Em Viagem pela Indochina – IV Vietname (3), por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina

IV – Vietname (3)

Terceiro dia no país

por António Gomes Marques

 

Após o pequeno-almoço, partimos para a Baía de Ha Long, que a UNESCO classificou como Património Natural da Humanidade (em 1993 ou 1994), percorrendo cerca de 176 km de uma boa auto-estrada, no sentido Nordeste, passando ao lado de An Khái e de Haiphong e admirando infinitos arrozais.

Tivemos duas paragens; primeiro, num grande centro comercial com produtos vietnamitas os mais variados —a variedade dos produtos a lembrar, pela quantidade e diversidade de produtos, uma loja chinesa, mas num espaço mais arejado bem maior e com produtos de muito melhor qualidade, incluindo restaurante, café e pastelaria —, chamando a minha atenção uma área em que artesãos produziam quadros com os mais diferentes motivos, como tínhamos visto em Hanói, mas agora já não utilizando a laca, ou seja, esses motivos eram bordados, sendo esses artesãos não apenas mulheres, como é tradicional no Ocidente, mas também homens ainda bastante jovens.

Pequeno pormenor do centro comercial (fotografia AGM)

A segunda paragem foi num centro (fábrica) de produção de pérolas cultivadas, junto à beira-mar, com um luxuoso estabelecimento para venda da sua produção, na Província de Quang Ninh.

As pérolas naturais não têm qualquer interferência humana, com uma forma e um tamanho diferente de pérola para pérola, pois não há duas ostras exactamente iguais. A cor do nácar (dizem ter este nácar exterior cinco cores, mas é predominantemente rosado ou carmim) e o seu brilho torna as pérolas naturais bem diferentes das pérolas cultivadas. Estas também são criadas em ostras naturais, mas transplantadas e criadas por humanos, colocadas em armações onde a sua alimentação é complementada por esses mesmos humanos. O núcleo interno de uma pérola natural é muito pequeno, formando-se a pérola à volta de um grão de areia ou até de um ovo de peixe que, acidentalmente, ficou no interior da ostra, a qual, ao reagir ao corpo estranho, cria uma camada significativa de nácar à volta desse grão de areia; nas pérolas cultivadas, o corpo estranho é introduzido por acção do homem e de tamanho maior do que o grão de areia, produzindo-se assim uma pérola redonda, oval ou mesmo gota de água, de tamanho mais ou menos homogéneo, com uma camada de nácar bem mais fina, jóia essa que, depois, poderá ser polida e/ou tingida, aumentando-se-lhe assim o brilho e acentuando a sua cor.

As pérolas naturais são cada vez mais raras e, com a poluição e com o aumento da pesca, existentes em cada vez menos regiões do mundo. O seu valor, muito pela raridade e não apenas pela qualidade natural, é incomensuravelmente superior e ao alcance de poucas bolsas. Também há pérolas cultivadas em água doce.

As pérolas cultivadas também são de uma grande beleza, beleza também acrescentada pela tecnologia do artesão ou da artesã (gosto de lhes chamar assim).

Na Fábrica Kokichi Mikimoto, a técnica em acção (fot. AGM, retirada do filme)

Vista parcial de uma das paredes da fábrica, com uma fotografia de K. Mikimoto em acção.
(Fotografia AGM, retirada do filme)

A fábrica que visitei é uma fábrica de um grande consórcio japonês, que tem o nome do primeiro criador de uma pérola cultivada, Kokichi Mikimoto, fundada no Vietname em 1993, ou seja, precisamente um século depois da produção da primeira pérola cultivada no Japão.

«O meu sonho é enfeitar o pescoço de todas as mulheres do mundo com pérolas», terá dito Kokichi Mikimoto

Além do Vietname, há outras lojas Mikimoto espalhadas pelo mundo, nomeadamente em Londres, na Trafalgar Square, cujo exterior recordo, mas onde nunca entrei.

«Na natureza, menos de uma em mil ostras produzirá uma pérola durante sua vida; portanto, eram um luxo apenas para os ricos. Kokichi Mikimoto decidiu tentar cultivar pérolas, pois eram amadas por pessoas de todo o mundo. Ele era um sonhador e não deixou seu sonho morrer. Em 1893, ele se tornou o primeiro no mundo a cultivar com sucesso uma pérola semiesférica. Ele continuou a cultivar muitos tipos diferentes de pérolas, incluindo pérolas pretas e brancas do Mar do Sul.» (1)

Apenas um exemplo das jóias criadas com as pérolas cultivadas

Após a produção das primeiras pérolas cultivadas, a luta de Kokichi Mikimoto continuou por muitos anos até que, por fim, viu reconhecido o seu trabalho:

«Em 1921, um artigo foi publicado em um jornal de Londres alegando que “as pérolas cultivadas vendidas por um certo comerciante japonês são apenas imitações de pérolas reais e é enganoso rotulá-las como pérolas quando não o são”. O ataque às pérolas cultivadas como fraudulento evoluiu para um processo conhecido mais tarde como “o julgamento de Paris”. Por fim, Mikimoto venceu a batalha legal em um tribunal francês. Por meio desse processo, Mikimoto e suas pérolas cultivadas ganharam reputação mundial.» (2)

Termino com mais uma citação, esta com um valor muito especial:

«Em 1927, durante uma turnê pelos Estados Unidos e Europa, Kokichi se encontrou com um colega inventor, Thomas Edison. Edison declarou: “Esta não é uma pérola cultivada, é uma pérola real. Existem duas coisas que não poderiam ser feitas em meu laboratório – diamantes e pérolas. É uma das maravilhas do mundo que você foi capaz de cultivar pérolas. É algo que se supõe ser biologicamente impossível.” Kokichi foi muito encorajado pelas palavras de um homem que realmente entendeu o valor de sua inovação.» (3)

Tive oportunidade de ver muitas das jóias produzidas por esta fábrica, ficando maravilhado com a imaginação dos seus criadores, mas também pelas cores das pérolas, do branco prata ao amarelo, azul e preto, com um brilho verdadeiramente fascinante, mas sem bolsa para as jóias que mais prenderam a minha atenção e a da Célia.

A viagem teve de continuar, o nosso destino era a Baía Ha Long.

Ali chegados, embarcámos para dar início a um passeio na baía, barco este onde jantámos e passámos a noite.

A Baía Ha Long, nome que em português quer dizer «Onde o Dragão entra no Oceano» (já veremos porquê), tem cerca de 1969 ilhotas de calcário, poucas estando habitadas, com uma área de 1.553 km², estando situada na Província de Quang Ninh, proporcionando desfrutar, em quase todas, de praias excelentes, grutas e cavernas. A não presença humana na maioria evita a poluição, embora as suas águas verde-esmeralda me tivessem parecido com alguma poluição, provavelmente provocada pelas centenas de embarcações que nela navegam diariamente. A neblina por vezes limita a visão, que se torna deslumbrante quando os nossos olhos alcançam as distâncias possíveis.

Fotografia Célia Marques

Vi no Google que aos ilhéus foram atribuídos nomes segundo a sua forma, como, por exemplo, Cho Da, que quer dizer «cachorro de pedra»; Am Tich, que significa «chaleira». É a cultura oriental no seu esplendor!

«De acordo com a lenda, quando um grande dragão que vivia nas montanhas correu até ao mar, a sua cauda cavou vales que mais tarde foram enchidos com água, deixando apenas pedaços de terra à superfície, ou seja, as inúmeras ilhas que se avistam na baía.» (4)

Fizemos visitas a um ou outro ilhéu e, num deles, a uma gruta. Navegámos por entre centenas de embarcações cheias de visitantes, para além dos barcos característicos de pescadores, com casinhas e redes de pesca. A neblina não apaga a beleza aos nossos olhos, com os vários tipos de embarcações a navegar por entre as ilhotas. É uma paisagem paradisíaca!

Fotografia de Susana Ramos

Um dos ilhéus tem uma abertura a meio, o que obriga a mudar para uma embarcação tradicional para se poder passar para a outra banda, para uma espécie de lago, tão próximos estão os ilhéus uns dos outros:

Fotografia AGM (retirada do filme)

Conversando com alguns dos vietnamitas que vivem ou são naturais de Ha Long, fiquei a conhecer uma outra versão da «acção» dos dragões, que acima referi. Segundo essa versão, foram os deuses que enviaram os dragões para protegerem o país dos invasores, tendo esses dragões cuspido pedras preciosas no mar, que se transformaram nas ilhotas, constituindo assim uma muralha que impediu a navegação dos barcos inimigos e facilitando a vitória dos vietnamitas. Os dragões, então, naturalmente agradados com a paisagem, decidiram passar a viver ali. Abençoados dragões, direi eu agora, pela beleza que acabaram por proporcionar aos felizes visitantes da Baía Ha Long!

Antes da hora de despedida de Ha Long, a acontecer no dia seguinte à chegada, com noite passada no barco, onde também nos foram servidas as refeições relativas ao tempo ali passado, não quero deixar de referir a visita à gruta Sung Sot.

Fotografia AGM

A gruta é enorme e com um percurso traçado que permite a quem o percorrer uma visita completa pelas várias galerias, nada cansativa, admirando as estalactites e as estalagmites próximas do visitante, que a iluminação de várias cores vai salientando, mas para alguém que conheça as grutas portuguesas de St.º António e de Alvados, no concelho de Porto de Mós, no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, não fica espantado, embora não negue a beleza desta gruta de Ha Long, mas não suplantando a beleza das referidas grutas portuguesas ou mesmo espanholas, como a gruta de Nerja, na Andaluzia.

Outra referência é a Ilha Ti Top:

Fotografia AGM

Há uma escada íngreme, de vários lances, rodopiando por uma encosta do ilhéu, que nos permite, após umas largas centenas de degraus, chegar ao topo com os bofes de fora, como é uso dizer-se, do qual se tem uma panorâmica única de 360° da Baía.

O nome do ilhéu constitui uma homenagem ao cosmonauta russo Gherman Stepanovich Titov, o segundo a orbitar a Terra e o primeiro a passar um dia inteiro no espaço, o que aconteceu em 6 de Agosto de 1961, na Vostok 2 (Yuri Alexeievitch Gagarin foi o primeiro ser humano a viajar pelo espaço, na Vostok 1, em 12 de Abril de 1961).

O ilhéu tem uma pequena praia devidamente equipada, incluindo chuveiros de água doce.

 

NOTAS

Vietname – Terceiro dia no país
  1. in: https://www.mikimoto.com/jp_en/brand-story#legacyTabs_ScrollDown;
  2. idem, idem;
  3. idem, idem;
  4. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ba%C3%ADa_de_Ha_Long#/media/Ficheiro:Pix.gif;

 

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