Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 3. ARCHEGOS E AS APOSTAS SELVAGENS DE WALL STREET: 3A. Os produtos derivados – 3. Os Swaps de Retorno Total – A loucura e a selvajaria nos mercados financeiros, também instaladas em Portugal: o caso Berardo. Por Júlio Marques Mota

 

3A. Os produtos derivados – 3. Os Swaps de Retorno Total – A loucura e a selvajaria nos mercados financeiros, também instaladas em Portugal: o caso Berardo

 Por Júlio Marques Mota

                                        Coimbra, 5 de Julho de 2021

 

Do ponto de vista do conhecimento sobre o que é um swap de retorno total a noite vai longa, a manhã aproxima-se, já se começa a ver alguma coisa, penso eu.

Chegados ao fim deste trabalho, lembramo-nos do ditado português em que cada país tem o governo que merece, o governo que ele, país, gera, e daí que se possa dizer que cada país, por analogia terá sempre o sistema financeiro que merece, o sistema que ele próprio gerou ou autorizou. A partir daqui podemos dizer que os ingleses têm o Greensill que merecem, os americanos têm o fundo Archegos que merecem, e quanto a nós, temos o quê? Talvez um Joe Berardo? Penso que sim, penso que há aqui alguma equivalência.

Archegos, um fundo familiar, um homem só, Bill Hwang. Archegos e a história de ter envolvido, enrolado, os maiores bancos do mundo. E foram vários, como se viu. Em termos simples, num swap de retorno total Bill Hwang dava ordens de compra a estes bancos isoladamente, um por um, sobre um número reduzido de ações. Os bancos compravam e ficavam com os títulos, que eram propriedade sua. Bill Hwang pagava os juros à taxa Libor mais um spread amigável para os bancos. Admitamos que havia um colateral, garantia, relativamente baixo, de 5% como aconteceu com o Credit Suisse. Por cada 100 dólares em ações, havia em títulos ou ações um depósito no dito banco de 5 dólares feito por Bill Hwang, dito margem. E no contrato, os 100 dólares gastos têm de constar pelo seu valor em títulos. Se os títulos sobem, Bill Hwang arrecada os ganhos. O banco pagava a Bill o valor da valorização.

Neste tipo de swap tudo se passa como se Bill Hwang tivesse pedido dinheiro emprestado e pagasse juros para comprar ações, à espera de que elas subissem. Subiam, vendia-as e embolsava o ganho. O swap permite-lhe de forma equivalente embolsar esse ganho. Ao contrário, imaginemos que os títulos descem de 20 dólares. Imediatamente processa-se a chamada de margem e Bill Hwang é obrigado ou a colocar mais títulos no valor de 20 dólares para que o valor do pacote de títulos no banco se mantenha constante ou repõe o valor dos prejuízos, 20 unidades e o swap passa a ser válido para 80 dólares e não 100. Tudo se passa como se estivesse a especular à alta, tendo comprado à vista os títulos com dinheiro emprestado e tendo-os vendido antecipadamente com entrega no dia do vencimento do empréstimo e à cotação desse mesmo dia, que ele esperava vir a ser mais alto. Mas as ações entretanto desceram. Vendeu-as então mais barato. Perdeu e pagou a diferença.

Repare-se que no swap o banco nunca tem nada em risco, salvo o risco de crédito, que deriva da possibilidade da contraparte se recusar ou não poder satisfazer as condições do contrato, neste caso o risco do banco não ser ressarcido das perdas ocorridas sobre os títulos. Imaginemos agora que uma seção do banco, a de lançamento de novas emissões, preparou uma emissão de títulos sobre dada empresa, a CBS por exemplo. Uma outra secção do banco, a dos produtos derivados fez contratos de swap total com Bill Hwang com maturidades para a mesma altura e para os mesmos títulos. Bill Hwang está a jogar na alta das ações, a secção do banco de novas emissões estará a fazer com que as ações desçam. E estas descem. Bill Hwang tem de pagar a chamada de margem. O volume de dinheiro a pagar é enorme. Não responde à chamada de margem. Não tem liquidez, entra em falência e dois grandes bancos globais americanos, antes que o mercado desperte e reaja, enchem o mercado com as ações novas e com as ações compradas por ordem de Bill Hwang. Tudo a somar, a oferta aumenta fortemente e o preço cai em conformidade, Primeiramente, quem perde? Bom, quem esteve desprevenido nisto ou é nisto amador, habitualmente a Main Street, como se costuma dizer.

 

O caso Berardo

Vejamos então a relação com Joe Berardo. Imaginemo-nos em 2007, a bolsa está em euforia. Dirige-se separadamente a cada um dos 3 maiores bancos em Portugal a pedir um milhão de milhões, 400+300+300. Muito dinheiro e isto para comprar ações do BCP que ficam de garantia. A diferença com o swap é a natureza do proprietário. Num swap as ações são do banco, aqui as ações são de Joe Berardo. Tal como no swap, Joe Berardo paga juros pelo empréstimo. Tal como num swap Joe Berardo paga um spread face à Libor e amigável para os bancos. Ora, os empréstimos exigiam uma garantia de 105%, sendo 100% no subjacente – as ações do BCP ficavam na mão do banco – e 5% de colateral em títulos. Provavelmente em títulos de outras empresas que o banco aceitasse. Os títulos comprados subiam. Nada acontecia, a não ser o conforto do banco de que o empréstimo estava mais que seguro, estava seguríssimo.

No caso de Hwang, houve um fator externo que desencadeou a descida do valor dos títulos, possivelmente muito antes do que poderia ser esperado e esse fator foi a emissão de títulos de uma das principais empresas em cuja alta de cotações estava a jogar, a apostar e esta empresa era a ViacomCBS. Como as suas ações estavam em alta, a ViacomCBS o que fez foi lançar uma nova emissão de milhares de milhões para obter dinheiro fresco e reequipar-se para concorrer com Netflix e Disney. Terá sido aqui a origem da crise da Archegos. Os títulos das empresas em cuja alta estava a apostar descem então, exige-se mais títulos ou mais dinheiro para cobertura de risco, a referida chamada de margem. Mas Hwang não tem capacidade de cobertura dessa descida e aqui estamos a falar de dezenas de milhares de milhões em exposições ao risco! No caso de Joe Berardo este vai entregando títulos do seu portfólio, ou seja, vai reduzindo a sua carteira de títulos ao entregar os que tinha como colateral, até que esta carteira terá ficado vazia. Tal como Hwang deixou de ser capaz de responder às chamadas de margem.

Joe Berardo, terá tido com um banco uma linha de crédito sob contrato de 400 milhões de euros. Desse banco terá levantado 300 milhões de acordo com o referido esquema, compra de títulos pelo banco, guarda de títulos pelo banco. Terá arranjado 315 milhões de garantias como colateral (300 milhões em ações BCP e 15 milhões em outros títulos) para levantar estes trezentos milhões. Por cada 100 milhões de empréstimos teriam sempre de ser colocados no banco 105 milhões como colateral. Como só levantou 300 milhões dos 400 milhões da linha de crédito, tenta levantar os 100 milhões de euros restantes da linha de crédito contratada.

Por contraponto ao que é habitual, imaginemos agora que o banco faz uma marginação dinâmica, dizendo que as condições de mercado mudaram e portanto as condições de colateral terão de se adequar a esta variação. E o banco diz a Berardo: queremos o subjacente como garantia mais uma garantia adicional mas pessoal a partir de ativos de uma qualquer das suas empresa se aceites por nós. Mesmo assim damos-lhe apenas 50 milhões e não 100 milhões. E o nosso Joe Berardo que fez ele? O BCP, para se proteger, tinha lançado uma emissão nova garantindo a opção de compra aos antigos titulares com um desconto de 50%. Pergunta-se: quem autorizou a nova emissão de capital e em que condições autorizou? Não sei, mas gostava de saber. Na nossa hipótese, Berardo levanta 50 milhões e deposita um colateral de 50 milhões de valor facial em títulos BCP comprados com esse dinheiro que lhe terá custado 25 milhões. Isto além do colateral pessoal. Os restantes 25 milhões deste levantamento, admito, terá sido utilizado para satisfazer garantidamente situações complicadas com um qualquer outro dos restantes bancos.

Mas os títulos descem vertiginosamente e ficam a valer o que vale o papel de mortalha de cigarro, papel para arder. A pressão dos bancos aumenta, um a um. Tomam conhecimento que o problema é geral, tal como aconteceu com Huwang. Neste último caso, face ao desastre, os grandes bancos mundiais reuniram-se a pedido do Credit Suisse. Nada feito, não houve acordo. Os americanos, Goldman Sachs Group Inc. e Morgan Stanley, vendendo imediatamente as posições que tinham sobre Hwang safaram-se. Aqui aconteceu o mesmo, isto é, Joe Berardo não podia satisfazer as chamadas de margem e os bancos também se reuniram. Os bancos nacionais envolvidos nestes empréstimos contratam um gabinete de advogados, assume-se como garante o património artístico de Berardo, um património fabuloso em coleções de arte. Simplesmente, quando este acordo se fez, Berardo já não era possuidor do referido património artístico. Os direitos de propriedade, como por magia esfumaram -se. E os bancos ficam a contemplar as nuvens no céu não as obras de arte de Joe Berardo. Bill Hwang faliu, ficaram os títulos e os ganhos em papel dos bancos acabaram por se esfumar, nada se podendo dizer de concreto quanto aos “eventuais ganhos” de Bill Hwang, porque se os houve ter-se-ão eclipsado, segundo insinuações do Wall Street Journal.  Publicamente faliu. Joe Berardo diz e prova ”legalmente” que não tem nada, não possui nada ! A mesma estranha coincidência.

Há, porém, uma enorme diferença, por exemplo entre os bancos mundiais e Archegos e entre os Bancos nacionais envolvidos com Joe Berardo. No primeiro caso, Goldman Sachs Group Inc. e Morgan Stanley, ao libertarem-se, e libertaram-se de facto, das exposições ao risco da Archegos, afundaram ainda mais rapidamente Archegos. Aqui, no caso português, se um dos bancos envolvidos nos empréstimos a Berardo fizesse o mesmo quando Berardo deixou de responder à chamada de margem para repor o colateral, o que poderia acontecer seria levar à falência o BCP e provocar uma corrida nacional aos bancos num momento difícil para a sociedade portuguesa. Quem seria capaz de assumir este risco? Se alguém o fizesse seria claramente acusado de sabotagem à economia portuguesa. Simplesmente isto, devemos reconhecê-lo.

Os grandes bancos portugueses caíram no negócio com Joe Berardo como caíram igualmente Credit Suisse Group, UBS Group AG, Goldman Sachs Group Inc., Morgan Stanley, Deutsche Bank e Nomura Holdings além de muitos outros em menor escala com Bill Hwang. E caíram por fazerem a mesma coisa, apostas de milhares de milhões, apesar de terem recursos em técnicos e em material de cálculo de risco incomparavelmente superiores aos detidos pelos bancos portugueses. Caíram porque andaram a conceder empréstimos para especulação financeira sobre empresas e sobre ações cujas cotações nada teriam a ver com os seus fundamentais.

Neste tipo de situação, o problema principal, se bem que muito importante, não é o banco A, B ou C, emprestar centenas de milhões não para as necessidades de investimento na economia, mas para serem jogados em apostas, e isto é grave. O problema principal é o de todo um sistema que enquadra, permite e estimula este tipo de operações, e as saúda quando há ganhos, pois estes bancos fazem o que todos os outros fazem, procuram os clientes sobre os quais podem receber bons spreads, tal como os bancos estrangeiros acima citados o fizeram com Bill Hwang. Mas isto também significa uma economia doente, não o esqueçamos, uma economia sem saída produtiva para a liquidez disponível.

No caso português esta prática, para além das normas legislativas que a enquadram, tem como base uma ideia dominante daqueles tempos, a de se criarem núcleos duros do capitalismo nacional, apoiando tudo o que fosse emissões de títulos, ações e obrigações, mascarado esse objetivo com a propaganda de criação de um capitalismo popular. Margaret Thatcher e o seu capitalismo popular com décadas de atraso. Os bancos faziam grandes aumentos de capital, captando grande parte das poupanças nacionais numa base popular, a dos pequenos investidores, hoje ditos investidores de retalho. Com esse dinheiro fresco os bancos tomavam posição sobre grandes segmentos da economia produtiva, indústria e serviços e com estas faziam novas emissões de títulos.

Controlar a economia real significaria ter de controlar grandes bancos nacionais. O efeito foi perverso quando por falta de dinamismo empresarial português esse dinheiro passou a ser capturado à economia produtiva e transferido para o setor financeiro, especulativo, onde ficava. E para a captação de receitas restava aos bancos captar clientes para as grandes apostas como as feitas com Joe Berardo. Quando se apoiava tipos como Joe Berardo e nos montantes falados. com o argumento de que se estava a criar um capitalismo nacional forte, estava-se a fazer exatamente o inverso: deslocando poupanças para o setor financeiro, reduzia-se a procura de bens e serviços, fragilizava-se o capitalismo que se queria forte. Em vez de um capitalismo forte, criou-se um capitalismo altamente enfraquecido e que ao mínimo abanão, por exemplo a crise de 2010, a da dívida pública, ficou desfeito em farrapos. O sistema vivia nesta ficção de um capitalismo forte, da necessidade de apoiar o setor financeiro e apoiar o sistema financeiro por todos meios, o que significaria dar-lhe meios para este fortalecer o setor da economia real e fortalecendo a economia real favorecer-se-ia os trabalhadores pela via do aumento dos salários. A isto, simplesmente chama-se tricke-down, ou seja, favoreçam-se os mais fortes que os mais fracos sairão beneficiados.  Este é o verdadeiro desastre que está por detrás destas práticas e os seus responsáveis mais importantes estão pois para além dos gestores bancários que foram os braços armadas desta orientação.

Para além de se procurar eventuais corrupções nestas práticas, que devem ser severamente punidas, e de se dever corrigir o regabofe das remunerações dos altos quadros da banca que são alimentados pelas portas giratórias entre o sistema financeiro e o poder político, e de que ninguém fala, não me parece correto andar agora a culpabilizar individualmente os gestores que fizeram então  o que todos procuravam fazer e respondendo a orientações de topo do sistema: procurar rentabilizar o capital disponível de que se dispunha.

Um outro problema importante é o do tipo de produtos que são comercializados, do sistema que os permite e muitas vezes sem nenhuma noção da complexidade dos mesmos como aconteceu em Wall Street na crise de 2008 e mesmo agora, o problema é também o das técnicas de determinação de risco, mas destas apenas subsidiariamente. Ligado a esta complexidade temos um outro problema que o caso Bernard Madoff pôs em evidência em Walll Street e que é um problema geral nas bolsas à escala mundial: a falta de preparação técnica dos reguladores e supervisores, e o que se tem visto é que têm sido incapazes de regular e de supervisionar.

Em suma, o quadro legislativo não estava à altura dos desafios que o sistema levantava, e não estava, como se viu, e se não havia técnicos à altura quer na supervisão quer na regulação, tudo isto resulta no que ocorreu: que a supervisão era uma peneira e quase sem rede, onde quase tudo poderia passar impunemente pelas suas malhas. E com tanta coisa à vista ninguém percebeu isso! Mas isto não nos permite aceitar a posição de Barack Obama, para quem o que os banqueiros fizeram em 2008 e anos seguintes não foi nada de ilegal, o que fizeram foi apenas imoral. Como se moralidade e legalidade em questões sociais e financeiras não devam andar de mãos dadas.

 

Moralidade e legalidade

Vale a pena recordar algumas coisas que ocorreram entre 2007 e 2010 na crise dita de subprimes porque são muito elucidativas do que acabamos de afirmar sobre moralidade e ilegalidade.

Sobre Fabrice Tourre e a Abacus 2007-AC1

Sobre o mundo das apostas selvagens noticiava o New York Times em 2007 (ver aqui):

Goldman Sachs cria a carteira Abacus 2007-AC1 para que o banco e alguns dos seus clientes, incluindo o gestor do fundo de cobertura John A. Paulson, possam apostar contra o mercado imobiliário. O complexo negócio é composto por uma espécie de apólice de seguro contra dificuldades de pagamento dos títulos emitidos por Abacus – swaps de incumprimento de crédito, os famosos CDS – cuja apólice é paga se as obrigações hipotecárias se depararem com problemas de pagamentos. Um colega do Goldman escreve a Fabrice Tourre, vice-presidente do banco, dizendo: “O negócio do C.D.O. está morto. Não nos resta muito tempo”.

Este CDO [collateralized debt obligation] tinha uma referência, a Goldman Sachs Abacus 2007-ACI, construída por encomenda de John A. Paulson, que terá pago à Goldman Sachs por esse trabalho 15 milhões de dólares. Na elaboração deste CDO está Fabrice Tourré, banqueiro da Goldman Sachs.

O matemático criador de produtos sofisticados Fabrice Tourre: Fabrice Tourre é um ilustre especialista em matemáticas sobre risco, diplomado por duas das melhores escolas à escala mundial, a École Central de Paris e por Stanford. Foi ele o criador de Abacus, um fundo da Goldman Sachs, especializado nos famosos CDOs sintéticos de má memória. Entre Janeiro e Março de 2007 lança o fundo Abacus de Goldman Sachs comercializando produtos financeiros estruturados tendo hipotecas por subjacente. Tratava-se de hipotecas, muitas delas podres, e pasme-se, escolhidas por Fabrice Tourre da Abacus e por Henry Paulson famoso milionário especulador que, a seguir, iria a jogar contra os títulos deste mesmo fundo. Depois da escolha, a estruturação dos títulos do CDO sintético Abacus, chamada a segmentação do valor global dos títulos por camadas diferentes de risco, era organizada por uma das mais reconhecidas empresas do mercado especializadas na segmentação de riscos, a ACA. De resto, segundo a SEC, a ACA foi encarregada dessa função pelo elevado prestígio que tinha no mercado financeiro e à ACA foi dito que os títulos CDO emitidos pelo fundo Abacus seriam adquiridos pelo multimilionário John A, Paulson.

Vejamos a posição de Fabrice Tourre sobre os produtos financeiros que produzia para a Goldman Sachs. O que a seguir reproduzimos são e-mails privados trocados entre ele e a sua companhia ou entre ele e um ou outro amigo. Curiosamente são estes e-mails privados que servirão de prova para a SEC o levar isoladamente a tribunal.

Declarações de Fabrice Tourre

  1. No início de Janeiro [de 2007] escrevia: “Todo o edifício está em perigo de ruir a qualquer momento… O único sobrevivente potencial é o Fabuloso Fab[rice Tourre], no meio de todas estas transações complexas, altamente alavancadas e exóticas que Fab criou sem necessariamente compreender todas as implicações destas monstruosidades!!!

De qualquer modo, não me sinto culpado por isto, o verdadeiro objetivo do meu trabalho é tornar os mercados de capitais mais eficientes e, em última análise, proporcionar ao consumidor americano formas mais eficientes de aceder ao crédito e ao financiamento, pelo que existe uma justificação humilde, nobre e ética para o meu trabalho; é espantoso o quanto me convenço”, diz Fabrice Tourre num e-mail para Marine Serres escrito em Janeiro de 2007.

  1. Ainda no início de 2007 escrevia a um amigo que temia que o produto que ajudou a desenvolver se desmoronasse. “É estranho, sinto-me como se viesse trabalhar todos os dias e todos os (dias) passo pela mesma provação – como um sonho mau que se repete”.

“Basicamente, estou a negociar um produto que valia 100 dólares há um mês e que agora vale apenas 93 dólares e perde uma média de 25 cêntimos por dia (…) Apresentado assim, não parece muito, mas quando se pensa que estamos a comprar e a vender este material com valores nominais de vários milhares de milhões, começa a representar muito dinheiro”. E acrescenta:

“Quando penso que fui eu quem participou na criação deste produto (que, a propósito, é um produto puro de masturbação intelectual, o tipo de coisa que se inventa dizendo para si próprio: “e se criássemos uma ‘coisa’ que não serve absolutamente nenhum propósito, que é completamente conceptual e altamente teórica e que ninguém sabe como fixar o seu preço?). É um pouco como Frankenstein a virar-se contra o seu inventor”.

  1. Fabrice Tourre conta também como conseguiu vender CDOs (obrigações de dívida colateralizadas), produtos que estão no centro da investigação de fraude da SEC. A SEC está a acusar a Goldman Sachs de fraude ao reter informação chave para os investidores na venda de CDO’s “Abacus”. “Acabei de chegar ao país dos vossos clientes favoritos (ed. note: Bélgica)!!! Acabei de vender alguns títulos Abacus a viúvas e órfãos que conheci no aeroporto, estes belgas adoram realmente os CDOs sintéticos ABS“, escreveu Fabrice Tourre em Junho de 2007 (ver aqui).
  2. Em Março de 2007 escrevia: “O resumo da situação não é muito agradável para o mercado subprime dos EUA… Segundo Sparks, ( o diretor dos produtos sobre imobiliário da Goldman Sachs este segmento de negócio está totalmente morto, e os pobres mutuários pouco solváveis não vão resistir muito tempo! Tudo isto me dá ideias sobre o meu futuro a médio prazo, pois não pretendo esperar pela explosão total do sector e pelo início das operações em catástrofe”…

 

Sobre as agências de rating

Sobre as agências de rating, relembro a Standard & Poor’s, um dos carrascos dos países da Europa do Sul aquando da crise da dívida pública 2010-2015 e que reflete bem o mundo selvagem que são os mercados financeiros. Relembro aqui o que eram as agências que classificavam os CDOs e que, por essa via, garantiam a credibilidade dos títulos que eram comercializados. O nível AAA era a referência de nível mais elevado.

Assim, e em particular sobre a Standard & Poor’s, vejamos excertos de artigos publicados no Le Monde de Maio de 2007 e na revista L’Express de Abril desse mesmo ano onde se reproduzem os seguintes e-mails trocados entre funcionários da Standard & Poor’s:

Quando analisamos Abacus, compreendemos porque é que a responsabilidade das agências de notação é tão debatida: elas estão no centro desta “alquimia” que permitiu transformar títulos classificados BBB ou pior numa única “garantia” e “sintética” que beneficia do sésamo AAA. A pior parte, segundo os peritos, é que estas chamadas obrigações “não são obrigações”. São apenas derivados de obrigações de dívida, produtos especulativos que, como os derivados de ações e outros, nunca deveriam ter sido classificados. Em vez disso, a palavra “obrigação” foi usada como “isco de marketing”. Sugeria que se tratava de um investimento seguro. A classificação AAA confirmou isto…

 

Sobre os CDO’s do imobiliário avaliados em função do “risco de perder contratos de notação de risco”

Em Maio de 2004, um vendedor da Standard & Poor’s escreveu num e-mail interno que “acabámos de perder um grande negócio a favor da Moody’s (…) Perder um ou mais contratos de notação de risco por questões de critérios… Isto poderia ter um impacto em futuras transações”.

Em Agosto, outro e-mail da agência é ainda mais direto: “Teremos uma reunião (…) para discutir o ajustamento dos critérios de classificação dos CDO imobiliários devido ao risco contínuo de perder contratos de notação de risco“.

Estes e-mails revelam até que ponto bancos como o Goldman estavam a exercer pressão sobre as agências de notação de risco para que estas adaptassem os critérios para se obter a classificação máxima nos CDO. Mas parte da razão pela qual bancos como o IKB investiram no CDO Abacus foi exatamente porque este tinha o selo de aprovação triplo AAA.

 

Sobre os reguladores e supervisores

Quanto aos reguladores e supervisores: o prospeto da Abacus mostra-nos uma curiosidade bem estranha, ou melhor, mostra-nos que o sistema de regulação e supervisão era uma enorme peneira sem rede onde passava tudo ou quase tudo.

Num dos quatro capítulos do contrato Abacus dedicado aos “Factores de Risco”, adverte-se sobre “certos conflitos de interesse relacionados com a Goldman Sachs e as suas filiais”. O parágrafo 3 declara que “a Goldman Sachs está atualmente em condições e poderá no futuro participar neste contrato em ambos os lados do mercado e manter posições longas ou curtas” (isto é, apostar na subida ou descida das acções…). Mais adiante, lemos que “a Goldman Sachs pode ter potenciais conflitos de interesse”. Afirma-se que a GS pode ter informações que “não pretende divulgar publicamente” e que a apresentação aos compradores “pode não conter todas as informações relevantes para a avaliação dos méritos e riscos” do CDO.

Numa entrevista recente à Bloomberg, Michael Lewis, autor do livro mais vendido The Big Short, afirmou: “Os efeitos sociais da ação da SEC serão maiores do que as suas consequências legais. Tal como houve uma altura em que se podia fumar num avião ou beber e conduzir sem nos sentirmos culpados, um dia pensaremos na altura em que, em Wall Street, um operador em bolsa poderia “fabricar” um título para apostar no seu fracasso, enganar e subornar as agências de rating para que estas abençoassem estes títulos, e depois vendê-los a um banco alemão de espírito lento sem ter de se preocupar mais com isso“. Ábaco é o arquétipo deste processo.

 

Sobre a poesia em tribunal…

Fabrice Tourre foi levado a tribunal. A ACA foi considerada vítima de Fabrice Tourre e, portanto, ficou livre de qualquer culpa pelo trabalho que fez de montagem de Abacus.

Fabrice Tourre defendeu-se em tribunal contra o advogado da SEC com a poesia! Relatam-nos os jornais da época:

O metódico Matthew Martens, advogado da SEC, quer retratá-lo como um operador em bolsa, cínico e desiludido, que enganou deliberadamente os investidores, especialmente a ACA, a empresa que decidiu sobre a carteira de títulos que era a substância do CDO sintético ABACUS. Ele pega no infame e-mail no qual “Fabuloso Fab” se gaba à sua namorada de criar “monstruosidades” financeiras. “Eu não criei monstruosidades. Era um e-mail romântico numa altura em que o mercado estava sob enorme pressão”, diz ele. Ao juntar-se a ela na Europa, escreve noutro e-mail que “vendia títulos Abacus às viúvas e aos órfãos no aeroporto”. “Lamento profundamente esta mensagem”, responde. O advogado mostra-lhe agora um poema em que Fabrice Tourre escreve “na sala de mercados, sonhamos com a glória”, para mostrar aos jurados a sua luxúria por dinheiro. “É um poema estúpido, inspirado por uma canção francesa”. Envergonhado, o francês, no entanto, nada concede sobre o essencial. “Nessa altura, era inconcebível que houvesse qualquer mal-entendido sobre as intenções de Paulson”, diz ele sobre os primeiros meses de 2007, quando Ábaco foi por ele concebido. Quando lhe é apontado que nada fez para corrigir a falsa impressão da ACA de que Paulson queria investir contra o Abaco e não na compra dos títulos Abacus, ele defende-se a si próprio. “Eu não me propus confundir ninguém”. Ao sair da caixa, recebe uma palmadinha nas costas do seu segundo advogado, Sean Coffey, claramente satisfeito com as acrobacias orais do seu cliente.[1]

 

John A. Paulson ganhou só nesta operação de aposta feita contra Abacus um milhar de milhões e foi considerado o Investidor do Ano !

 

Tudo isto nos mostra o absurdo da afirmação de Obama, que o que foi feito não tem nada de ilegal, foi apenas imoral, tudo isto nos mostra que é o sistema como um todo que deve ser revisto de alto a baixo, nas suas regras, nos seus objetivos, nos seus conteúdos e nas suas práticas, e em que as fraudes, quando as haja, tenham claramente responsáveis que devam ser claramente punidos. Em vez disso, temos assistido a uma eliminação da oposição entre legalidade e moralidade, o que conforta muita gente, eliminando os dois dados do problema, o primeiro, a legalidade, utilizando por tudo e por nada o conceito de prescrição, o segundo dinamizando os mecanismos que fazem do dinheiro ou do ter ou não ter a referência social. O mundo às avessas é o que as citações acima reproduzidas nos mostram.

 

A necessidade de mudança radical do sistema

Esperamos ter deixado claro que, em suma, estamos perante um conjunto complexo de problemas a resolver, de objetivos a alcançar, um complexo de questões e respostas que exige equipas pluridisciplinares com um forte domínio técnico dos mercados financeiros, da matemática, da economia, da história, mas certamente com conhecimento e domínio da Ética, a exigir o empenho de muitos polímatas e de que cada vez temos menos.

A terminar, diremos que tem razão John Bogle quando nos diz que para fazer o que faz de útil Wall Street precisaria apenas de estar aberta uma semana. Entretanto pagam-se ordenados milionários a quem, segundo Bogle, de útil trabalha uma semana por ano. Veja-se a última tabela de remunerações do Montepio, um banco em dificuldades:

Remunerações para os crentes nas virtudes dos mercados, diremos, quanto a estas remunerações, que são simplesmente demais. E muito demais são quando o seu trabalho é estar a jogar no casino como se mostra com Joe Berardo. E tudo isto tem um nome que não escrevo. Não é o nome que lhes deu António Costa e Centeno quando disseram que se querem boas equipas de futebol devem-se-lhes pagar bem. Sendo remunerações fortemente abusivas e muitas das vezes pagas por dinheiro dos contribuintes como ainda agora é o caso com o Novo Banco, não, a esse nível o adjetivo é bem outro, e o desporto é também outro: pode nalguns casos merecer mesmo prisão.

Culpem os administradores que quiserem, haverá alguns que deverão obrigatoriamente ser escrutinados sobre o que fizeram, sobre o que fazem e sobre o que ganham, não tenhamos dúvidas, mas culpem primeiro o sistema e os responsáveis que técnica e ideologicamente o alimentam, com estes últimos a terem de ser os primeiros a responder por este tipo de práticas bancárias e pelos enquadramentos jurídicos que as suportam. Depois de culparem os principais responsáveis pelo sistema financeiro que produziu estes gestores protegidos com paraquedas dourados bem ilustrados pela tabela remuneratória acima, escrutinem também o quadro legislativo que permite estes mesmos paraquedas dourados e levantem a questão da conformidade porque mesmo nesta matéria deverá haver muita a dizer. Poder-se-ia mesmo pensar, por exemplo, em estabelecer uma grelha salarial, um intervalo de variação, das remunerações dos altos quadros da Administração dos bancos a ter em conta o nível socioeconómico do país e a referência deste nível seria o salário médio. Culpem também os governos, responsáveis em última instância, por todo este sistema e pela forma como funciona. Em suma, culpem todos os que são responsáveis de que haja tanta gente e tantos recursos materiais a serem colocados num trabalho socialmente inútil, logo a serem desperdiçados, como o descreve o criador de Vanguard, o lendário investidor americano John Bogle.

 


Nota

[1] Em Março de 2014, não obstante os prejuízos causados, Fabrice Tourre viu a sua condenação por fraude ser reduzida para 825 mil dólares por uma juíza do tribunal de Manhattan, pelo caso Abacus, um processo judicial que tivera início em 2010, e proibido de trabalhar nos mercados financeiros por um período de três anos. Mas Tourre recuperou rapidamente: desde 2018 é professor na Escola de Comércio de Copenhaga, após se ter doutorado em 2017 na Universidade de Chicago. (ver aqui e aqui)

 

 

 

 

 

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