EM HOMENAGEM A OTELO – por ADÃO CRUZ

Otelo-por-Manuel-V-Botelho-Portugal-Wikimedia

 

 

 

 

 

Um cravo vermelho

cristal de vida no céu de chumbo

cada dia um mundo limpo e perfumado

graças a ti flor da minha idade.

Caminho da esperança às portas da cidade

todo o mel e todos os frutos ali à mão.

Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão

veio o tempo ao nosso encontro

e a manhã despertou agitando as árvores.

E a noite se fez de estrelas que desceram aos cantos do jardim.

Um cravo vermelho e quente

mais que tudo amando a vida

em qualquer língua entendida.

O mundo tinha o sabor de uma maçã

e os olhos inacabados eram cravos vermelhos.

Não havia cárceres nem torturas

apenas o calor de uma fogueira na praça do entusiasmo

e uma jovem mulher

dormindo um sono de criança nos telhados da revolução.

O seu rosto era uma nuvem dourada pelo sol e pela lua

os cabelos trigueiros uma seara

e nos lábios a canção de Abril que encheu a rua.

Hoje…

Hoje não sei se é dor se alegria

o que sonho quando abro ao sol as portas de Abril.

Não sei se é dor

tristeza ou alegria

aquilo que sinto neste dia

em que Abril faz tantos anos de saudade e nostalgia.

Anos de luminoso tremor

corações ao alto

quadros verdes de sonho e raiva

de sol e chuva em celeste azul

luzindo nos olhos de uma gaivota

branca gaivota de penas mansas voando solitária dentro de mim

à volta de um cravo vermelho que me ficou dentro do peito.

Abro as janelas a medo neste areal de céu escuro

contra o mundo

a idade e o cansaço

e não sei se é vida ou amargura a estreiteza deste espaço.

Sei que um rio de negras águas cavalga as margens do meu ser

por entre as fendas da secura

e outra vez afoga a democracia às mãos de nova ditadura.

 

 

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