Em Viagem pela Indochina – IV Vietname (2), por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina

IV – Vietname (2)

Segundo dia no país

por António Gomes Marques

 

Iniciámos a programada visita a Hanói pela Cidade Antiga, a área da cidade conhecida pelo Bairro Antigo ou 36 ruas, onde a arquitectura colonial é muito evidente. Lembremos que é uma cidade com mais de mil anos!

O percurso foi feito de riquexó. Confesso que não me senti muito bem ao verificar que eu e a Célia éramos levados por um vietnamita magricela — pelo exercício que faz todos os dias, naturalmente, mas não por se alimentar mal —, à força de pedais, posição minha que não teve o acordo do condutor, feliz por poder cobrar mais uma viagem:

F otografia AGM (pela minha posição, nota-se que o telemóvel está à distância que o braço permite)

E lá fomos por aquelas ruas estreitas, fascinantes, cruzando-nos com carros e muitíssimas motas, «scooters» e bicicletas, mas num trânsito onde não há direita e esquerda como estamos habituados, sobretudo com as motas e com as «scooters», mas também com os carros, a passarem por onde há espaço, no mesmo sentido ou em sentido contrário, método de condução este que se mantém nos cruzamentos, connosco à espera de um acidente, acidente esse a que nunca assistimos em todas as cidades em que estivemos. Quando falávamos deste verdadeiro caos nas ruas das localidades vietnamitas, os locais riam-se e diziam-nos para não nos preocuparmos dado que todos os condutores sabiam o que faziam. Fizeram-me uma recomendação, para o que os guias já haviam alertado: “Quando quiser atravessar uma rua, não tenha medo, siga sempre a direito e não corra”. Verifiquei que esta recomendação foi um bom conselho que ali me foi dado; os carros paravam se necessário, as motas e as «scooters» passavam por detrás de mim ou pela minha frente sem me tocar e sem pararem. Só vivendo a situação, como eu vivi, se acredita!

Os passeios das 36 ruas eram pejados de motas e «scooters» e de algumas pequenas esplanadas, de um lado e outro das ruas podemos ver as mais variadas lojas, desde as que vendem produtos alimentares, naturalmente a deliciosa comida vietnamita como depois pude verificar, a lojas que vendem fruta apenas e outras que vendem produtos artesanais, muitos deles virados para o visitante, assim como pequenas oficinas de motas e «scooters» e mesmo lojas que as vendem, lojas que vendem sapatos, outras a venderem malas ou chapéus. Para não falar de todo o tipo de lojas que ali pode encontrar-se, o que seria muito cansativo para mim e para o leitor. Imagine um produto qualquer de que, em determinado momento, tem necessidade, a solução é dirigir-se a uma das 36 ruas da Cidade Antiga com a certeza de que encontrará uma loja onde poderá adquiri-lo. Já me haviam falado deste bairro e, ali, pude verificar que a expectativa com que ia foi superada.

Fotografia AGM

Percorridas algumas das 36 ruas, o grupo foi encaminhado para o Lago Hoan Kiem, onde pudemos visitar o Pagode Tran Quoc, que, segundo o guia, é o mais antigo de Hanói, com quase 1.500 anos.

Fotografia AGM

O Chua Tran Quoc, para usar a designação vietnamita, foi construído no reinado do Imperador Ly Nam De, que ocupou o poder de 541 a 547 da nossa era. Foi edificado na pequena aldeia de Y Hoa, muito próxima do Rio Vermelho, e, para evitar a erosão de que começava a sofrer, foi mudado para o actual local, na pequena ilha de Kim Ngu (Peixe de Ouro), no lago Oeste ( Ho Tay), o maior lago e um dos mais belos de Hanói, no ano de 1615 ou 1616. Do Imperador voltaremos a falar, assim como das suas lutas contra os chineses, no capítulo que dedicaremos à história do Vietname.

Acede-se ao recinto onde está o Pagode graças à acção humana, que transformou a pequena ilha numa península, como a fotografia atrás mostra, sendo a entrada para o recinto pela porta que a fotografia abaixo reproduz.

Fotografia AGM

Consta que a “sua história está intimamente ligada à aparição do primeiro Estado vietnamita «Van Xuan», donde provém o seu primeiro nome «Khai quoc» (Fundação da nação) que se alterará para «An Quoc» (Paz da nação) sob a dinastia do rei Le Thanh Tong (1434-1442) e depois para «Tran Quoc» (Defesa da nação) sob a dinastia do rei Le Hy Ton (1680-1705).” (1)

Tran Quoc chegou a desempenhar o papel de maior centro do Budismo da cidade de Thang Long, tornada capital do reino em 1010, por decisão de Ly Thai To, nos arredores da actual Hanói.

O Pagode Tran Quoc, de cor vermelha, tem 11 andares e ainda, no topo, um lótus de 9 andares de pedra preciosa.

A «stupa» principal tem 15 metros de altura, com os 11 níveis e, nas janelas abobadadas de cada um destes andares, pode ver-se, em cada uma delas, uma estátua do buda Amitaba (ou Amithaba ou Amida), que é um dos cinco Budas da Meditação, tendo «um especial comprometimento com a iluminação de todos os seres, sendo conhecido como o buda da transferência da consciência na hora da morte e da passagem pelo bardo (2), sendo objectivo dos que o cultuam alcançar a iluminação ou renascer na Terra Pura (3) de Amitaba, onde se alcançaria a iluminação.» (4) À volta da «stupa» podemos ver várias estátuas, recipientes com queimadas de incenso, um museu com milenárias relíquias históricas e um templo budista.

O buda Amitaba pode ser representado com três cabeças e longas barbas ou com uma cabeça de leão ou, como é o caso do que pudemos ver nas referidas janelas abobadadas, sentado com as pernas cruzadas. (5)

Como perdi as várias fotografias que tirei no templo e noutros locais, mistério inexplicável, vou tirar algumas fotografias do filme que fiz de toda a viagem, como a que se segue:

Fotografia AGM (retirada do filme)

Fotografia AGM

A fotografia abaixo reproduzida mostra a árvore da vida, da sabedoria e da iluminação, como é considerada no budismo, árvore essa que pode ver-se no jardim do recinto onde está hoje colocado o Pagode Tran Quoc. É, portanto, considerada como uma árvore sagrada, pois, segundo reza a história do budismo, foi à sombra de uma figueira que Buda atingiu a iluminação, representando para os seguidores desta religião a ligação entre o céu, a terra e o submundo, ou seja, as folhas crescem em direcção ao céu, o seu tronco está relacionado com a terra e as suas raízes encontram-se no submundo. (6)

Uma figueira sagrada que terá sido oferecida pelo Presidente indiano em 1959 (árvore da vida)
Fotografia AGM (retirada do filme)

Visitado um dos monumentos mais significativos do Vietname e de toda a Indochina, é chegado o momento de nos despedirmos e partirmos para outras visitas; no entanto, há que registar o momento e, assim, quem sabe?, eu e a Célia ficarmos «imortalizados» com a benção de Amitaba.

Fotografia de alguém do grupo

O grupo foi levado a visitar uma oficina de produtos de laca, Thu Huong, Hanoi Lacquerware, onde a Célia e eu nos deslumbrámos, assim como muitos dos companheiros de viagem.

A 40 km de Hanói há uma aldeia de laca, de onde são originários os proprietários desta oficina. Aqui trabalham alguns artesãos naturais da mesma aldeia produzindo os quadros em exibição no local, mas na localidade trabalham umas centenas de artesãos produzindo a maioria dos quadros em exibição nesta oficina da capital do Vietname, quadros esses que têm muita procura, sendo uma significativa percentagem exportada .

Como a Senhora que nos atendeu nos disse, no que me pareceu um perfeito castelhano, oferecendo-me no final uma folha A4 com as mesmas explicações, a laca utilizada nos quadros é a resina extraída da árvore de… laca, árvores existentes em abundância no Norte do Vietname. Estes quadros ganharam uma importância tal que se tornaram na Arte Nacional do Vietname.

Fotografia AGM

Segundo a informação recebida, de que me vou servir, têm três linhas de produtos: a pintura, a madrepérola e a casca de ovo, mas também a combinação dos três tipos. Na fotografia acima, vemos o exemplo da madrepérola; na fotografia que a seguir se reproduz, vemos a mistura dos três.

A laca protege a madeira, mas também torna a superfície brilhante e lisa.

Na pintura, cobre-se o suporte em madeira com várias camadas de laca e, depois, pinta-se nessa superfície o desenho previamente concebido, pintura essa que é coberta com mais 5 camadas de laca, sendo de seguida lixada com água para que fique suave e brilhante.

No quadro nacarado, ou seja, que tem o brilho da madrepérola, utilizam conchas que partem de modo a conseguir diferentes formas, como se vê na fotografia acima, seguindo o artesão o desenho que tem à sua frente. Depois, acrescentam cerca de 19 camadas de laca para equilibrar a superfície de fundo e os pedaços de concha que utilizaram para o desenho, lixando por fim com água até que a superfície fique suave e brilhante.

No quadro com casca de ovo, quebra-se a casca em pequenas peças, algumas muito pequenas, e colocam-se de acordo com o desenho que se pretende reproduzir no suporte, acrescentando pigmentos de modo a colorir o quadro das cores necessárias, quadro esse que leva 15 camadas de laca e que é polido para o tornar suave e brilhante.

Fotografia AGM
Os artesãos no seu labor quotidiano (Fotografia AGM)

Os motivos dos quadros variam entre pinturas de um só tipo ou misturando os três tipos que descrevi, como o quadro acima, e cenas do quotidiano, no campo, nos rios, com os característicos barcos e os pescadores, e outras cenas do campo, com agricultores. As cores também variam. Olhemos para a beleza dos dois quadros a seguir reproduzidos:

Fotografia AGM

Os vietnamitas usam estes quadros para decorar as suas casas e os Ministérios da Cultura e Turismo, da Defesa Nacional e dos Negócios Estrangeiros oferecem-nos nas habituais trocas de presentes com os políticos que visitam o Vietname. Muitos dos estrangeiros que visitam o país também compram; eu e a Célia não resistimos, embora fosse muito difícil a escolha!

Não posso deixar de mostrar outro quadro, em que à beleza da pintura se junta a beleza da Senhora que tudo foi explicando sobre esta maravilhosa arte vietnamita:

Fotografia AGM (retirada do filme)

A tudo que digo acima sobre a substância resinosa que se chama laca, há algo a acrescentar. Essa substância é produzida «pela secreção de insetos como o Coccus lacca. Os cadáveres das fêmeas fixados nos troncos, misturados com o látex sangrado das árvores, dão origem a uma resina de cor vermelha. As principais árvores em que se fixa o inseto que produz a laca são: Rhus succedanea, Rhus Vernicina, Melanorhoea laccifera, Ficus indica, Ficus religiosa, Dryanda cordata e Rhamnus jujuba, árvores que se encontram nas florestas da península da Indochina, (…). O primeiro português a definir a laca como uma produção animal foi Garcia de Orta, embora se tenha enganado quanto ao modo como era produzida e quanto à espécie que a produzia.» (7)

Da oficina Thu Huong seguimos para o Museu de Etnografia do Vietname, onde de imediato o visitante é confrontado com as variadíssimas etnias que fazem parte da população do Vietname, estando identificadas 54, entre as quais os nossos conhecidos H’mong, de que muito falei no texto sobre o Laos.

Estando o Vietname situado na parte oriental do Sudeste da Ásia, «uma região tropical de monções – é um ponto de convergência de diversas etnias, uma encruzilhada de diversas civilizações. O seu relevo bastante acidentado com regiões montanhosas, planícies e costas é outro factor de complexidade étnica. (8)

«A importância das populações varia consideravelmente de uma etnia para outra: 87% da população nacional para os Kinh ou Viet, cerca de um milhão para os Tay, Thai, Muong, Hoa, Kho-me… e simplesmente algumas centenas para os O-du, Ro-mam…» (9). Grande parte destas etnias são originárias da China.

Por estas pequenas transcrições podemos verificar a complexidade da constituição da população que habita o Vietname, percepção que logo tive quando me chamaram a atenção para esta realidade.

Apenas um pormenor do cartaz que representa as etnias do Vietname (fotografia AGM)

Disse o guia que este Museu é um dos mais considerados na Ásia. Se o é ou não, não sei; no entanto, a qualidade na apresentação do seu espólio é muito alta, o que justificará os milhares de visitantes com que já conta.

Os objectos expostos são cerca de 15.000, para além de quase 40.000 fotografias e muitos documentos audiovisuais.

As peças expostas no Museu mostram claramente a diversidade étnica e cultural do Vietname, que já referi, sendo claramente maioritária, 87%, a etnia Viet (ou Kinh). É impossível reter imagens de todos os objectos ali expostos, mas há uns tantos que me ficaram retidos na memória, para além dos vários tipos de habitação expostos no exterior, de que abaixo se mostra um exemplar, havendo outros tipos, mas não posso mostrar todos os que vi. Lembro particularmente as cítaras, as saias dos H’mong, as bonecas dos rituais dos Viet, os vários tipos de chapéus característicos do país, cujas imagens têm corrido o Mundo, sobretudo a partir da Guerra do Vietname, que opôs aquele povo heróico ao imperialismo americano e a alguns seus aliados.

Na nota 9, recomendo a visita a um site que mostra uma extensa reportagem fotográfica sobre este Museu de Etnografia, dado que não quero encher o texto de fotografias, limitando-me a reproduzir mais quatro das que tirei no Museu:

Fotografia AGM

Fotografia AGM

Também na parte exterior do Museu, fui surpreendido por um conjunto erótico de estátuas de madeira, cinzeladas, de que dou um exemplo na fotografia que a seguir se reproduz.

Fotografia AGM

 

A cerca de que se vê um pormenor, está repleta de esculturas semelhantes, algumas bem mais explícitas.

Se estas estátuas nos lembram a vida, também não deixamos de lhe associar a inevitável morte, simbolizada na fotografia seguinte, que mostra os singulares sepulcros que no mesmo local podem ser vistos. Há outros, mas das fotografias que obtive esta pareceu-me a mais representativa.

Fotografia AGM

Seguiu-se o Templo da Literatura.

Este templo é dedicado a Confúcio, o célebre filósofo chinês que viveu entre 552 e 479 antes da nossa era (a. n. e.). Foi o imperador Ly Thanh Tong que o inaugurou em 1070 e, seis anos depois, passou a funcionar ali a primeira universidade do país, dedicada ao estudo de poesia, literatura e, como parece evidente, ao confucionismo; no entanto, apenas os nobres tinham acesso a esta universidade.

Belos jardins e os vários edifícios também com beleza arquitectónica, com cinco pátios cheios de motivos que atraem a atenção do visitante, como portais e altares.

Um pormenor (Fotografia AGM)

Continuo a usar o filme da viagem para algumas reproduções, como a que se segue:

Um aspecto do interior, Poço da Clareza Celestial (Fotografia AGM, retirado do filme)

Para além de haver um templo dedicado à Literatura, o que não estou habituado a ver, o local é de uma grande beleza, transmitindo-me uma grande tranquilidade e uma vontade de percorrer todos os seus cantos. Depois, há outros pormenores, que nada têm de ocidentais, que me encantam. Um exemplo: no templo, há também um lago rodeado de alguns edifícios que a fotografia acima mostra, no terceiro pátio, o que para nós, no Ocidente, não passa de um lago com muitas carpas, bem enquadrado no local em que está situado, mas, para os vietnamitas, esse lago é o Poço da Clareza Celestial.

Um dos edifícios que mais me chamou a atenção é o que ainda contém 82 das 112 Estelas das Tartarugas, que ali foram nascendo entre os séculos XV e XVIII, sendo consideradas as principais relíquias do templo.

«Independentemente da formatura, os estudantes costumam dar uma passadinha no Templo da Literatura, sempre que têm uma prova, um teste importante, na escola. Para eles, a antiga universidade inspira e dá sorte. Melhor ainda se passarem a mão na cabeça de uma tartaruga “sagrada”. Na verdade, as tartarugas são pedestais para as inscrições sobre os acadêmicos que passaram nos exames do Van Mieu — nomes e detalhes pessoais». (10)

Pormenor do edifício com as Estelas de Tartaruga (Fot. AGM, retirado do filme)

Outro dos edifícios que chama a atenção é o que contém o Altar de Confúcio, a Casa das Cerimónias, talvez o mais nobre de todo o conjunto, onde predomina o vermelho e dourado que a fotografia seguinte mostra:

Fotografia AGM, retirada do filme

Repare-se agora no instrumento de cítara monocórdio na fotografia seguinte, chamado «dan bau», instrumento cujo som, segundo o guia, repercute a alma do Vietname, som esse que, assim como o sorriso da solista, guardo na memória. É um instrumento marcante da cultura nacional do Vietname, ao longo da sua história:

Fotografia AGM, retirada do filme

De tal modo o instrumento me encantou —e a solista, claro!— que não resisto a dar a conhecer ao leitor o que se diz na transcrição seguinte:

«O “đàn bầu”, também conhecido como “Độc Huyền Cầm” é um dos instrumentos musicais mais típicos do Vietname e até do mundo mas com um desenho muito simples. É feito de materiais próximos do quotidiano vietnamita, como bambu e casca de abóbora. Dantes, o bambu era usado para fazer a parte principal da cítara, mas hoje é feito com uma caixa de madeira rectangular de um metro de comprimento. A primeira extremidade inclui um octeto feito de casca de abóbora, enquanto a outra mais pequena segura a corda perpendicular a uma haste que serve para ajustar o tom do monocórdio. Enquanto isso, o ressonador é feito de pedúnculos de abóbora ou madeira torneada de forma semelhante ao desta fruta. Quanto à produção da vara, normalmente de 50 a 70 centímetros, são utilizados materiais tradicionais como o bambu elástico e, actualmente, é possível optar pelo chifre de búfalo, enquanto as cordas são feitas de seda ou ferro. Ao tocar o “đàn bầu”, utilizam-se os dedos, as unhas ou uma palheta em combinação com a manipulação da varinha flexível para criar ritmos claros e atraentes, destacando a singularidade da cítara vietnamita mundialmente conhecida. No mesmo sentido, o instrumentista Kim Thanh revelou: “A originalidade do “đàn bầu”está nos seus sons harmónicos. Possui duas partes principais, uma para criar o som e outra em forma de uma varinha que serve para ajustar o tom da cítara. Ao contrário de outros instrumentos de corda como a guitarra, o monocórdio vietnamita é tocado usando as mãos como traste para obter uma nota”». (11) Como não resisto a copiar a pintura que se segue:

Pintura de uma instrumentista do monocórdio vietnamita (12)

A finalizar a referência ao Templo da Literatura, reproduzo uma fotografia da maquete:

Maquete do Templo da Literatura (Fot. AGM, retirada do filme)

A visita à capital continua, sendo o grupo dirigido de seguida para a Praça Ba Dinh, onde Ho Chi Minh proclamou a independência do Vietname, local em que se construiu o Mausoléu dedicado ao grande líder.

O autor, em frente do Mausoléu (Fotografia Célia Marques)

Neste Mausoléu, cuja construção se iniciou pouco depois da sua morte, está o corpo embalsamado do líder adorado pelo povo vietnamita, a exemplo do que fizeram na União Soviética com Lenine, sendo de salientar que os dirigentes vietnamitas não respeitaram a vontade de Ho Chi Minh, que terá manifestado a vontade de ser cremado. No seu testamento, que não fala do desejo de cremação, revisto pela última vez quatro meses antes da sua morte, escreve:

« SOBRE ASSUNTOS PESSOAIS, por toda a minha vida servi à minha pátria, à revolução e ao povo com todas as minhas forças e com todo o meu coração. Se agora devo deixar este mundo, não tenho nada de que me lamentar, exceto de não ter sido capaz de servir mais e melhor.

Quando já tiver ido, para não desperdiçar o tempo e o dinheiro do povo, devem evitar um funeral oneroso.» (13)

O Mausoléu é a prova de que não seguiram as instruções de Ho Chi Minh, mas ele é bem merecedor deste Mausoléu e da homenagem que significa.

Ao meio-dia é habitual haver uma concentração de pessoas à frente do Mausoléu para assistir à cerimónia de troca da guarda.

Todos os anos, o corpo de Ho Chi Minh é deslocado para a Rússia para um tratamento de manutenção.

Ao Mausoléu seguiu-se um espectáculo maravilhoso apresentado pelo Teatro Thang Long Water, famoso em todo o Mundo e considerado emblemático da cultura vietnamita: espectáculo com marionetas aquáticas.

Em Portugal (e em outros países ocidentais), quando ouvimos falar de teatro de marionetas é natural que nos lembremos dos Bonecos de Santo Aleixo, embora existam outros grupos com grande tradição, como na cidade do Porto, ou nos lembremos do Museu da Marioneta, em Lisboa e no Porto, e do serviço educativo que vêm desenvolvendo, sendo a acção de todos eles merecedora de todos os elogios. Mas este teatro de marionetas é tradicionalmente manipulado por cima, através de cordas ou varas, sendo as dimensões das marionetas de vários tamanhos —os Bonecos de Santo Aleixo são muito simples e com reduzidas dimensões—, com acompanhamento musical, sendo os textos apresentados de tradição secular, muitos deles ou talvez a maioria de cariz religioso, mas também aproveitando textos do chamado teatro de cordel. Mesmo no teatro de amadores podemos encontrar grupos que se dedicam ou dedicaram ao teatro de marionetas, muitos deles apresentando textos pedagógicos, para não falar nos grupos que aparecem nas feiras mostrando o seu «teatro de fantoches».

Consultando o Dicionário de Teatro da Enciclopédia Universalis e Albin Michel, podemos ler: «Mesmo dentro do jogo sagrado, o espírito da comédia manifesta-se, e o carácter popular do teatro de fantoches ajuda a introduzir elementos seculares nos quais se expressa a mentalidade comum, dando origem à bufonaria ancestral dos fantoches, de tipos como a Vidouchaka, a Hindu.» (14)

No Oriente a tradição é bem diferente da do mundo ocidental. No mesmo Dicionário, lemos «Na China, mil anos antes de Jesus Cristo, as origens religiosas deixaram de ser sensíveis e o reportório dividiu-se entre o melodrama cavalheiresco e uma farsa que também tinha o seu tipo popular». (15)

No Vietname, o teatro aquático de fantoches (em vietnamita múa ri nước) terá tido a sua origem milenar no delta do rio Vermelho, embora não possamos descurar a influência chinesa nesta arte, a que os vietnamitas souberam dar uma característica própria. Há registos que colocam a sua origem no séc. XI, continuando hoje com uma vitalidade que tive oportunidade de testemunhar, contando muitas das histórias cómicas sobre a vida quotidiana —histórias rurais sobre os mitos regionais, a actividade agrícola, a família, …— com que os camponeses se foram entretendo durante séculos.

O tanque representa o lago próximo da aldeia, os bonecos ficam à superfície, suportados por hastes de bambu que ficam submersos, controlados pelos manipuladores situados atrás da cortina ao fundo. O tamanho dos bonecos varia entre 30 centímetros e 1 metro de altura, variando também o seu peso entre 1 e 5 kg, sendo feitos de madeira de figueira e protegidos com resina e verniz, o que os torna impermeáveis

Uma cena de uma das histórias (Fotografia AGM, retirada do filme)

em: https://www.topensandoemviajar.com/teatro-marionetes-agua-vietna

A orquestra, colocada a um lado do «palco» (tanque), não se limita a executar uma música que acompanha os espectáculos, pois os seus membros também dão voz aos bonecos.

Fotografia AGM

Visto o espectáculo, o grupo regressou ao hotel no meio de um trânsito absolutamente caótico para um ocidental, habituado a seguir com rigor as regras que julgava internacionais, a que já fiz referência. A agravar a situação, tínhamos a cimeira Coreia do Norte-EUA.

 

NOTAS

Vietname – segundo dia no país
  1. in: https://authentikvietnam.com/la-pagode-tran-quoc-hanoi;
  2. Bardo é, para o budismo tibetano, um estado de existência intermediária entre a morte e o renascimento. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bardo;
  3. Terra Pura: é uma vertente do budismo Mahayna, também conhecida como Amidismo devido à sua característica devoção ao Buda Amida (…) o Buda da Vida e Luz Infinitas. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Terra_Pura;
  4. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Amitaba;
  5. idem;
  6. in: https://www.dicionariodesimbolos.com.br/arvore-vida/. A Árvore da Vida não está presente apenas na cultura budista, mas também nas culturas assíria, egípcia e islâmica;
  7. in: , Maria Cândida Proença, Dicionário de História de Portugal, volume 3,Círculo de Leitores, 1.ª edição, Janeiro de 2021, pág. 127
  8. Dang Nghiem Van, Chu Thai Son e Luu Hung, Les ethnies minoritaires du Vietnam, Editions Th´Giói, Nanoi, 2018, pág. 11;
  9. Idem, pág. 11;Recomendo vivamente uma visita a https://www.tripadvisor.pt/Attraction_Review-g293924-d447352-Reviews-Vietnam_Museum_of_Ethnology-Hanoi.html#photos;aggregationId=&albumid=101&filter=7, para ver as centenas de fotografias que mostram o riquíssimo espólio do Museu de Etnografia do Vietname;
  10. in (em português do Brasil): https://existeumlugarnomundo.com.br/templo-da-literatura-em-hanoi/;
  11. in: https://vovworld.vn/es-ES/cultura/dan-bau-monocordio-representativo-de-la-cultura-vietnamita-486962.vov, com tradução da minha responsabilidade;
  12. idem;
  13. in: HO CHI MINH – Vida e obra do líder da libertação nacional do Vietnã, 1.ª edição, Organizador Pedro Oliveira, Editora Anita Garibaldi, São Paulo 2020 (online);
  14. in: Dictionnaire du Théâtre, Encyclopedia Universalis et Albin Michel, Paris, 1998, pág. 507, entrada «Marionnettes, de Paul-Louis Mignon;
  15. idem;

1 Comment

  1. Bela reportagem do António Gomes Marques. A sua estupefacção com o caótico (e parece que autoregulado!) trânsito de Hanói, faz-me recordar semelhante sensação que senti ao andar por Guilin (que significa bosque das oliveiras doces), cidade da região autónoma de Zhuang de Guangxi no sul da China. Guilin é conhecida pelos seus terraços de arroz e está situada na margem ocidental do rio Li, numa área de montanhas cobertas de vegetação que dão à cidade uma beleza especial com topografia marcada por formações Karst, que são uma forma de relevo originada pela meteorização química de determinadas rochas, tais como calcário, dolomite, gesso, e outras, composta de minerais solúveis em água.

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