FRATERNIZAR – Teólogo Hans Küng morre aos 93 anos – MUITA SABEDORIA OU MUITO SABER?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

O grande teólogo suíço Hans Küng acaba de protagonizar a sua derradeira páscoa. Por outras palavras, acaba de chegar à sua plenitude de vida. Depois de 93 anos a viver visivelmente entre nós e connosco, envolvido em sucessivos combates teológicos que ele próprio tem como os mais oportunos. Morre em tempos de Covid-19, mas não chega a ser atingido por ela. Tão pouco, recorre à morte medicamente assistida ou eutanásia, apesar de a defender para quem, em fase terminal e em situação de grande e intolerável sofrimento, entenda pedir que desliguem as máquinas, ou, vai ainda mais além, e pede expressamente que o ajudem a morrer.

Como presbítero-jornalista ao serviço do Jornal Fraternizar, 23 anos em suporte papel e desde 2011, apenas em suporte digital (www.jornalfraternizar.pt), tenho acesso à maior parte dos seus livros, em tradução espanhola, oferecidos pela Editorial Trotta, em Madrid. Inclusive, os 3 grossos volumes das suas Memórias. De todos os que recebo – e muitos são – tenho a felicidade de poder fazer a respectiva recensão crítica. Desconheço se alguma dessas muitas recensões lhe chega às mãos. Sei que nem sempre são do agrado da Editora.

Ao estudá-lo, dou-me conta de que estou perante um teólogo altamente erudito, assessorado por uma equipa de colaboradores, elas e eles, muito traduzido, lido, escutado e muito viajado pelo mundo, com milhares de conferências em espaços com muitas centenas de fervorosos e entusiásticos ouvintes. Tanto acolhimento e tanto entusiasmo por um teólogo cristão católico que, em pleno século XX, se exprime numa linguagem distante da dos clérigos nos respectivos templos e altares, é só por si um fenómeno que perturba, e muito, o sistema de Poder católico imperial de Roma que, às pressas, lhe retira o direito de dar aulas nas universidades católicas. Só que o ‘castigo’ – ou ‘promoção?! – valeu-lhe, nesse então, ainda mais credibilidade, mais audiência e mais procura dos seus inúmeros Livros.

Tenho tudo isto presente em mim e, mesmo assim, ou por isso mesmo, pergunto-me se Hans Küng é um teólogo de muita sabedoria, ou, pelo contrário, um teólogo de muito saber. Consciente de que Sabedoria, é Cuidar, e Saber, é Poder. E consciente também de que dizer, Cristianismo, é dizer Poder monárquico absoluto e infalível. Dai concluir, sem risco de errar, que Hans Küng é um grande teólogo cristão católico, por isso, de muito Saber, não de muita Sabedoria. Só isso explica que, embora venha a conhecer na própria carne bastante ostracismo, por parte da Cúria romana e muitas cúrias diocesanas, nunca seja excomungado nem tido como maldito, muito menos veja o seu nome riscado dos registos oficiais da igreja que um dia o ordena Presbítero. Pelo contrário, chega até a ser um dos ‘peritos’ no Concílio Vaticano II. E agora que acaba de acontecer a sua esperada morte, lá estão, entre as inúmeras referências elogiosas ao seu ser-viver de teólogo cristão católico, também as da Cúria romana.

Nunca é por demais sublinhar que entre os praticantes da Sabedoria e do Saber há um abismo intransponível. Enquanto os praticantes da Sabedoria trazem no bojo o Sopro-Ruah da suprema de todas as Artes que é a Arte de Cuidar da vida humana e da vida da Terra, os praticantes do Saber trazem no bojo o sopro do Poder, o assassino da vida humana e da vida da Terra. Como tal, só mesmo os praticantes da Sabedoria, para lá de perseguidos e ostracizados, acabam sempre assassinados, hoje, preferencialmente, de forma incruenta, e vêem riscados os seus nomes dos registos institucionais, pois atestam, com as suas práticas políticas maiêuticas, que o Poder, por mais que se mascare de bonzinho ou benfeitor, é sempre assassino e ladrão. Enquanto os praticantes do Saber, por mais críticos do Poder que se apresentem nos seus escritos e palestras, acabam sempre tolerados, reconhecidos por muitas das suas cúpulas e, por fim, até canonizados!

Por tudo isto, não estranho nada que, dentro de alguns anos, o teólogo Hans Küng seja um dos grandes nomes com que o Papado da Roma imperial, o pai de todos os poderes, vai autojustificar-se e reforçar-se ainda mais. Porque sabe muito bem que o grande teólogo suíço, embora o tenha criticado e muito, jamais se atreve a dizer que ele é intrinsecamente mau. Como efectivamente é! Quis muito reformá-lo, nunca quis derrubá-lo. E a prova é que defende em toda a parte aonde chega a sua voz que só haverá paz entre as nações, quando houver paz entre as três religiões do Livro, a maior das quais é, sem dúvida, o Cristianismo, com destaque para a religião católica da Roma imperial. Quando os praticantes da Sabedoria o que proclamam aos quatro ventos é que só há paz entre as nações, quando todas as religiões, com destaque para as três religiões do Livro, forem definitivamente extintas, para darem lugar aos seres humanos e aos povos das nações misteriosamente habitados e a crescer, de dentro para fora até gerirem os seus próprios destinos, os destinos uns dos outros e os destinos da Terra. E tudo isto, como se Deus que nunca ninguém viu, não existisse!

 

 

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TITULOS DOS TEMAS DESTA EDIÇÃO EM CADA UMA DAS PASTAS:

 

1 Poema de cada vez

EH COMPANHEIRO

José Mário Branco

Destaque

Nicola Gardini, Escritor

O VÍRUS NOS ENSINA QUE NÃO SOMOS OS DONOS DO NOSSO PLANETA

 

Documentos + extensos

Ruth Kelly

POR UMA ECONOMIA HUMANA E RADICAL: AGREGANDO VALOR AO CAPITALISMO


Entrevistas

Com Mariana Mazzucato

O ESTADO NÃO PRECISA FAZER TUDO, MAS TEM QUE LIDERAR O CAMINHO”

 

Outros TEXTOS de interesse

Margot Kässmann

HANS KÜNG:
PROFETA DA CRÍTICA À IGREJA


TEXTOS de A. Pedro Ribeiro

O PODER E A SABEDORIA

 

TEXTOS Frei Betto, Teólogo

PANDEMIA DA FOME

 

TEXTOS de L. Boff, Teólogo

APRENDIZADO: COVID-19

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