UM ADEUS A ANTÓNIO TORRADO (1939-2021) – por MANUEL SIMÕES

(1939 – 2021)

 

Conheci pessoalmente António Torrado nos longínquos anos sessenta, em Coimbra, para cuja Faculdade de Letras se transferira depois da sua expulsão da Universidade de Lisboa, no rescaldo da crise estudantil de 1962. O seu nome, porém, já me era familiar da Labareda, suplemento cultural coordenado por mim e por Carlos Loures e que se publicava com o jornal O Templário, de Tomar, onde tinha saído um seu artigo, no âmbito do nosso projecto de subtrair aos jornais “de província” as habituais notícias de “casamentos”, “está de passagem”, etc., substituindo-as por textos de qualidade. Desde esses anos ficou-me uma grande admiração pelo escritor e pelo cidadão, que o passar do tempo não alterou. Quando foi solicitado, respondeu imediatamente à chamada, colaborando com as nossas antologias sobre Hiroxima, Vietname e Poemabril. Creio que lhe devo a publicação da antologia poética de Pier Paolo Pasolini na editora Plátano (1975), editora que fundou; e digo creio, porque foi Carlos Porto, o malogrado crítico de teatro, funcionário da editora, a pessoa que me contactou e que tratou da edição.

Tinha, com António Torrado e Luís Guerreiro (outro companheiro de Coimbra), um projecto de almoço que se foi protelando, mas sabia que a sua doença degenerativa ia avançando de modo preocupante. E por isso foi ficando adiado para sempre.

A vida de António Torrado foi completamente devotada à escrita. Poeta e dramaturgo de mérito, apraz-me lembrar a sua inclusão na mítica Antologia da Poesia Universitária (1964) e a sua colaboração no boletim da AEIST. Foi jornalista no Diário Popular e em A Capital, escreveu argumentos para o cinema (O Cônsul de Bordéus, de Francisco Manso, por exemplo) e para a televisão e foi, a certa altura, coordenador de programas infantis na RTP. Mas tornou-se verdadeiramente conhecido, e premiado, pelos seus inúmeros livros de literatura infanto-juvenil (é enorme a lista de títulos), convencido, como sempre esteve, que o prazer da leitura deve começar na infância. Neste aspecto, os seus livros marcaram seguramente várias gerações.

A António Torrado e à sua cidadania lavro aqui um adeus de gratidão, um “adeus português”, para usar a expressão de outro grande poeta, Alexandre O’Neill.

Leave a Reply