Crise Financeira no Horizonte. Parte I – Rebentam as primeiras bombas que sinalizam a vinda da próxima crise: 3. Um olhar crítico sobre os mercados financeiros – 3.2. Parem o jogo – quero sair ! Por Michael Roberts

Logo tipo de WallStreetBets, um sítio subreddit, área de interesse criada pelos utilizadores onde são organizadas discussões na Reddit, um site de agregação de notícias sociais, classificação de conteúdos web e de discussão.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte I – Rebentam as primeiras bombas que sinalizam a vinda da próxima crise

 

3. Um olhar crítico sobre os mercados financeiros

3.2. Parem o jogo – quero sair !

 Por Michael Roberts

Publicado por TheNextRecession em 28/01/2021 (original aqui)

 

A “cobertura” costumava ser uma forma de reduzir o risco de venda ou compra. Os agricultores que aguardam a chegada da sua colheita não sabem ao certo qual o preço por alqueire que irão obter no mercado: irão obter um preço que lhes dê lucro e um modo de vida para o próximo ano ou irão ficar na pobreza ? Para reduzir esse risco, as empresas de cobertura de risco oferecem-se para comprar a colheita antecipadamente a um preço fixo. Ao agricultor é garantido um preço e um rendimento qualquer que seja o preço por alqueire no momento de ir para o mercado. O fundo de cobertura assume o risco de poder ter lucro ao comprar a colheita a um preço inferior ao preço final de mercado. Desta forma, a “cobertura” pode suavizar a volatilidade dos preços, muitas vezes muito elevada nos sectores agrícola e mineral.

Mas nos mercados financeiros, a cobertura e os fundos de cobertura assumem uma função totalmente nova. Tornou-se um jogo, com milhares de milhões de dinheiro de outras pessoas posto em jogo, transformando o mercado de bens e serviços num casino para apostas financeiras. No meu texto anterior, expliquei como aquilo a que Marx e Engels chamavam “capital fictício” (ações e obrigações) e o seu suposto valor tinha pouca relação com o valor real dos lucros e ativos subjacentes das empresas.

A cobertura financeira afasta-se ainda mais dos valores reais, uma vez que os fundos de cobertura não se limitam a comprar ou vender ações em vez de investir em capital produtivo. Agora apostam para que lado irá o preço de qualquer ação. Na “venda a descoberto”, um fundo de cobertura toma de empréstimo ações de uma empresa a outros investidores (por uma comissão) e vende as ações no mercado a, por exemplo, 10 dólares cada. Depois espera até que estas ações caiam para $5 e depois compra-as de volta. As ações compradas a 5 dólares são devolvidas ao proprietário que lhe emprestou as ações vendidas e o fundo de cobertura embolsa a diferença e este é o seu lucro.

Longe de suavizar as alterações de preços, ao apostar em preços que caem ou sobem, os fundos especulativos prosperam efetivamente com o aumento da volatilidade. O nome do jogo é “Going long”[ ou seja, comprar para que subam} para fazer subir o preço e “going short” [ ou seja vender para que desçam]. E, ao fazê-lo, os “vendedores a descoberto” podem de facto levar as empresas à falência, com a perda de empregos e rendimentos para milhares de pessoas.

No ano do COVID, à medida que a “economia real” entrava em colapso, aqueles que tinham dinheiro de sobra e procuravam um retorno (bancos, fundos de pensões, indivíduos ricos) investiram fortemente na bolsa, utilizando frequentemente dinheiro emprestado (a taxas de juro quase nulas). E estes grandes investidores investiram muito do seu dinheiro em fundos de cobertura e olham para estas chamadas “pessoas inteligentes” para que possam fazê-los ganhar dinheiro.  E eles têm-no feito, em grande quantidade.

Mas também no ano da COVID, houve milhões de pessoas que trabalharam em casa ou foram sujeitas a regime de suspensão temporária do trabalho e com poupanças que não poderiam gastar por causa dos confinamentos e ao facto de nem poderem sequer viajar. Por isto as pessoas ligaram-se através de redes sociais como a Reddit para apostar na bolsa de valores.

Estes pequenos investidores começaram recentemente a combinar e a acumular algum poder de fogo e a enfrentar as grandes instituições nas suas próprias salas de jogo. Desde o início do ano, um grupo de operadores amadores em operações de bolsa, organizados na Reddit, tem vindo a jogar no mercado contra grandes fundos de cobertura de risco, que tinham vendido a descoberto, em operações de curto prazo, títulos da GameStop: um retalhista de jogos de vídeo com sede nos EUA. Esta empresa tinha sofrido muito durante o ano da COVID e previa-se que fosse à falência. Os fundos de cobertura amontoaram-se para “jogar a descoberto” contra estas ações [ e encurtar o intervalo de tempo para esta empresa ir à falência].

Mas os pequenos operadores amadores sobre operações em bolsa fizeram o contrário e utilizaram o seu poder de fogo para aumentar o preço das ações, obrigando os fundos de cobertura, apoiados pelos grandes bancos e instituições, a comprar de volta as ações a preços mais elevados à medida que o tempo se esgotava para as suas apostas “em posições curtas” (são contratos a prazo fixo). Como resultado, vários fundos especulativos “curtos” sofreram uma enorme perda (13 mil milhões de dólares) e um fundo teve de ser resgatado pelos seus investidores pela quantia de 2,75 mil milhões de dólares.

Wall Street está furiosa. Os pequenos investidores “manipularam” o mercado, dizem eles aos gritos de raiva, ameaçando o valor dos seus fundos de pensões e pondo os bancos em apuros. Isto é um disparate, é claro. O que realmente mostra é que os mercados financeiros são “manipulados” pelos grandes e são os pequenos investidores que são normalmente os que são “aldrabados” e enganados nesta enorme sala de jogo. Como disse Marx, o sistema financeiro “desenvolve o móbil da produção capitalista“, nomeadamente “o enriquecimento pela exploração da mão-de-obra alheia, no mais puro e colossal sistema de jogo e de burla e restringe ainda mais o já pequeno número de exploradores da riqueza social” (Marx 1981: 572).

Claro que, na batalha atual, o pequeno investidor acabará por ficar a perder. O regulador do estado de Massachusetts William Galvin já apelou à Bolsa de Nova Iorque para suspender a GameStop por 30 dias a fim de permitir um período de reflexão. “Isto não é investir, isto é jogar“, disse ele. Não há problema! E já os pequenos investidores estão a assistir a um aumento dos encargos e dos limites das suas transações por parte dos corretores e criadores de mercado (os proprietários dos casinos de jogo ) para os dissuadir de negociar. E fala-se em ‘regular’ o mercado para impedir que os investidores ‘se agrupem’ nas instituições ‘legítimas’ de Wall Street. O preço do GameStop está agora a cair.

Para as pessoas trabalhadoras, todas estas manobras podem parecer irrelevantes. Afinal de contas, a maioria dos agregados familiares trabalhadores têm poucas ou nenhumas ações. As pessoas que constituem os 1% de topo das famílias possuía 53% da riqueza bolsista dos EUA, com os 10% de topo a possuir 93%. Os 90% inferiores detêm apenas 7%. No entanto, as pensões dos trabalhadores e as contas de reforma (se os trabalhadores as tiverem) são investidas por gestores de fundos de pensões privados em ativos financeiros (após dedução de comissões muito boas). Assim, as poupanças dos trabalhadores domésticos são vulneráveis às atividades de jogo dos vigaristas no casino financeiro – como mostrou o crash financeiro global de 2007-8.

O que esta pequena história do GameStop mostra é que a empresa e os fundos de pensões pessoais geridos pelas “pessoas inteligentes” são realmente um roubo para as pessoas que trabalham. O que é necessário são pensões financiadas pelo Estado e não sujeitas à volatilidade do jogo financeiro. Os grandes fundos de cobertura foram queimados nesta última escaramuça por alguns pequenos investidores e eles querem atirar estes “pilecas” destes jogadores amadores para fora do jogo. O que os trabalhadores devem querer é acabar completamente com este jogo.

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O autor: Michael Roberts [1938-], economista britânico marxista. Trabalhou durante mais de 30 anos como analista económico na City de Londres. É editor do blog The next recession. Publicou, entre outros ensaios, Marx200: a Review of Marx’s economics 200 years after his birth (2018), The long Depression: Marxism and The Global Crisis of Capitalism (2016), The Great recession: a Marxist view (2009).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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