Haja quem me possa responder com acerto e verdade! Notícias que, além dos diferentes covid’s, raramente vão além do futebol e do espectáculo mais as suas vedetas, dos mercados e do social mais a ‘história da senhora que caiu ao poço’, por serem ajuntadoras de audiências, o motivo principal de todas as publicações.

Aliás, tudo isto se vem a juntar à perda de importância do jornalismo tradicional (tenho sérias dúvidas em usar aqui o termo clássico), tanto na televisão, como nos jornais e revistas, desde que a net lhes ganhou o lugar, tanto pelo consumidor ‘armado’ de telemóvel, como pela velocidade que transforma qualquer um em actor, jornalista, correspondente, testemunha, o que quer que seja, de maneira a que possa aparecer, desde que interesse ao respectivo editor.

Para Boaventura Sousa Santos, numa entrevista dada a passada semana à Antena 2, referindo como a comunicação social em Portugal (até a televisão publica!), está a prestar um mau serviço, pois a questão é a desigualdade económica e social, forçada pela ideologia predominante, o que faz e como se apresenta; leva ao aparecimento de uma ‘Nova geração, a do entrevistador/inquisidor, que parece ser ele o entrevistado e não deixa quem é entrevistado expor as sua ideias de uma maneira coerente. Parece uma guerra, uma batalha, pode ser muito útil para as audiências, mas é uma das lições a mostrar que os meios de comunicação não estão à altura deste momento’.

E com o quase desaparecimento do jornalismo tradicional, também se foi diluindo o espírito crítico, pois quanto maior é essa perda, mais ‘lixo’ se vai dando, porque as empresas (todas!) lucram, como se pode verificar pelos ‘manhas’ de todas as manhãs, perdendo o jornalismo e perdendo o público em geral.

Esta deriva, ainda de acordo com Boaventura Sousa Santos, ‘Tem na base, o aumento das desigualdades sociais e a destruição dos serviços públicos; há muito silêncio, faz-se muito crime em silêncio’ ao mesmo tempo que, por outro lado, ‘Dramatizam e exploram incidentes menores para os transformar em casos políticos, num quanto pior melhor, pois quanto mais atraem audiência, transformam tudo num facto extremamente perigoso numa situação de pandemia; e devo dizer que deixei de ver televisão com a assiduidade que costumava’.

Uma descrição que leva a recordar a máxima de Barry Goldwater, o senador republicano pelo Arizona, que perdeu as eleições contra Lyndon Johnson, agora lembrado pelos ultras do assalto ao Capitólio, ‘Privatiza os serviços públicos, faz da política um negócio, não tenhas nenhum escrúpulo, mas, acima de tudo, não o digas. É o teu segredo’.

As desigualdades económicas e sociais são sempre apresentadas pelas ideologias predominantes, sociais, políticas e religiosas, como características e inerentes à condição humana, pelo seu temperamento naturalmente competitivo. A noção de cidadania, de igualdade perante a lei e frente às oportunidades, chegou arrastada pelo iluminismo e pelo liberalismo; foi o ponto de partida para as diferentes noções e ideologias, sobre a organização da sociedade e sobre a responsabilidade individual.

Mas vemos, como a alienação e a despreocupação crescentes com tudo isto, vão arrebanhando público em toda a parte pois, afirma  o filósofo Ramón Avillón, ‘Eu e o meu umbigo, além de ser muito pesado, afasta-me dos outros’ e Edward Bernays considerado o Pai das Relações Públicas, salienta este aspecto na sua obra maior ‘Crystallizing Public Opinion’, ‘A mente do grupo não pensa, no sentido estricto da palavra. Em vez de pensamentos tem impulsos, hábitos e emoções. Na hora da decisão, o primeiro impulso é, normalmente, seguir o exemplo do líder em que confia’.

Uma posição reforçada por Michel Sandel, catedrático de filosofia em Harvard, ‘As plataformas digitais e as redes sociais apropriam-se hoje da nossa atenção – uma capacidade limitada – para a converter em benefícios próprios. Já proibi o uso do telemóvel nas minhas aulas e, na medida do possível, no meu âmbito académico’.

Para o filósofo esloveno Slavjoy Zizek, a solução seria uma ‘Creio que a dignidade é a resposta popular ao cinismo aberto dos que estão no poder’.

Mas conseguir isso é tão difícil como responder a esta questão ‘Somos capazes de chegar a Marte, mas não de cuidar dos rios que temos ao lado’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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