CARTA DE BRAGA – “de vacinas e lucros” por António Oliveira

Achal Prabhala, não é nome de nenhum artista, nem joga futebol ou basquetebol, é apenas um investigador da Fundação Shuttleworth, instalado em, Bangalore, no sul da India, que se dedica, há quase duas dezenas de anos, à análise crítica das grandes farmacêuticas, reclamando, ao mesmo tempo, um acesso mais fácil aos avanços médicos para os países mais desfavorecidos, especialmente India, África do Sul e Brasil, países onde viveu e também investigou.

Seria apenas mais um desses cientistas anónimos que trabalham para o bem comum, só que este investigador ‘pôs a boca no trombone’ e, de acordo com ‘La Vanguardia’, o sistema vigente hoje no mundo, permite que o monopólio da vacina contra o ‘corona’, distribuído pelas multinacionais PfizerModernaAstraZenecaJohnson & Johnson, não autoriza que ninguém mais a possa produzir sem licença. 

E vale a pena transcrever alguns parágrafos da entrevista que concedeu ao diário catalão ‘No caso das duas primeiras, a Moderna, que nunca tinha registado benefícios, prevê para este ano, uma facturação de 18.000 milhões de dólares e a Pfizer de 15.000 milhões. De qualquer maneira a oferta desta vacina será muito restrita e só 20% da população mundial irá ter acesso’.

Em relação á AstraZeneca, quando o Instituto Jenner da Universidade de Oxford, pensou em criar a vacina, com a ideia de a fabricar na maior escala possível, a primeira foi feita com um instituto indiano e mais alguns sócios, ‘Mas a Fundação Bill & Melinda Bates, que participava no projecto, insistiu em que fazia falta incluir como sócio, uma corporação farmacêutica multinacional, o governo britânico propôs a AstraZeneca e a Universidade de Oxford assinou um acordo exclusivo’.

E acrescenta Prabhala, ‘Ao optar por incorporar uma multinacional farmacêutica, limitou-se drasticamente o número de licenças e a produção não atingiu os volumes necessários e, quando a India e a África do Sul, propuseram a suspensão dos monopólios às grandes farmacêuticas, a Europa também se opôs, porque a indústria é muito poderosa na Europa e a União Europeia pensava que a oferta restrita só prejudicaria os países em desenvolvimento, mas não foi assim’.

Esta entrevista mostra bem o poderio brutal das multinacionais, até porque, ‘Os EUA pagaram quase todos os custos de investigação da Moderna e da Johnson & Johnson, milhões de dólares, a Alemanha deu dinheiro à Pfizer e o Reino Unido à AstraZeneca, mas os governos ainda garantiram a procura e os benefícios com uns enormes e antecipados pedidos’.

Curiosamente, a Alianza People’s Vacine, uma coligação de organizações que inclui a OxfamSalud por DerechoFrontline AIDSOnusida e Global Justice Now, veio a público a semana passada, para anunciar que a PfizerJanssen e AstraZeneca, pagaram 21.610 milhões de euros aos accionistas, entre dividendos e recompra de acções, referentes aos últimos doze meses.

Alianza garante que tal cifra chegava para pagar a vacinação de pelo menos 1.300 milhões de pessoas, o equivalente à população de África, com um custo de 16,6 euros por pessoa e ainda na semana passada, 175 personalidades entre ex-chefes de estado e prémios Nobel, escreveram ao presidente dos Joe Biden, dos EUA, apoiando a suspensão temporal dos direitos de propriedade intelectual das vacinas, para permitir um rápido aumento de produção em todo o mundo. 

Há já alguns meses, que numerosas organizações internacionais fizeram pedido idêntico, para resolver a falta de vacinas, mas a iniciativa que permitiria autorizá-lo, dependente da Organização Mundial de Comércio, está completamente bloqueada pelos países ricos.

Talvez seja tempo de verdadeiramente se assumir um ‘recado’ de Viriato Soromenho Marques, deixado numa das suas últimas crónicas no DN. ‘Este é o tempo em que a lucidez e a fibra moral de muito poucos europeus, moldarão o destino de todos os outros’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 
 
 

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