Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 3. ARCHEGOS E AS APOSTAS SELVAGENS DE WALL STREET – 3B. A HISTÓRIA DA ARCHEGOS: 3. Archegos: Deus, alavancagem e caos em Wall Street. Por Financial Times

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

3B. A história da Archegos – 3. Archegos: Deus, alavancagem e caos em Wall Street 

O pouco conhecido fundo Archegos convenceu quase todos os grandes bancos a emprestarem e enormes somas ao seu escritório de gestão patrimonial familiar, o que provocou o caos

 

Por Due Diligence, em 30 de Março de 2021 (“Archegos, God, leverage and mayhem on Wall Street”, ver aqui ou aqui)

 

O que estamos a tentar perceber é como o relativamente desconhecido investidor Bill Hwang convenceu quase todos os grandes bancos a emprestar enormes somas ao seu escritório familiar.

Um dos chamados veteranos do Tiger Cub do fundo Tiger Management de Julian Robertson, Hwang era, afinal de contas, um homem que tinha tido problemas antes, tendo sido proibido de negociar em Hong Kong e multado em milhões nos EUA na resolução de acusações de transações ilegais em 2012.

Hwang, um homem religioso que disse uma vez ter adorado ver “o que Deus está a fazer através do investimento e do capitalismo”, trabalhou na gestão do fundo cobertura chamado Tiger Asia, mas colocou o dinheiro no exterior depois das suas desventuras em transações em bolsa.

Agora ele é o homem que está por detrás da Archegos Capital, o escritório familiar que se tornou um exemplo flagrante do que acontece quando os bancos concedem demasiada alavancagem – todos ao mesmo tempo.

O escritório familiar – com o nome de uma palavra grega bíblica que significa chefe, líder, ou príncipe, usada em relação a Jesus – tinha voado fora do radar até que a sua aposta na ViacomCBS se deparou com problemas na semana passada.

A queda desencadeou chamadas de margem, a forma de um banco dizer, “ponha mais dinheiro ou vamos vender as suas posições”.

O que se seguiu foi uma onda de vendas por parte dos bancos, que só na sexta-feira, apagou 33 mil milhões de dólares das empresas envolvidas. Por algumas contas, as vendas de ações pelas várias contrapartes de Hwang já ultrapassaram os 30 mil milhões de dólares, prevendo-se mais danos a seguir.

Isso significou problemas não só para Hwang mas também para bancos de topo, nomeadamente Goldman Sachs, Morgan Stanley, Credit Suisse e Nomura, que concederam empréstimos de milhares de milhões de dólares em crédito para permitir que a Archegos fizesse apostas altamente alavancadas em ações americanas e chinesas.

Soubemos na segunda-feira que os bancos tinham tentado coordenar os esforços para limitar o caos. Essas conversações fracassaram e o caos seguiu-se.

Nomura e Credit Suisse levam a pior parte da derrocada da Archegos

Hwang tinha sido anteriormente evitado pelos mais poderosos de Wall Street no rescaldo da sua confissão de culpa de utilizar informações privilegiadas.

Muito rapidamente, voltaram a correr juntos. Hwang sabia que os bancos teriam dificuldade em resistir às enormes oportunidades de negociar com ele. Há que reconhecê-lo.  

Goldman aguentou mais tempo, mas começou a trabalhar com Hwang novamente em 2020, após anos de lobby dos seus banqueiros para convencer o departamento de risco a autorizá-lo.

Agora pelo menos duas das contrapartes de Hwang, o Nomura e o Credit Suisse, enfrentam milhares de milhões em perdas ligadas à Archegos.

Entretanto, Hwang tem estado desaparecido. Mas talvez os bancos possam ter algum consolo com a sua entrevista de 2018 (citado em Businessinsider, aqui).. “Não se trata apenas de dinheiro, sabe … Deus tem certamente uma visão a longo prazo”[1].

 


Nota

[1] Nota de Tradutor. Numa outra passagem da sua entrevista Hwang diz-nos que a sua preocupação era sempre saber onde “deveria investir para agradar a Deus” (where can I invest to please our God)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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