CARTA DE BRAGA – “palavras e circunstâncias” por António Oliveira

 

Cuba Resiste!, por Frei Betto

Correio da Cidadania, 13 de Julho de 2021

Selecção de João Machado

As palavras circulam à nossa volta, vindas das mais diversas fontes, às vezes até as aprendemos, mas a maior parte das vezes e, da maioria, não sabemos quem é o dono, ou nem o queremos saber, mas mesmo assim agarramo-las, soltamo-las, voltamos a agarrá-las e com elas dizemos e mostramos e a nossa maneira de estar no mundo, satisfeitos ou tristonhos, por vezes com elegância e outras interesseira, astuta ou abruptamente e, não raro, desajeitada ou infortunadamente.

Mas quase nunca reparamos que atrás delas também ‘mora’ uma estória que lhes aponta e assinala a origem e lhes dá sentido, muito para além do significado e que, até nos pode ajudar a perceber melhor onde estamos e porque estamos, como podemos e devemos ‘estar’ porque, na realidade, o que nos define é a capacidade de saltar e ultrapassar dificuldades e de sobreviver, sabendo interpretá-las, da mesma maneira que também devemos dar valor aos silêncios que as separam.

E hoje, com esta pandémica e sinistra sequência de números, infectados, atendimentos e escalões etários, regularmente atravancada pela palavra ‘liberdade’, estou a chegar à confirmação de que não se pode nem deve usar e, muito menos assumi-la, se não for acompanhada por atitudes inteligentes, sejam quais forem os referidos escalões, de quem decide arrogar-se o direito de a reclamar.

Na verdade, no pequeno mundo das nossas atitudes e relações individuais, com mais ou menos amigos, incluindo os dos ecrãs, a tal ‘liberdade’ deve ter sempre atrás as noções de comunidade, igualdade, partilha e solidariedade, sem as quais não é possível assumir a pertença a uma qualquer sociedade.

E para documentar esta Carta, fui buscar dois exemplos aos jornais, que muitos devem ter passado por cima pelo pouco interesse do assunto, ou por terem sido atraídos por outras notícias mais apelativas por terem jornais e canais com programas próprios, linguagem e horários especiais, que não ‘autorizam’ a leitura destas ninharias.

Mas nelas se contam, com palavras simples, dois factos inusuais, pelas pessoas e razões envolvidas, tão fora do vulgar, que me levaram a trazê-los para aqui:

– Um professor do Instituto Tecnológico de Massachussets, comprou uma cama de viagem para bebé para instalar, no seu gabinete, a filha de poucos meses de uma das suas alunas de doutoramento, para ela não interromper os estudos, pois o marido já tinha acabado a licença de pós-parto e teve de voltar ao trabalho. Assim a jovem mãe podia cuidar da menina sempre que fosse necessário, sem prejudicar os estudos que fazia no MIT.

Não queiram saber o encanto que é brincar com a menina, filha da minha aluna’ escreveu no Twitter, a que juntou uma foto dele com a menina nos braços. E, depois da avalancha de likes, voltou a escrever que a real protagonista da estória, era a mãe estudante e não ele.

– Uma jornalista partilhou, a chorar, uma carta escrita por um sobrinho de sete anos, dirigida aos avós, falecidos havia um ano e, como também me tocou profundamente, aqui a transcrevo – ‘Avô e Avó, espero que estejam muito bem. Quero que me desenhem como é o infinito para saber que estão bem. Também quero saber se são deuses’. Esta carta simples, escrita com ideias e palavras ingénuas e simples também, foi deixada em cima da mesa da sala, juntamente com umas bolachas para a Avó e algumas azeitonas para o Avô.

Duas estórias que, ‘mesmo tão diferentes!’ mostram bem a importância dos gestos e atitudes, dentro do pequeno mundo de cada um, por só eles marcarem e fazerem do ser humano um autêntico sobrevivente, com mais de duzentos mil anos.

Aliás, já no século XVII, John Locke deixou escrito, ‘Os homens sempre se esquecem de que a felicidade humana é uma disposição da nossa mente e não uma condição das circunstâncias’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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