Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 3. ARCHEGOS E AS APOSTAS SELVAGENS DE WALL STREET – 3B. A HISTÓRIA DA ARCHEGOS: 1. Os principais corretores atingidos: Credit Suisse e Nomura afundam-se pelo choque provocados pela vaga das chamadas de margem. Por TYLER DURDEN

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

3B. A história da Archegos – 1. Os principais corretores atingidos: Credit Suisse e Nomura afundam-se pelo choque provocados pela vaga das chamadas de margem

 

Por TYLER DURDEN

Publicado por 28 de Março de 2021 (ver aqui)

 

Por volta da altura em que o Nomura fechou com uma descida de 16,3%, a sua maior queda recorde depois de avisar que enfrenta cerca de 2 mil milhões de dólares em perdas de corretagem principal (ver abaixo) ligadas a um único cliente norte-americano – o agora tristemente célebre fundo especulativo de cobertura filho do fundo Tiger, o fundo Archegos – o gigante bancário suíço, Credit Suisse, também foi levado no turbilhão criado por Archegos depois de o banco suíço dizer que enfrenta uma perda potencialmente “altamente significativa” devida ao facto de que um cliente americano de fundo especulativo não responde às chamadas de margem o que fez cair o valor da ação Credt Suisse até 16%, a maior queda desde Março do ano passado e eliminando todos os ganhos de 2021.

Embora o número real de perdas não tenha sido definido, as estimativas apontam para um valor de 2-3 mil milhões de dólares, e um comentador disse que “o Credit Suisse perdeu todos os seus lucros do ano porque se pensou mais espertalhão do que o Goldman Sachs, conhecido como os tubarões na rua e por um dia”.

“Embora neste momento seja prematuro quantificar a dimensão exata da perda resultante desta saída, ela pode ser altamente significativa e material para os nossos resultados do primeiro trimestre”, disse o banco numa declaração por e-mail, sem nomear o fundo, embora o nome fosse bastante claro.

Credit Suisse também disse que estava em vias de sair das posições após o incumprimento do cliente.

A perda chega num momento incómodo para o Credit Suisse, uma vez que o assunto do Greensill ainda está longe de estar resolvido, e o Credit Suisse enfrenta “ainda outra questão que tem potencial para resultar num impacto material nos seus resultados”, escreveu o analista da Vontobel Andreas Venditti numa nota.

“Há ainda outro caso problemático”, escreve Georg Marti, analista do Zuercher Kantonalbank, numa nota. “Embora o CEO do Credit Suisse Gottstein tenha falado numa conferência recente de um excelente início de 2021, os resultados do primeiro trimestre já estão ensombrados pelo caso Greensill com perdas potenciais que ainda precisam de ser esclarecidas. Agora há também esta questão do fundo de cobertura”.

O CEO do Credit Suisse Thomas Gottstein tinha prometido começar o ano com uma tábua rasa, mas está agora a ver a firma desempenhar um papel central num grande golpe financeiro pela segunda vez em semanas. No início do mês, o banco enganou os investidores suspendendo – e depois decidindo liquidar – 10 mil milhões de dólares de fundos de financiamento da cadeia de abastecimento que geria com a Greensill.

Mesmo antes desse incidente, a empresa tinha-se confrontado com uma grande redução da sua participação no fundo de cobertura York Capital, redução esta relacionada com um processo judicial de longa data sobre títulos hipotecários residenciais e incidentes de vigilância sobre antigos executivos, informou a Bloomberg.

Como dissemos ontem à noite, embora a agitação tenha tido até agora apenas um impacto limitado nos mercados financeiros em geral, os bancos e as pessoas familiarizadas com o assunto indicaram que o desenrolar das apostas relacionadas com Archegos Capital pode ter ainda um longo caminho a percorrer. O Credit Suisse e outros credores ainda estão em vias de sair das posições, disse o banco num comunicado de segunda-feira que não mencionava a Archegos pelo nome. A Morgan Stanley estava a negociar um grande bloco de ações da ViacomCBS na segunda-feira de manhã, com a Bloomberg a informar que o bloco de ações de ViacomCBS de 45MM estava a ser negociado ao preço de $47 cada, um pequeno desconto sobre o preço anterior de mercado de $48,23.

Outros credores estão também embrulhados com a Archegos Capital. O Deutsche Bank tem alguma exposição, embora ainda não tenha sofrido quaisquer perdas e ainda esteja a gerir a carteira, de acordo com uma pessoa com conhecimento do assunto. Entretanto, o Goldman Sachs – que alegadamente foi o primeiro corretor principal a quebrar fileiras e a fazer uma chamada de margem sobre a Archegos – está a dizer aos acionistas e clientes que quaisquer perdas que enfrente da Archegos são provavelmente imateriais.

No início da segunda-feira, hora local, a Nomura Holdings disse que pode ter incorrido numa “perda significativa” resultante de transações com um cliente norte-americano.

Voltando atrás: Em Maio de 2016, o mega-banco japonês Nomura, anunciou que tinha sofrido a sua maior perda de sempre na história (de uma soma um pouco mais modesta – $40 milhões – segundo os padrões ocidentais) de um só cliente, e que depois rapidamente culpou um “incompetente” operador em bolsa sobre obrigações.

Avancemos até hoje, precisamente quando o Nomura acabou de sofrer uma perda bem mais importante com um só cliente, algo que pode ser classificado de tudo menos de ser uma coisa monótona.

No início da segunda-feira, hora local, a Nomura Holdings disse que pode ter sofrido uma “perda significativa” resultante de transações com um cliente norte-americano.

O montante estimado do crédito contra o cliente é de cerca de 2 mil milhões de dólares com base nos preços de mercado em 26 de Março, disse a corretora japonesa numa declaração. A estimativa está “sujeita a alterações em função do desenrolar das transações e das flutuações dos preços de mercado”.

O Nomura está atualmente a avaliar a extensão da possível perda e o impacto que poderá ter nos seus resultados financeiros consolidados.

A corretora japonesa também cancelou os planos de venda de obrigações denominadas em dólares.

A notícia, por muito incompleta que seja, foi suficiente para levar as ações Nomura a cair 15%, eliminando todos os ganhos de Março, e a maior queda de um dia numa década.

Embora não fosse imediatamente claro se a perda do Nomura está ligada à espetacular chamada de margem à Archegos Capital, descendente do fundo Tiger, de Bill Hwang, que assinalámos anteriormente (observando com precisão que o desenrolar ainda não está provavelmente concluído), os dois estão quase certamente ligados, especialmente porque alguns notaram que, no caso do Nomura, o banco possuía cerca de 10MM de ações da empresa tecnológica chinesa GSX que implodiram, através de swaps alavancados para clientes. Uma vez que a GSX era uma das empresas agressivamente abandonadas por Hwang, pode-se ver como é que o castelo de cartas, tendo atingido os principais corretores, pode a seguir espalhar-se pela cadeia alimentar do banco de investimento.

 

Entretanto, como perguntámos anteriormente, a verdadeira questão é se a liquidação do punhado de ações altamente concentradas está terminada, ou se a cascata de vendas está apenas a começar.

Uma coisa sabemos: a partir de domingo à noite, o vendedor ainda não tinha terminado, como confirma esta manchete da Bloomberg:

Detentor de títulos VIACOMCBS disse estar a oferecer um bloco de 45 milhoes de ações via Morgan Stanley

Mais alguns detalhes:

A Morgan Stanley estava a negociar um grande bloco de ações da ViacomCBS Inc. no domingo, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto, o último de uma enxurrada de transações de blocos que começou antes do fim-de-semana.

Cerca de 45 milhões de ações foram oferecidas no domingo em nome de um detentor não revelado, disse a pessoa. O gigante dos meios de comunicação social foi também objeto de pelo menos um grande negócio de blocos na sexta-feira através da Goldman Sachs, disse na altura à Bloomberg uma pessoa familiarizada com o assunto.

A propósito, ainda na passada segunda-feira, a ViacomCBS vendeu $3 milhares de milhões em ações ordinárias e preferenciais, incluindo 20 milhões de ações de VIAC a $85. Com as ações agora negociadas a cerca de 50% deste preço, a empresa deve anunciar imediatamente uma recompra de 20 milhões de ações (ou mais) para i) tirar partido do mergulho no preço e ii) conter o pânico dos investidores devido à liquidação forçada de um acionista. De facto, há momentos, a Tencent acaba de anunciar uma recompra de ações de $1 milhar de milhões para compensar apenas esta queda no preço das ações, induzida pela liquidação.

E enquanto esperamos que isso aconteça na VIAC, DISCA e outros, temos ainda duas grandes questões:

i) será que a Archegos ainda está a fazer dumping, ou será que é agora um colega da Hedge Funders que também foi marginalizado numa carteira semelhante,

e

ii) quão má é a dor – à medida que mais corretores de primeira linha emitem chamadas urgentes de margem – e quão generalizada será a cadeia de liquidação.

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O autor: Tyler Durden é um pseudónimo sob o qual escrevem os analistas da ZeroHedge. O fundador e editor principal de ZeroHedge foi identificado como sendo Daniel Ivandjiiski [1978-], búlgaro de nascimento, licenciado pelo American College de Sófia. Entretanto mudou-se para os Estados Unidos onde estudou biologia molecular na Universidade da Pensilvânia. Em Julho de 2001, juntou-se ao New York Investment Bank, Jefferies & Co. Passou nos seus exames de -valores Mobiliários em Novembro de 2001 (Série 7 e Série 63). Em Outubro de 2004, juntou-se ao banco de investimento Imperial Capital LLC, sediado em Los Angeles, antes de voltar a Nova Iorque em Maio de 2005 para se juntar ao banco de investimento Miller Buckfire LLC. Enquanto esteve na Miller Buckfire, Ivandjiiski foi acusado pela FINRA de ganhar US$780 de uma operação com informação privilegiada a 14-15 de Março de 2006, e por decisão da FINRA em 2008 veio a ser impedido de actuar como corretor ou de se associar de outra forma a uma firma de corretagem, e de ser membro da FINRA. Em Setembro de 2007, antes da decisão da FINRA, Ivandjiiski mudou-se para o fundo de cobertura Wexford Capital LLC, sedeado em Connecticut, dirigido por antigos operadores da Goldman Sachs. Após a decisão da FINRA, Ivandjiiski deixou Wexford Capital, e dentro de poucas semanas publicou o seu primeiro blogue no site Zero Hedge em 9 de Janeiro de 2009. (consultado em Wikipedia, aqui).

 

 

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