SOBRE AS REMUNERAÇÕES DE GOVERNADORES DE BANCOS CENTRAIS QUE NOS DESGOVERNAM – 4. O CAPITALISMO DE COMPADRIOS. PORQUE DEVEMOS RECUSAR DAR O VOTO DE CONFIANÇA EM MARIO DRAGHI – por ELIO LANNUTTI

Adrian Pingstone – Taken by Adrian Pingstone in November 2004 and released to the public domain. – obrigado à wikipedia

 

http://dati.senato.it/sito/19?testo_generico=24

 

Il Capitalismo dei Compari. Perché bisogna negare la fiducia a Mario Draghi, por Elio Lannutti

Facebook, 9 de Fevereiro de 2021

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

“Muito poucos compreenderão “o sistema” e aqueles que o fizerem estarão ocupados a ganhar dinheiro. O público não compreenderá que isso é contra os seus interesses”. (Jacob Rothschild, barão e banqueiro, fundador da dinastia dos epónimos).

Numa espécie de entorpecimento coletivo, muitos não compreendem a realidade à la Palisse.

Joseph Eugene Stiglitz, nascido em Indiana (EUA) de pais judeus, um dos mais lúcidos pensadores modernos, economista, ensaísta e Prémio Nobel da Economia em 2001, cunhou o termo “capitalismo de compadrio” para descrever o açambarcamento sistemático dos recursos públicos (as privatizações italianas, ed.) por uns poucos privilegiados, sempre apoiantes na defesa do seu saque. Um tal “sistema” requer um poder muito forte na defesa dos interesses da elite rica que, controlando o poder dos media, lhes permite manter o poder político sob controlo.

Mario Draghi tem uma agenda clara, como comissário extraordinário da Itália, com o consentimento cúmplice de quase todos os grupos políticos, utilizados como peões no grande tabuleiro de xadrez internacional, para realizar reformas contra os direitos e interesses das classes populares, vítimas sacrificiais de uma ideologia globalista e neoliberal.

Draghi, um aluno de Federico Caffè (o grande economista que desapareceu e que se opôs ao divórcio entre o Tesouro e a Bankitalia, uma barreira ao Far-West  dos mercados financeiros e à prevalência do financiamento do papel e dos derivados na economia real), professa ser keynesiano, depois de ter liquidado empresas públicas italianas a bancos comerciais como diretor-geral do Tesouro, tornando-se depois gestor de topo e tendo assinado com eles contratos caprichosos de derivados, custando aos contribuintes 38,7 mil milhões de euros apenas em juros.

Em Janeiro de 2008 o antigo Presidente da República Francesco Cossiga resumiu a figura de Mario Draghi numa frase famosa: “É um cobarde, um homem de negócios cobarde. Não se pode nomear como Presidente do Conselho de Ministros alguém que tenha sido parceiro da Goldman & Sachs, um grande banco comercial americano. E foi mau, muito mau, que eu apoiei, quase impus, a sua candidatura a Silvio Berlusconi, foi muito mau”.

Cossiga reforçou: “É o gestor da massa falida depois do famoso cruzeiro do “Britannia” da indústria pública italiana, a venda ao desbarato quando era Diretor-Geral do Tesouro, e imagine-se o que faria como Primeiro-ministro, venderia ao desbarato o que resta: a Finmeccanica, a Enel, a Eni,…os seus ex-compadrecos de Goldman & Sachs ….

O plano que Draghi terá de completar já estava escrito na famosa carta enviada ao ex-Presidente Berlusconi no Verão de 2011, assinada com o ex-Presidente do BCE Jean Paul Trichet. Eles escreveram, entre outras coisas: “O governo italiano decidiu visar um orçamento equilibrado em 2014 e, para esse fim, introduziu recentemente um pacote de medidas. Estes são passos importantes, mas não suficientes.

a) É necessária uma estratégia de reforma abrangente, radical e credível, incluindo a plena liberalização dos serviços públicos locais e dos serviços profissionais. Isto deve aplicar-se em particular à prestação de serviços locais através da privatização em larga escala.

(b) Há também necessidade de uma maior reforma do sistema de negociação salarial coletiva, permitindo acordos a nível da empresa de modo a adaptar os salários e as condições de trabalho às necessidades específicas das empresas e tornando estes acordos mais relevantes do que outros níveis de negociação”.

A atração fatal para com o seu carrasco, muito para além da síndrome de Estocolmo, por aqueles que foram levados pela Troika e pelas Agências de rating  num “Golpe chamado Rating”, a serem substituídos por Mario Monti, banqueiro responsável no Goldman Sachs, nomeado senador vitalício pelo Presidente Giorgio Napolitano, é uma coisa espantosa.

O poder globalista  e os consórcios internacionais de Bilderberg e Goldman Sachs, para além de Mario Monti (todos se lembram das lágrimas gratuitas de Elsa Fornero, Ministra do Trabalho, do sangue de milhões de trabalhadores que saem e são lançados no desespero e na miséria por causa da reforma das pensões Fornero), já utilizaram outro cavalo da Troika para realizar os seus desígnios de subjugação. Segundo alguns constitucionalistas (como o antigo magistrado Luigi Ferrajoli, aluno de Norberto Bobbio, mas também outros), teria havido anomalias na atribuição do cargo a Draghi, tanto porque Giuseppe Conte não tinha sido contestado, como por não ter proporcionado uma nova ronda (embora rápida) de consultas.

Que a Città della Pieve, a casa de Draghi, tinha sido uma encruzilhada de reuniões políticas durante algum tempo não era já nenhum mistério, tal como publicado por alguns jornais. A 3 de Janeiro, UmbriaLeft revelou: “Renzi e Draghi estão reunidos em Città della Pieve. O jornal umbriano tinha contado uma história de bastidores: “Está em curso uma espécie de consulta ‘não autorizada’ numa casa em Città della Pieve, na qual há uma grande entrada e saída de políticos”.

Num documento publicado a 28 de Maio de 2013 pelo banco de investimento JPMorgan, é explicado em pormenor como os países do Sul da Europa devem ser reformados. “Os sistemas políticos e constituições de alguns países do Sul da Europa apresentam características que parecem inadequadas para promover uma maior integração do espaço europeu”. E, por conseguinte, precisam de ser mudados. A nossa constituição é demasiado socialista, garante a proteção constitucional dos direitos dos trabalhadores e contempla o direito de protesto contra as mudanças no status quo político. Ao mesmo tempo, os italianos não parecem dar demasiada importância a quem quer realmente reformar a Constituição, também porque as questões dos direitos dos trabalhadores e do direito de protesto ainda não são tocadas pela reforma prevista pelo projecto de lei Boschi.

Essa tentativa de alterar a Constituição promovida pelo governo Renzi – que já tinha aprovado medidas humilhantes  em detrimento dos trabalhadores e reformados, e outras para favorecer os bancos, como o Gacs, garantias públicas promovidas pelo ex-ministro da economia Padoan, candidato a presidir à Unicredit para dispor de empréstimos bancários improdutivos, dezenas de milhares de milhões de créditos mal parados, o acordo do século para especuladores -, foi rejeitada pelo referendo de 4 de Dezembro de 2016, juntamente com outras tentativas exógenas de normalizar e dirigir a vontade do povo, regressa agora pela janela com Draghi.

O M5S, anomalias e tropeços da História, nascido na base de uma intuição do “cómico” Beppe Grillo e do visionário de temperamento suave Roberto Casaleggio, através da antiga democracia direta para combater o “sistema” partidário, os Mass Media escravizados, o poder das elites, a corrupção e a ilegalidade, e para varrer as dezenas de criminosos condenados eleitos no parlamento que estavam a produzir leis para o seu uso e consumo próprio (participei ativamente no primeiro Dia V), após o resultado de 2018, com quase 11 milhões de votos, tiveram de ser detidos a qualquer custo por aqueles mesmos potentados que se sentiam ameaçados. Dar o nosso voto de confiança a Draghi, significa negar programas, valores e identidade do M5S, nascido para combater o poder das elites internacionais que o antigo governador da Bankitalia representa, até porque está na sua  natureza lutar contra  os interesses dos banqueiros e das finanças internacionais, que não são os  direitos e interesses dos cidadãos. Dar confiança a Draghi significa rendermo-nos ao poder dos que se mantêm no poder e neste sistema de poder político, é rendermo-nos a um sistema neoliberal que globalizou os lucros socializando as perdas suportadas por 99% da população mundial, que acentuou a desigualdade, a pobreza, o desespero na era da pandemia, um período histórico já triste e dramático para milhões de famílias, forçadas a novas formas de alienação, privação severa, ansiedade existencial severa e medos angustiados pelo futuro de si próprios e dos seus filhos, com o Covid 19 que priva na última partida  e para  mais de 90. 000 mortos a existência de um só olhar, de uma carícia de piedade humana dolorosa, do afeto dos seus entes queridos.

Draghi, com todo o respeito, não é a solução para reduzir a desigualdade e a pobreza, mas sim o problema.

Quem acredita em Deus pensa que o bem, demasiadas vezes esquecido, pode brilhar no coração de cada pessoa para simplesmente a conquistar de novo.  Cada um, à sua maneira, acredita que essa centelha do bem serve para restaurar a esperança e para defender a dignidade humana, o bem comum.

Karl Marx escreveu, no último número do “Gazetta Renana”, no qual o machado da censura prussiana tinha caído em Janeiro de 1843: “Ver-nos-emos novamente um dia numa nova batalha, amigos, cujos elogios nos foram dados, e vós, inimigos, que nos honrastes com lutas no terreno. Se tudo cair, permanece uma inquebrável coragem”.

Temos de encontrar essa coragem para poder resistir à bajulação e às tentações, o que representaria uma traição aos nossos princípios, valores, honra e dignidade, sacrificados pela mera ganância de poder de uns poucos, em detrimento da comunidade.

Com a cabeça e com o coração. Corações ao alto!

 

Elio Lannutti (portavoce al Senato del M5S)

 

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