Crise Financeira no Horizonte. Parte II – Sobre a crise atual do capitalismo, sobre a crise financeira violenta que nos espera, à espera da última dança: 6. À espera da última dança. Por Jeremy Grantham

Logo tipo de WallStreetBets, um sítio subreddit, área de interesse criada pelos utilizadores onde são organizadas discussões na Reddit, um site deTamb´rrm  agregação de notícias sociais, classificação de conteúdos web e de discussão.

Parte II – Sobre a crise atual do capitalismo, sobre a crise financeira violenta que nos espera, à espera da última dança

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6. À espera da última dança

Os Riscos da Alocação de Activos numa Grande Bolha em Fase Final

 

 Por Jeremy Grantham

Publicado por  Grantham, Mayo e van Otterloo, em 05/01/2021 (Waiting for the last dance, original aqui)

 

– Na maioria das vezes, talvez três quartos do tempo, as principais classes de ativos têm preços razoáveis de uns em relação aos outros.

– O verdadeiro problema com a alocação de ativos, porém, está no tempo restante, quando os preços dos ativos se afastam muito do valor que deve ser considerado justo.

– Eu reforço o que acabo de dizer, porque à medida que os preços se afastam mais da tendência, em velocidade acelerada e com um fervor especulativo crescente, é claro que isto reforça a minha confiança como historiador do mercado de que se está já na última fase que antecede o rebentar de uma bolha.

– Desta vez, mais do que em qualquer bolha anterior, os investidores confiam em condições monetárias acomodatícias e taxas reais zero extrapoladas para um longo, muito longo horizonte temporal quase que infinito.

_______________________

RESUMO

O longo, longo mercado em alta desde 2009 amadureceu finalmente para se transformar numa verdadeira bolha épica. Apresentando uma sobrevalorização extrema dos ativos financeiros, aumentos explosivos de cotações, emissão frenética, e comportamento histericamente especulativo de investidores, penso que este evento virá a ser registado como uma das grandes bolhas da história financeira, juntamente com a bolha do Mar do Sul, 1929, e 2000.

Estas grandes bolhas são os momentos onde as fortunas são feitas e desfeitas – e onde os investidores provam verdadeiramente o seu valor. Conseguir posicionar uma carteira de títulos de modo a evitar a pior dor de um rebentar de uma grande bolha é provavelmente a parte mais difícil. Todos os incentivos a avançar neste setor e cada falha da psicologia humana individual irão trabalhar no sentido de atrair os investidores.

Mas esta bolha rebentará em devido tempo, por muito que o Fed a tente segurar, com os consequentes efeitos prejudiciais para a economia e para as carteiras de títulos. Não se enganem – para a maioria dos investidores de hoje, este poderia muito bem ser o evento mais importante das suas vidas de investidores. Falando como um antigo estudante e historiador de mercados, é intelectualmente excitante e assustador ao mesmo tempo. É um privilégio andar num mercado como este mais uma vez.

__________________________

A única realidade que nunca poderá mudar é que um ativo de preço mais elevado produzirá um menor retorno do que um ativo de preço mais baixo. Não pode simultaneamente ter o seu bolo e comê-lo. Pode desfrutá-lo agora, ou pode desfrutá-lo regularmente num futuro distante, mas não ambos, desfrutá-lo e comê-lo – e o preço que pagamos por ter este mercado cada vez mais alto é um menor retorno dos títulos a 10 anos a partir do pico ” [1].

Na maioria das vezes, talvez três quartos do tempo, as principais classes de ativos têm preços razoáveis uns em relação aos outros. A resposta correta é fazer apostas modestas nos ativos que se calcula estarem depreciados e esperar que o cálculo se mostre ter sido correto. Com uma perícia razoável na avaliação dos ativos, o operador financeiro baseado na sua avaliação pode esperar sobreviver intacto a estas fases até com algum pequeno desempenho superior. “Pequeno” porque as oportunidades em si são pequenas. Se quisesse ser pouco amigável, poderia dizer-se mesmo que a alocação de ativos nesta fase é pouco provável que seja muito importante. Ajudaria certamente nestes períodos se o gestor pudesse também acrescentar valor na implementação, desde a seleção efetiva de países, sectores, indústrias, e títulos individuais, bem como das principais classes de ativos.

O verdadeiro problema com a alocação de ativos, porém, está no tempo restante, quando os preços dos ativos se afastam muito do valor que se considera justo. Isto não é tão mau nos mercados em tendência à baixa porque os mercados em baixa importantes tendem a ser curtos e brutais. A resposta inicial dos clientes é normalmente ficarem chocados com a inação, fase durante a qual o gestor tem tempo para reposicionar tanto a carteira como os argumentos para manter as suas posições de carteira.

O verdadeiro problema está nos grandes mercados em alta (bull markets) que duram anos. Mercados em alta longos e de queima lenta podem passar muito tempo acima do valor justo, um ano e mesmo dois, três, ou quatro anos com cotação muito acima do seu valor. Estes eventos podem facilmente durar mais do que a paciência da maioria dos clientes. E quando as subidas de preços são muito rápidas, normalmente perto do fim de um mercado em alta, a impaciência é seguida de ansiedade e inveja. Como eu gosto de dizer, não há nada mais extremamente irritante do que ver os nossos vizinhos enriquecerem e nós não.

Como é que os clientes conseguem distinguir entre o comportamento extremo do mercado e um gestor que perdeu o seu caminho de os enriquecer? A habitual evidência de talento é o sucesso no passado, mas os longos ciclos do mercado são poucos e muito distantes. Ganhar duas vezes em dois eventos ou três em três não é tão convincente como seria um número de vitórias numa amostra mais vasta de eventos. Pior ainda, as anteriores grandes quebras de mercado já se foram há muito: 2008, 2000, ou 1989 no Japão estão praticamente nos livros de história. A maioria dos intervenientes terá mudado. Certamente, a satisfação sentida por outros que acabaram por ganhar há muito tempo não é consolação para a dor atual sentida por cada um de nós pessoalmente. Uma forma mais simples de dizer isto pode ser relembrar que se Keynes tivesse realmente dito: “O mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que o investidor pode permanecer solvente“, ele teria razão.

Estou há muito tempo reformado do trabalho de gestão de carteiras, mas tenho o prazer de dar aqui a minha opinião: é altamente provável que nos encontremos numa situação de uma bolha importante no mercado dos EUA, do tipo que normalmente temos a cada várias décadas e que tivemos pela última vez no final dos anos 90. Muito provavelmente vai acabar mal, embora nada seja certo. Vou também dizer-vos a minha definição de sucesso para uma entrada no mercado em baixa. É simplesmente que mais cedo ou mais tarde chegará um momento em que um investidor ficará satisfeito por ter estado fora do mercado. Ou seja, ele terá poupado dinheiro ao estar fora, e também terá reduzido o risco ou a volatilidade entre o entrar e sair. Esta definição de sucesso não inclui de modo nenhum um timing preciso. (Prever quando uma bolha rebenta não é uma questão de avaliação. Todos os mercados de bolhas anteriores foram extremamente sobrevalorizados, tal como este. A sobreavaliação é uma condição necessária mas não suficiente para o seu rebentamento). Indicar a semana, mês, ou trimestre do ponto de pico é praticamente impossível.

Estive bastante perto de prever o pico de um mercado em alta em 2008 e apanhei o mínimo de um mercado à baixa no início de 2009 quando escrevi “Reinvesting When Terrified” (Reinvestindo quando aterrorizado). Isso é muito mais sorte do que eu poderia esperar mesmo para mim que tenho mais de 50 anos de carreira.

Muito mais tipicamente, eu tinha-me adiantado três anos ao pico da bolha do Japão. Nós na GMO saímos totalmente do Japão em 1987, quando este mercado estava 40% acima da referência EAFE [N.T. 1] e se vendia a mais de 40 vezes os seus ganhos, contra um recorde absoluto anterior de 25 vezes.

Pareceu prudente sair na altura, mas durante três anos tivemos um mau desempenho, uma vez que o mercado japonês passou para 65 vezes os seus ganhos no seu caminho para se tornar mais de 60% do valor de referência! Mas também ficámos completamente de fora durante três anos depois do valor de pico e acabámos por ganhar bom dinheiro na viagem de ida e volta.

Do mesmo modo, em finais de 1997, quando o S&P 500 ultrapassou o seu pico anterior de 1929 de 21 vezes os seus ganhos, rapidamente vendemos as nossas posições discricionárias em ações de empresas americanas e depois assistimos horrorizados à subida do mercado para 35 vezes nos ganhos. Perdemos metade do nosso registo de afetação de ativos, mas no declínio que se seguiu, compensámos muito mais do que as nossas perdas.

Acreditem, eu sei que estas são histórias antigas. Mas elas são diretamente relevantes. Para este evento de mercado atual é de facto a mesma velha história. Este Verão, eu disse que era provável estarmos na fase final de uma bolha, com alguma dúvida criada pelas características únicas da crise do COVID.

A característica mais fiável das fases finais das grandes bolhas da história tem sido o comportamento realmente louco dos investidores, especialmente por parte dos particulares. Durante os primeiros 10 anos deste mercado em alta, que é o mais longo da história, faltou-nos a tal especulação selvagem. Mas agora temo-la. Em quantidades recorde.

Os meus colegas Ben Inker e John Pease escreveram sobre alguns destes exemplos de mania especulativa na mais recente carta trimestral da GMO, incluindo Hertz, Kodak, Nikola, e, especialmente, Tesla. Como proprietário de um Modelo 3 Tesla, a minha informação preferida da Tesla é que o seu valor de mercado, agora superior a $600 mil milhões, ascende a mais de $1,25 milhões por carro vendido por ano contra $9.000 por carro para a GM.

O que tem 1929 a oferecer para igualar isso? Qualquer uma destas informações poderia talvez ser descartada como casos isolados (confie em mim: este não é o caso), mas os valores globais parecem ainda piores.

O “indicador Buffett”, capitalização total da bolsa de valores em relação ao PIB, bateu o seu recorde histórico de 2000. Em 2020, houve 480 Ofertas Públicas Iniciais (IPOs) incluindo uns incríveis 248 SPACs [2]) – mais novas admissões do que as 406 IPOs em 2000.

Existem 150 empresas que não são empresas de micro-capitalização (ou seja, com uma capitalização de mercado superior a 250 milhões de dólares) que mais do que triplicaram no ano, o que é mais de 3 vezes mais do que em qualquer outro ano da década anterior.

O volume de pequenas compras a retalho, de menos de 10 contratos, de opções de compra sobre ações dos EUA aumentou 8 vezes em comparação com 2019, e 2019 já estava bem acima da média de longo prazo.

Talvez o mais preocupante de tudo: o vencedor do Prémio Nobel, Robert Shiller, um investidor “urso” [N.T. 2] desde longa data, ou seja, defensor de entrar e lucrar nos mercados em baixa  – que correta e corajosamente previu as bolhas de 2000 e 2007 e que é um dos poucos economistas que respeito – está a cobrir as suas apostas desta vez, fazendo recentemente notar que o seu lendário indicador de preços de ativos CAPE (que sugere que as ações estão quase tão sobrevalorizadas como no pico da bolha de 2000) mostra uma sobrevalorização menos impressionante quando comparado com as obrigações. As obrigações, no entanto, são ainda mais espetacularmente caras por comparação histórica do que as ações. Oh meu Deus!

Portanto, não me surpreende nada que desde o Verão o mercado tenha avançado a um ritmo acelerado e com crescentes excessos especulativos. É precisamente o que se deve esperar de uma bolha em fase avançada: uma fase acelerada, quase vertical, de duração desconhecida – mas tipicamente de curta duração. Mesmo que seja curta, esta fase no final de uma bolha é chocantemente dolorosa e cheia de riscos nas carteiras de títulos para os apostadores [investidores “ursos”] nos mercados com tendência à baixa.

Reforço o que tenho estado a dizer, porque à medida que os preços mais se afastam da tendência, em velocidade acelerada e com um fervor especulativo crescente, aumenta a minha confiança, enquanto historiador do mercado, de que esta é de facto a fase final de uma bolha. Uma bolha que começa a parecer um verdadeiro balão.

A característica mais estranha deste mercado em alta é que se diferencia de todas as grandes bolhas anteriores num aspeto. As bolhas anteriores combinaram condições monetárias acomodatícias com condições económicas que eram percecionadas na altura, com ou sem razão, como quase perfeitas, cuja perfeição é extrapolada para um futuro indefinido. O estado de excelência económica de qualquer bolha anterior, claro, não durou muito, mas se pudesse ter durado, então o mercado teria, justificadamente, vendido a um enorme múltiplo dos seus valores de registo.

Mas a economia ferida de hoje é totalmente diferente: apenas parcialmente recuperada, possivelmente enfrentando uma dupla caída, provavelmente enfrentando um abrandamento, e certamente enfrentando um grau de incerteza muito elevado. No entanto, o mercado está hoje com valores muito mais elevados do que estava no outono passado, quando a economia parecia bem e o desemprego se encontrava num nível historicamente baixo. Atualmente, a relação P/E [Price-to-Earnings Ratio] do mercado está na percentagem mais alta da escala histórica e a economia está na pior percentagem. Isto é completamente sem precedentes e pode até ser uma melhor medida de intensidade especulativa do que qualquer SPAC.

Desta vez, mais do que em qualquer bolha anterior, os investidores confiam em condições monetárias acomodatícias e taxas reais zero extrapoladas indefinidamente. Isto tem, em teoria, um efeito semelhante a assumir um desempenho económico de pico para sempre: pode ser utilizado para justificar rendimentos muito mais baixos em todos os ativos e, portanto, preços de ativos correspondentemente mais altos. Mas nem condições económicas perfeitas nem condições financeiras perfeitas podem durar para sempre, e aí está o problema.

Todas as bolhas terminam com a aceitação quase universal de que a atual situação ainda não acabou … porque. Porque em 1929 a economia havia atingido “um nível permanentemente alto”; porque o Fed de Greenspan em 2000 previa uma melhoria duradoura na produtividade e testemunhava a sua lealdade (ou risco moral) face ao mercado de ações; porque Bernanke acreditava em 2006 que “os preços das casas nos EUA apenas refletem uma economia forte dos EUA”, pois perpetuava o risco moral: se o leitor ganhar, ficará por sua própria conta, mas se perder pode contar com o nosso apoio. Yellen, e agora Powell, mantiveram esta abordagem. Todos os três predecessores de Powell afirmaram que os preços dos ativos que eles ajudaram a inflacionar, por sua vez, ajudaram a economia por meio do efeito riqueza. Efeito esse que todos admitimos que é real.

Mas todos os três evitaram atribuir-se o mérito pelas quebras de mercado que se seguiram inevitavelmente: o colapso do património líquido de 2000 e o colapso do mercado imobiliário de 2008, cada um repleto do efeito anti-riqueza que veio quando menos precisávamos dele, exagerando a já garantida fragilidade da economia. Este jogo certamente é o derradeiro acordo feito com o diabo.

Agora, mais uma vez, os preços altos desta vez manter-se-ão porque … as taxas de juros serão mantidas em torno de zero para sempre, na declaração final de risco moral – o risco de mercado assimétrico que nós conhecemos e do qual dependemos.

O mantra do final de 2020 era que taxas baixas artificais podem evitar um declínio nos preços dos ativos. Para sempre!

Mas é claro, era uma falácia em 2000 e é igualmente uma falácia agora. No final, o risco moral não impediu o declínio da bolha da tecnologia, com o NASDAQ caindo 82%. Sim, 82%! Nem, em 2008, impediu que os preços da habitação nos EUA voltassem a descer até à tendência e abaixo dela – o que por sua vez garantiu, em primeiro lugar, uma perda chocante de mais de oito milhões de milhões de dólares no valor estimado no setor da habitação; em segundo lugar, uma fraqueza consequente na economia; e, em terceiro lugar, um aumento generalizado dos prémios de risco e um declínio generalizado dos preços globais dos ativos (ver gráfico 1).

Todas as promessas não valeram nada, exceto uma; o Fed fez o que pôde para juntar os cacos e ajudar os mercados a entrar no ritmo da próxima ronda de preços elevados e declínio subsequente. E aqui estamos nós de novo, a esperar pela última dança e, eventualmente, para ver a música parar.

Gráfico 1: Bolhas – Ótimas enquanto duram

 

Nada em investimento se repete na perfeição. Certamente que nem as bolhas de investimento. Cada forma de exuberância irracional é diferente; procuramos apenas aquilo a que se pode chamar semelhanças espirituais.

Mesmo agora, sei que este mercado pode subir por mais algumas semanas ou mesmo meses – parece que podemos estar algures entre Julho de 1999 e Fevereiro de 2000. O que quer dizer que é garantido que vai cair repentinamente, de um dia para o outro, depois de preencher todas as condições para tal, mas pode continuar ruidosamente em alta durante alguns meses mais.

O meu melhor palpite quanto ao máximo de tempo que esta bolha pode sobreviver é o final da Primavera ou o início do Verão, coincidindo com o amplo lançamento da vacina COVID. Nesse momento, a questão mais premente que a economia mundial enfrenta terá sido resolvida. Os participantes no mercado vão respirar de alívio, olhar em volta, e perceber imediatamente que a economia ainda está em má forma, o estímulo será cortado em breve com o fim da crise do COVID, e que as valorizações dos ativos são absurdas. “Comprem os rumores, vendam as notícias”. Mas lembrem-se que prever o tempo de rebentamento das bolhas tem consigo uma longa história de desilusão.

Mesmo em retrospetiva, raramente é fácil identificar o alfinete que rebentou a bolha. A principal razão para esta falta de clareza é que os grandes mercados em alta não quebraram quando foram inesperadamente confrontados com um grande problema negativo. Estes acontecimentos, como o fiasco do seguro de carteira de títulos de 1987, tendem a dar pernas altas e recuperações rápidas. Estão no esquema geral das coisas únicas e técnicas e não fazem parte do fluxo e refluxo das grandes bolhas. Os grandes mercados em alta normalmente baixam quando as condições de mercado são muito favoráveis, mas em que são apenas subtilmente menos favoráveis do que eram ontem. E é por isso que se falha sempre prever o momento em que tal acontece.

Seja como for, o mercado está agora a preencher todas as características sensíveis de uma grande bolha. As características mais impressionantes são a intensidade e o entusiasmo dos investidores crentes nos mercados em alta, a amplitude da cobertura das ações e do mercado, e, sobretudo, a crescente hostilidade para com os investidores que jogam à baixa dos mercados.

Em 1929, ser um investidor urso era arriscar um ataque físico e garantir o assassinato de carácter. Para nós, 1999 foi a única experiência que tivemos de clientes a reagir como se estivéssemos a privá-los deliberada e maliciosamente de ganhos. Em comparação, 2008 não foi nada assim. Mas, nos últimos meses, o tom hostil tem vindo a subir rapidamente. Mas a ironia para os investidores urso é que é isso exatamente o que a maioria dos investidores quer ouvir. É um precursor clássico da rutura final, juntamente com a subida das ações e estas sobem, não pelos seus fundamentais económicos, mas simplesmente porque estão a subir.

Outra característica mais mensurável de um mercado em alta na sua fase final, desde a bolha do Mar do Sul [século XVIII] até à bolha tecnológica de 1999, tem sido uma aceleração [3] da fase final, que em casos recentes tem sido superior a 60% nos últimos 21 meses até ao valor de pico, uma taxa bem superior ao dobro da taxa normal de subida dos mercados em alta. Desta vez, os índices dos EUA aumentaram de +69% para o S&P 500, de +100% para o Russell 2000 em apenas 9 meses. Nada mau! E pode ainda haver mais escalada por vir. Mas já cumpriu este teste necessário de uma bolha em fase avançada.

É um privilégio, como historiador do mercado, viver mais uma vez uma grande bolha no mercado de ações. O Japão em 1989, a bolha tecnológica de 2000, a crise habitacional e hipotecária de 2008, e agora a atual bolha – estes são os quatro eventos de investimento mais significativos e envolventes da minha vida.

A maior parte das vezes, nos mercados mais normais, apresentamo-nos para trabalhar e fazemos o nosso trabalho. Monótono. E depois, muito de vez em quando, a espiral do mercado afasta-se do valor justo e da realidade. As fortunas fazem-se e desfazem-se num instante e os consultores de investimento têm uma rara oportunidade de realmente justificar a sua existência. Mas, como é habitual, não há almoços gratuitos. Estas oportunidades de serem úteis vêm carregadas de riscos de carreira.

Portanto, aqui estamos nós novamente. Espero mais uma vez que a minha chamada de atenção para a bolha corresponda à minha modesta definição de sucesso: em alguma data futura, sempre que isso for possível, sentir-se-ão compensados por terem evitado o mercado financeiro no meio do Verão de 2020. Mas poucos investidores profissionais ou individuais terão sido capazes de o terem evitado.

A combinação da incerteza do momento e das queixas rapidamente aceleradas por parte dos clientes significa que o risco da carreira e do negócio em enfrentar a bolha é demasiado grande para as grandes empresas comerciais [de investimento]. Elas (as empresas de investimento) nunca podem colocar todo o seu peso em aconselhamento à mesmo que o rácio P/E atinja o valor de 65 vezes, como aconteceu no Japão. A instituição gigante mais próxima a oferecer conselhos totalmente à baixa numa bolha foi a UBS em 1999, cuja posição era quase idêntica à nossa na GMO. Ou seja, algures entre o corajoso e o precipitado.

Felizmente para nós, no entanto, a UBS mudou a sua tática e converteu-se a uma recomendação de ações de crescimento [N.T. 3] totalmente investidas no UBS Brinson e na sua subsidiária, Phillips & Drew, em Fevereiro de 2000, pouco antes do pico do mercado. Isto permitiu eliminar o gorila de 800 libras que, de outra forma, teria recebido a maior parte das recompensas pela sua teimosia em se opor ao mercado.

Portanto, não espere pelos Goldmans e Morgan Stanleys para se tornar um apostador em mercado à baixa: isso poderá nunca acontecer. Para eles, é uma aposta horrivelmente não comercial. Talvez seja uma aposta para qualquer um outro operador no mercado. Uma aposta lucrativa e redutora de riscos para os clientes, sim, mas comercialmente impraticável para os consultores financeiros. A sua melhor política é clara e simples: sejam sempre extremamente otimistas. É boa para os negócios e intelectualmente pouco exigente. É atrativa para a maioria dos investidores que preferem muito o otimismo a uma avaliação realista, como testemunhado tão vivamente com o COVID. E quando tudo isto terminar, terá como investidor persistente de mercado em alta uma companhia esmagadora. É por isso que numa bolha teve sempre um aconselhamento para o mercado em alta e sempre terá.

Contudo, para qualquer gestor disposto a assumir esse risco de carreira – ou mais provavelmente para o investidor individual – exigir a escolha certa do momento certo é ir longe demais.

Se o limite para prever uma bolha for colocado demasiado alto, de forma a calcular o momento de pico com precisão, nunca o tentará. E isso condena-o a cavalgar o abismo em cada ciclo, juntamente com a grande maioria dos investidores e gestores.

 

O que fazer?

Como acontece frequentemente em picos de bolhas como 1929, 2000, e os Nifty Fifty [N.T. 4] de 1972 (uma bolha de segundo nível na companhia de campeões), o mercado atual apresenta extremas disparidades de valor por classe de ativos, de sector e de empresas.

Entre as ações menos caras encontram-se ações de valor tradicionais do mundo inteiro, em relação às ações de crescimento.

As ações ditas de “valor” [N.T. 5] tiveram relativamente a sua pior década de sempre terminando em Dezembro de 2019, seguidas pelo pior ano de sempre em 2020, com spreads entre os resultados de ações “Valor” e “Crescimento” variando em média entre 20 e 30 pontos percentuais para um único ano!

Do mesmo modo, as ações dos Mercados Emergentes estão situadas num dos seus três piores níveis mais baixos, mais ou menos iguais relativamente aos EUA dos últimos 50 anos.

Não surpreendentemente, pensamos que é na sobreposição destas duas ideias, Valor e Emergente, que as suas apostas relativas devem ir, evitando ao máximo as ações de Crescimento dos Estados Unidos que a sua carreira e os riscos da sua empresa lhe permitam.

Boa sorte!

_________________

NOTAS

1 Jeremy Grantham, CNBC, November 12, 2020.

2 Uma SPAC é uma Empresa de Aquisição com Finalidade Especial, um invólucro que é criado com o objectivo específico de se fundir com alguma empresa privada para levar essa empresa a público mais rapidamente do que poderia ter sido o caso com um processo normal de oferta pública inicial (NYSEARCA:IPO).

3 O meu artigo de Janeiro de 2018, “Bracing Yourself for a Possible Near-term Melt-up”, tem substancialmente mais dados e exposições sobre este tópico.

 

_____________________

Notas de tradutor

[1] N.T. O índice internacional de ações mais antigo, da Morgan Stanley Capital International.

[2] N.T. Grantham considera Schiller um investidor “urso”. Um investidor apelidado de urso é um investidor que acredita que um determinado título, ou o mercado no sentido mais amplo, está em baixa e pode tentar lucrar com uma queda nos preços das ações. Os ursos são normalmente pessimistas sobre o estado de um determinado mercado ou economia subjacente. Por exemplo, se um investidor tem um comportamento de urso, ou seja, pessimista, face ao Standard & Poor’s (S&P) 500, ele esperaria que os preços caiam e tentaria lucrar com uma queda no índice de mercado amplo. (em Investopedia, aqui)

[3] N.T. Uma ação dita de crescimento é qualquer participação numa empresa que se prevê crescer a uma taxa significativamente acima da média de crescimento do mercado. Estas ações geralmente não pagam dividendos. Isto porque os emitentes de ações de crescimento são geralmente empresas que querem reinvestir quaisquer lucros que obtenham para acelerar o crescimento a curto prazo. Quando os investidores investem em ações de crescimento, antecipam que irão ganhar dinheiro através de ganhos de capital quando acabarem por vender as suas ações no futuro.

[4] N.T. Nos Estados Unidos, o termo Nifty Fifty era uma designação informal para cinquenta ações populares de grande capitalização na Bolsa de Valores de Nova York nas décadas de 1960 e 1970 que eram amplamente consideradas como ações sólidas de compra e manutenção de crescimento, ou ações “Blue-chip”.

[5] N.T. Uma ação dita de valor refere-se a ações de uma empresa que parece estar a ser negociada a um preço inferior em relação aos seus fundamentais económicos, tais como dividendos, ganhos, ou vendas, tornando-a atrativa aos investidores em ações de valor.

_______________________

O autor: Robert Jeremy Goltho Grantham [1938 – ] é um investidor britânico e co-fundador e principal estratega de investimento da Grantham, Mayo, & van Otterloo (GMO), uma empresa de gestão de activos sediada em Boston. A GMO tinha mais de 118 mil milhões de dólares em activos sob gestão em Março de 2015. Grantham é considerado como um investidor altamente conhecedor de vários mercados de acções, obrigações e mercadorias, e é particularmente notável pela sua previsão de várias bolhas. Tem sido uma das vozes críticas das várias respostas governamentais à Crise Financeira Global de 2007 a 2010. Grantham iniciou um dos primeiros fundos de índice do mundo no início dos anos 70. Em 2011 foi incluído no ranking dos 50 Mais Influentes da revista Bloomberg Markets. Estudou Economia na Universidade de Sheffield e tem um MBA pela Harvard Business School. (fonte, Wikipedia, aqui)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply