A Universidade em declínio a Alta Frequência: depois de Bolonha, o Covid e o ensino com as suas avaliações à distância acentuam fortemente a degradação da Universidade – Troca de correspondência.

 

N.E.: Pelo seu interesse em relação ao tema em causa, e com autorização dos autores, publicamos troca de correspondência entre Paulo Peixoto e Júlio Mota, entre Júlio Mota e LM e entre Júlio Mota e MCR, a propósito dos textos de Júlio Marques Mota, recentemente aqui publicados, “A Universidade em declínio a Alta Frequência: depois de Bolonha, o Covid e o ensino com as suas avaliações à distância acentuam fortemente a degradação da Universidade – Reflexões em torno de uma reportagem do jornal Público sobre as Universidades” (ver aqui) e “A Universidade em declínio a Alta Frequência: depois de Bolonha, o Covid e o ensino com as suas avaliações à distância acentuam fortemente a degradação da Universidade – Entre as minhas memórias de uma outra Universidade e a decadência da Universidade sob Bolonha” (ver aqui e aqui).

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Troca de correspondência

 

Meu caro Paulo Peixoto

Discordei das tuas afirmações à volta da pandemia, do ensino à distância e da sua avaliação. Nenhum adjetivo de paranoico caberia ali. Esta é a minha opinião e nesse sentido publiquei dois textos, manifestando essa discordância. Tomo pois a liberdade de te os enviar, sublinhando, o que faço num dos textos, que isto nada tem de pessoal, mas sim de óticas diferentes de ver a realidade e sobre gentes que com muitas dificuldades procuraram fazer um trabalho sério e que na minha opinião tu acusas de paranoicas.

Contactei professores de diversas faculdades, de Coimbra, Porto, Lisboa e Braga, e todos me levam a pensar que a continuarmos, como o estamos a fazer, na linha da tua ótica, não iremos longe. A realidade que todos eles me transmitiram é a mesma a que Bebiano se refere no seu blog.

Um abraço.

JMota

Em 10/03/2021

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Caro Júlio Mota

Agradeço a tua mensagem e folgo em saber (a avaliar pelos textos) que te encontras em boa forma.

Li os textos que enviaste. Agradeço, sobretudo, as recomendações.

Como sabes, gosto sempre muito mais das discordâncias honestas e sustentadas que das falsas concordâncias.

Concordo com muitas das coisas que escreves. O meu ponto de partida é que esta situação das avaliações remotas, quanto mais o tempo passa, faz com que os professores que em contexto presencial já eram desconfiados fiquem ainda mais desconfiados; e que os estudantes que já eram oportunistas se tornem ainda mais oportunistas. A fraude não nasceu agora. O que nasceu agora foram novos meios de a tentar combater e de a praticar. Isso, meu caro amigo, está a gerar uma situação que vai deixar marcas profundas e nefastas na relação pedagógica, ela própria, como bem dizes, já passada para segundo plano em detrimento do publicar (para os professores) e do passar (para os estudantes).

Admito que os professores, neste contexto, precisem também de um provedor. Mas precisam, certamente, de algo mais importante. Num ensino superior deixado à deriva pela tutela todos saímos a perder.

Deixo-te um forte abraço e a manifestação da minha amizade sincera.

pp

PS. (Vou agora ali ao corredor, porque trabalho no mesmo edifício desses serviços) para te enviar uma foto das fantásticas edições em Braille que são feitas para os estudantes invisuais. A questão dos estudantes africanos que referes (mas temos muito outros de outras nacionalidades) é de facto um drama muito agravado pela pandemia. Daria uma longa discussão. Conheces, certamente, o trabalho que o Fundo Solidário do IJP tem feito para tentar minorar esse drama.

Em 11/03/2021

 

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Meu caro Paulo Peixoto

Concordo com o que dizes mas quanto ao provedor para docentes repara: houve um esforço enorme, enormíssimo, de muita gente neste processo e que para isso teve nesta frase necessariamente de abdicar do publicar, publicar e esta lógica de publicar, publicar é uma lógica Terrível, claramente geradora de um empobrecimento cultural enorme pela parte dos docentes. Digam-me o que disserem. Por exemplo, terão eles tempo sequer para usufruírem do prazer de ler um livro de poesia? Mais, terão eles agora sequer apetência para tal? Falo em termos de grandes números e não de casos singulares. O problema não estará na existência ou não de um provedor do professor, que no atual contexto até seria muito útil, basta ver o grave problema dos docentes quanto à mudança de escalão, mas sim num sistema que bloqueia tanto a criatividade essencial num ensino universitário que se preze como a própria capacidade “dadivosa” de muitos docentes. A qualidade não é quantificável, portanto, é de valor nulo e esta é a regra hoje.

Mas nota: essa realidade do enorme esforço feito mas não reconhecido com o ensino e avaliação à distância deu-se a todos os níveis de ensino e isso deve ser dito… e deve ser reconhecido. E as tuas palavras ao Público não davam a entender nada disso. Antes pelo contrário, corria-se o risco de serem tomadas como um ataque aos professores que decentemente tentaram salvar o barco. E foi esse detalhe que me fez escrever estes dois textos. E gostei de o fazer. Eu ainda esperei que houvesse alguma correção tua mas não a vi.

Quanto à corrupção nas avaliações, há que reconhecer que esta foi grave, muito grave, embora houvesse possibilidades para reduzir a sua dimensão, mas isso tinha custos imediatos que na lógica da contabilidade, a única que o sistema reconhece, eram custos que ninguém quis assumir. Pensemos só nisto: em cursos de 3 anos qual é a importância que esta perda de formação traduz com ano e meio de lecionação e de avaliação a ter funcionado nestes moldes? Qual é o efeito de repercussão sobre a formação restante? Ninguém pensa nisso, o reitor claramente que não, só sabe pensar em números como se viu com a sua intervenção na sessão de entrega do prémio a José Tolentino de Mendonça. A partir daí ninguém pensa sobre o assunto. É assunto encerrado.

Temos ambos razão em considerar que a fraude vem de longe e não é menos verdade também que a fraude mais grave não terá sido a da avaliação à distância, é a outra, é a das teses de mestrado e doutoramento assim como dos relatórios de estágio, que talvez sejam pagos à página. Rumores existem e tudo indica que podem ser tomados como credíveis. Ao contrário dos mercados em que se deve transformar os rumores em factos, essa é a base da especulação, aqui tudo leva a considerar que a prática tem sido a de abafar estes rumores.

Neste campo só há uma solução e aqui esbarramos na lógica do publicar… publicar. A solução é acompanhamento, acompanhamento, e com reuniões ao longo da elaboração das teses entre orientadores de teses e alunos, mas isso dá trabalho, muito trabalho, muitas horas exigidas aos orientadores e é contraditório com a massa de teses que se fazem e com a obrigação de publicar, publicar. O que o sistema obriga então é que se fique calado. Ponto final na questão. E este problema penso ser muito mais extenso ao nível das teses de mestrado. Desse ponto de vista, o que se está a passar pode ser considerado de loucos. E o silêncio continua a reinar.

Uma análise a sério sobre o atual sistema de ensino superior levar-me-ia a dizer que para mudar o panorama atual, com ou sem Covid 19, só há uma solução: modificar o sistema. Enquanto assim não for, por mais sério que se seja como será esse o teu caso, creio eu que só se pode remendar buracos, e às vezes com pano de muito má qualidade. Isso faz-me lembrar o que dizia muito recentemente um analista do mercado de trabalho americano, Jacob Silverman, com um artigo de título emblemático: “Rasguemos o atual sistema de apoio ao desemprego e recomecemos de novo Um ano de desemprego em massa revelou as falhas de um sistema cruelmente concebido e gerido pelas administrações estaduais. Podemos construir algo melhor”. O mesmo sugiro para o sistema de ensino superior em Portugal.

Folgo com o que dizes sobre Braille, mas não recebi nenhuma ilustração do que se faz atualmente na reitoria. O que falei sobre o Hermínio foi mesmo assim. Deveu-se ao seu trabalho e inteligência, ao extraordinário apoio familiar e também a mim, acrescente-se. Quanto é que isso vale em termos de avaliação de docentes??!!! Eu respondo, não vale nada. Saúdo neste caso que o serviço de apoio em Braille esteja atualmente a funcionar, mas então que funcione em estreita colaboração com os docentes que têm sob a sua responsabilidade alunos que precisam destes serviços de apoio e que na métrica da reitoria (com r minúsculo) isso seja tido em conta. Um sistema não pode funcionar apenas na base da capacidade “dadivosa” de alguns dos seus elementos.

E se o nosso acordo é extenso, como tudo leva a crer, este meu comentário também começa a pecar pela sua extensão, pelo que ficamos por aqui.

Um abraço,

JMota

Em 11/03/2021

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Meu caro Júlio Mota

(…)

Li com muito, muito interesse esta sua reflexão sobre a fraude da avaliação à distância e a fraude de Bolonha e o sistema Erasmus.

Claro que a emoção tem importância na construção do conhecimento. Não fora ela em relação a este tema que lhe é caro, não haveria móbil para o pensamento e escrita. (tem graça que esse tema foi abordado no mestrado que estou a seguir na Universidade Aberta).

Quanto ao tema do sistema educativo na Bélgica….tive de rir… é um bico de obra! E os Países Baixos não devem ser melhor. Safa-se quem tiver dinheiro para fugir à mediocridade. A compartimentação (verzuiling) da sociedade belga e neerlandesa em silos, e também do ensino, pelas diversas áreas de influência religiosa-política, administrativa, linguística, regional, federal leva a um ensino fragmentado, elitista, onde a luta pela entrada nas melhores escolas primárias e secundárias é determinante para o futuro da vida das pessoas. A maioria dos alunos (sobretudo de origem estrangeira) é empurrada, aos 14 anos, para o ensino profissionalizante e aos 16 anos, para o ensino técnico. Ao contrário do que acontece em França, são poucos os jovens lusodescendentes da Bélgica que entram na Universidade.

A DGES [Direção-Geral do Ensino Superior] não compreendia, até há pouco, a razão pela qual, durante anos e anos, nem um jovem lusodescendente da Bélgica conseguia entrar na universidade portuguesa (excluindo os filhos dos funcionários europeus que fazem a Schuola Europea)… Aqui na Federação das Associações Portuguesas da Bélgica recebemos a visita do SE Sobrinho Teixeira e da Diretora-Geral da DGES em janeiro de 2019 e explicámos-lhes as especificidades do sistema belga, que os exames não são centralizados, que a autonomia das escolas permite-lhes adaptar os programas recomendados pelo sistema federal, que os alunos devem guardar os seus cadernos para que no caso de haver inspeção se possa verificar se os conteúdos foram dados…

Quanto ao tema da incompetência dos profissionais que entram para o mercado de trabalho: o seu interlocutor, especialista de oncologia, alertava para o desastre futuro das competências dos profissionais de saúde… bom veja-se o caso da covid19: muitas, muitas das primeiras mortes em ambiente hospitalar aqui na Bélgica (e em toda a Europa) se deveram à falta de enfermeiros e médicos, e ao recurso aos estudantes de último ano. Esta informação é transmitida à boca pequena. Ninguém tem coragem, ainda, de colocar este factor em cima da mesa, ainda que a Comissária grega responsável pela saúde tenha dito algures: “muitas infeções, muitas hospitalizações. Muitas hospitalizações, muitas mortes” .

Sou atrevida e não vejo televisão: atrevo-me a dizer que não foi o vírus que matou assim tanta gente.

O que matou foi, para além dos lares de idosos, a falta da recursos nos hospitais, o pânico nos hospitais e as bactérias-super resistentes dos hospitais, e os erros.

Hoje em dia, aos doentes que se queixam de covid’19, os médicos belgas receitam dafalgan e bronco-dilatadores e recomendam que as pessoas curem a forte gripe em casa. Tenho vários casos desses à minha volta, de pacientes vulneráveis e idosos.

Termino perguntando se a sua reflexão é pública, se será publicada no blogue e se eu poderia partilhar com duas pessoas portuguesas, voluntárias associativas aqui, que estão ligadas ao ensino. Fazia-lhes bem ler o seu texto.

LM

Em 12/03/2021

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Caro Prof. Júlio Mota,

Que bom continuar a ter notícias suas e a poder ler os seus escritos. Andamos tão alienados de trabalho, e o ensino à distância é tão cansativo e exigente, que nos falta tempo para tantas coisas essenciais, como responder ou comentar algumas leituras.

A história que o professor conta tem mais de 40 anos. E vai-se rir e surpreender com outras histórias atrás desta. De facto, eu fazia grupo de trabalho com o Pedro, a Lisete da univ. do Algarve e por vezes a Graça, do ISEG. Mas penso que nesse trabalho de economia internacional a Graça não entrou. Antes da defesa oral do trabalho eu “adoeci”. Estava prostrada, pensava que tinha gripe, e disse à Lisete que tínhamos que adiar a oral, mas ela respondeu que pedisse ao Pedro, que era o “chefe” do grupo (…). Quando ele na véspera do exame passou por minha casa, morávamos em ruas próximas, junto ao Largo da Cruz de Celas, eu disse-lhe que estava doente, tínhamos que adiar a prova, se não ia reprovar. O Pedro fez-me umas perguntas da matéria, disse que eu sabia e não íamos adiar a oral. No outro dia lá fui eu para a prova com uma caixa de comprimidos no bolso do casaco, e com medo de um certo tipo de perguntas do Prof. Júlio Mota. Isto é, o Professor tanto era muito bom na problematização teórica e crítica das questões de economia internacional, que eu gostava e tinha à vontade, como também nos modelos e formalização, de que eu tinha receio de me mandar ao quadro explicitar. Normalmente era o Pedro que fazia essas partes mais técnicas no trabalho e eu fazia desde introduções, desenvolvimentos e problematizações, conclusões, até porque sempre gostei de escrever. Há uns tempos a arrumar trabalhos da licenciatura, escritos à mão, até fiquei surpreendida com os conteúdos já desenvolvidos há tantos anos.

Chegada ao exame, tive sorte. Penso que o professor começou por mim, lançando-me uma pergunta de reflexão crítica global, de que eu gostava e me sentia à vontade a responder, ao ponto de me dizer que chegava e estava satisfeito, não precisava de me questionar mais. Estava salva das equações e formalizações do trabalho. Depois lembro-me de que sobraram para o Pedro essas questões “difíceis”, e já nem tenho presente o que coube à Lisete. Quando saí do exame oral, nunca mais me lembrei da doença e dos comprimidos. Como aluna, é a única lembrança que tenho de uma situação de “ansiedade” e vergonha de fazer má figura, me ter deixado aparentemente doente. Mas foi uma muito boa disciplina, e foi aí que conheci como assistente a Antonina Lima, do ISEG, que já partiu e de quem guardo também boas recordações e de quem mais tarde fiquei amiga.

De facto, as coisas mudaram muito na Universidade, e o seu artigo levanta muitas questões importantes, problemáticas e atuais que darão para muitos comentários. O modelo anglo-saxónico influencia muito hoje a universidade. Os estudantes são “clientes” que pagam e a quem é preciso satisfazer. Todo o tempo são-lhes feitos inquéritos para saber se estão satisfeitos, para ver as possíveis “falhas” das aulas e dos professores, e não perguntam a estes como estão, que medidas ou sugestões têm a apresentar, etc., nomeadamente neste tempo de pandemia onde as exigências técnicas e pedagógicas aumentaram e as condições de trabalho e de saúde, físicas ou psicológicas, nem sempre são as melhores.

Mas estou convencida que os tempos que correm vão fazer novamente voltar ao de cima, o caráter social, ético e político da economia. Eu nunca fui uma economista “pura”, e antes de escolher economia tive hesitações por outras ciências sociais, mas depois de ter lido publicações de François Perroux e de Pierre Salama, que uma pessoa amiga me emprestou, pensei que se estas eram preocupações de economia política, então gostava de escolher este curso. Também tive sorte em entrar na escola aberta e multidisciplinar criada pelo Boaventura, homenagem lhe seja feita, pois deu os seus frutos. O que aprendi e as competências que desenvolvi permitiram-me logo a seguir à licenciatura, em 1980, responder aos concursos que vi no Diário da República para duas universidades que não conhecia: a do Porto (só conhecia o Prof. Armando de Castro dos livros de História) e no ISEG onde só conhecia o prof. Simões Lopes do Desenvolvimento Regional, e ter sido aprovada nos dois. Dois anos mais tarde, com 23 anos, estava a fazer o mestrado (e a seguir o doutoramento) na Universidade de Paris I, Sorbonne, numa perspetiva multidisciplinar, Economia dos Recursos Humanos, naquela época do mais inovador que se fazia na Europa, à volta do grande humanista e resistente Henri Bartoli, mas também de outros grandes, ainda vivos: Jacques Freyssinet, Bernard Gazier, Xavier Greffe, Michel Vernières, Edith Archambault, François Michon, …

Os nossos alunos não sabem o que era nesse tempo o acesso e a procura do conhecimento. Para descobrir o mestrado que frequentei dirigi-me no Porto ao Instituto Francês para pedir as direções de universidades em Paris, para escrever e conhecer os programas de pós-graduação e as condições de inscrição. Nunca tinha posto os pés no estrangeiro, nem conhecia lá ninguém.

Este parêntese como jovem estudante à procura de saber, e cheia de energia e de sonhos, serve para concluir que acredito que as mudanças também possam vir dos nossos jovens “não formatados” e pela sociedade envolvente. Por isso, sigo o caminho em que acredito, independente de interesses e poderes, orientando muita gente de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, e cooperando internacionalmente com perspetivas mais alargadas e abertas.

Há muitas formas de resistir e lutar por um mundo melhor. E os seus textos são exemplo disso mesmo. Não perdeu a inteligência, a crítica e a energia. Parabéns.

Eu não tenho muitos contactos com a FEUC. Parece um paradoxo (dada a minha linha de orientação e por vezes ainda ouvir “a Conceição é da escola de Coimbra”), mas com exceção dos debates para que me convidou no quadro da economia internacional, não tenho sido solicitada para outras iniciativas.

O estado da Universidade dará para muitas interrogações e desenvolvimentos. Ao ponto da própria carreira universitária estar desvalorizada e desacreditada, os docentes desmoralizados, os critérios de promoção injustos e distanciados de uma verdadeira valorização das competências e exigências do trabalho de um professor universitário. É valorizado quem publica nas revistas x e y, mesmo que o conteúdo diga pouco; a qualidade do que se ensina, a importância de formar cidadãos com sentido crítico e conscientes da realidade, considerado de menor importância. O resultado está à vista, nomeadamente dos docentes a procurarem reformar-se o mais rápido possível e logo que atingem o direito a fazê-lo. Como se pode trabalhar com a alegria, a motivação e a dedicação que a carreira académica exige, se mesmo que o professor tenha trabalhado toda a vida profissional cumprindo com empenho e competência as tarefas e exigências inerentes à profissão, acaba por reformar-se, no final de dezenas de anos de trabalho, da mesma forma como entrou, sem qualquer promoção? Os nossos colegas de diferentes países e continentes têm dificuldade em compreender tal situação, motivo quase de chacota, por tão absurda e incrédula lhes parece esta “situação à portuguesa”.

Muita saúde, muita energia e as melhores saudações para o verdadeiro professor que sempre foi e para o cidadão ativo que continua a ser.

MCR

Em 13/03/2021

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Minha amiga MCR

Na sequência do meu texto e da sua resposta deixe-me esclarecer uma frase meio perdida que escrevi em torno dos mestrados.

(…) E eu dou-lhe um exemplo pequeno a que me referi implicitamente quando falei da situação de loucos nos mestrados. Veja-se: os alunos mal sabem escrever e não se ralam com isso. Mas não os pode chumbar porque se assim acontece é o orientador que também está a ser chumbado.

Um exemplo limite ocorrido em Medicina Dentária neste país que me contaram no ano passado. O aluno apresenta a sua tese de Mestrado ao orientador para aceitação. Depois de uma leitura, que suponho atenta, mas esta é uma outra questão dado o elevado número de teses, o orientador chama o aluno e diz-lhe que a tese tem substância mas não pode ser aceite naquelas condições de escrita! Reescreva-a e depois se vê. O aluno em questão dirige-se depois a um “revisor” e conta-lhe o acontecido, acrescentando: já li a tese mais duas vezes e não consigo ver onde é que isto está mal escrito! Pergunta o preço do trabalho de revisão e reescrita e o valor pedido é aceite. A tese é reescrita, o aluno foi aprovado. É este tipo de gente que se produz agora com a massificação do ensino. Ninguém tem tempo para nada, nem os alunos têm tempo para aprender mesmo quando o querem.

Mas mais ainda: dada a pobreza da sua formação, muitas vezes os alunos chegam-nos ao gabinete a pedirem para serem orientados mas sem tema, sem nenhuma noção clara do que poderão estar interessados em estudar!!! É lógico, para ser de outra maneira seria necessário ter uma outra preparação de base como final de licenciatura e nem o ensino está atualmente preparado para a fornecer e, mesmo que o estivesse, não têm os estudantes tempo para a receber. E imagine-se então o professor a transformar-se também numa máquina de produzir temas! Como? Para o fazer, quantos artigos e livros tem o professor que ler para ter bagagem para tal? E quanto é que essa bagagem vale se tudo agora é medido no rating do docente não pelo que faz mas pelo que ele publica? Eu respondo: nada.

Por contraponto, dou-lhe um exemplo de outros tempos: uma das melhores teses de mestrado que orientei foi de uma aluna de Viseu, (Ana Isabel Poças). Chegou ao meu gabinete com o objetivo de saber se aceitaria orientá-la em tese de mestrado. Falou-se genericamente de temas de tese e conhecendo a sua qualidade encurtei o caminho. Aceitei-a. Pessoalmente, tinha acabado de ler, PAGO com o dinheiro do meu bolso, um livro de John Michie e John Grieve Smith, MANAGING THE GLOBAL ECONOMY. O livro era uma coletânea de artigos de diversos autores e disse-lhe: neste livro e num destes três artigos indicados encontrará dois pontos que lhe darão, cada um deles, inspiração para um tema de tese e de acordo com as matérias de que gosta. Tem-se a vantagem de que em cada um deles têm selecionada a bibliografia de base por onde pode partir. Leia-os e descubra-os. Rapidamente leu o livro todo, não apenas os três artigos indicados, e detetou logo no interior de um deles os pontos que eu tinha em mente. E fez uma tese muito boa, direi mesmo brilhante para uma tese de mestrado. Hoje não seria assim, nem da parte dela nem da minha, pois ela licenciada hoje seguramente não teria a mesma base sólida de então e eu já nem sequer teria o ritmo de leitura capaz de selecionar temas não repetidos e não corriqueiros que tivessem substância para serem considerados ótimas referências para teses. E quanto valia isso, essa formação imaterial e cara em dinheiro, em sacrifícios pessoais e em tempo, nos ratings dos nossos reitores de agora? Nada, mais uma vez.

Mais grave ainda: temos a adicionar a este caos universitário a pobreza dos sindicatos nas suas reivindicações. As reivindicações monetárias são importantes, muito importantes mesmo, dada a desvalorização remuneratória a que os docentes têm estado sujeitos, mas as condições de trabalho não são menos importantes. Ninguém a esse nível fala disto, talvez porque se tem receio que se passe por ignorante e a consequência é então a transformação do docente criador em docente cumpridor, em docente burocrata para todo o serviço e ao serviço também do programa Nónio e das outras diferentes plataformas digitais utilizadas nas Universidades !!!!!

(…)

Um abraço fraterno

JMota

Em 14/03/2021

 

 

 

 

 

 

 

 

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