CARTA DE BRAGA – “do falar e do calar” por António Oliveira

Há já algumas dezenas de anos escreveu Hemingway, ‘São necessários dois anos para aprendermos a falar e sessenta para aprendermos a calar’. Mas o renomado escritor estadunidense nunca viveu tempos como estes, onde um bicho minúsculo e nojento, está a pôr de cócoras a humanidade inteira. 

E Umberto Pasti, escritor e fazedor de jardins, dizia há cerca de uma ano a um diário europeu, ‘Uma aldeã velhinha, telefona-me sempre que vê uns narcisos em risco de desaparecer, quando estão a ampliar uns caminhos ou um porto desportivo, para eu os ir salvar. Depois conta-me que os delfins já nem vêm conversar com ela, quando mete os pés na água. Faz-me lembrar a bendita unidade de Homero! Ainda vive num mundo pré-industrial e agradece-me assim, o esforço para salvar plantas quase extintas. É o respeito que ela tem pela vida!

Vivemos numa época em que os órgãos de informação dispõem de meios humanos e tecnológicos para adquirir e distribuir, na hora, as notícias mais importantes, aliás e muitas vezes, fortemente documentadas, embora se saiba que estão dependentes de interesses vários, tanto políticos como financeiros, que levam a textos, frases isoladas, ou a afirmações menos verdadeiras ou truncadas, para atribuir a outrem factos e autorias incorrectos. E já ninguém se importa com isso, nem quer saber dessas coisas, aparentemente desprezíveis. 

Mas, a dar atenção aos dois primeiros parágrafos, também vivemos tempos em que o exercício da palavra tem gravosos condicionantes que, por sua vez, têm conduzido a um desagradável sentimento de solidão, que já leva as associações de psicologia a considerar a solidão não desejada, como o primeiro factor de risco para a saúde nas sociedades ocidentais, mais grave mesmo que a obesidade.

A pandemia covidiana veio agravar muito mais o sentimento da solidão, pelas restrições sociais e, para muitos, mesmo para os mais novos, a impor a quase obrigação do teletrabalho, que fomentou e, de que forma, a ligação com os outros através do telemóvel, aumentando a importância dos ecrãs, grandes e pequenos, no desenrolar das rotinas diárias, das que nos aproximam dos outros e os aproximam de nós. 

Acontece que a hiper conectividade e as redes sociais, sob a ilusão das experiências compartidas a distância, estão longe de compensar ou colmatar, a falta da companhia e do afecto ligados à proximidade humana e, há já lugares onde se fala da criação de redes de solidariedade social, porque a solidão é, também, um problema da saúde pública com enormes custos sociais. Basta ler os relatórios relativos a este tema, tanto da Europa, como do resto do mundo, principalmente das Nações Unidas. 

Há alguns dias, falando com um amigo bem próximo, física e animicamente, sobre a importância que as máquinas, especialmente os computadores, passaram a ter nas andanças da vida, ele confiava-me baixinho, para ninguém ouvir, ‘Nesse aspecto, como noutros semelhantes, fui sempre a mesma coisa a vida inteira, levando toda a gente a dizer que odeio a tecnologia. É mentira, odeio é as máquinas todas, sejam quais forem! Sou daqueles que quando alguma pára, ainda lhe dou um pontapé e lhe grito vê se trabalhas!”. Mas não posso dar um pontapé no computador!’ 

Não consegui disfarçar um sorriso mas logo acrescentei ‘Sou quase como tu, só que tenho sempre gente bem próxima, para me ajudar a resolver as dificuldades’, mas ele estava e trabalhar em corda livre e logo respondeu, ‘Achas que posso fazer isso com algum dos quase quinhentos amigos que tenho no Face?

Voltando ao princípio, parece serem necessários bem mais de dois anos para aprendermos a falar pois, afirmou recentemente Luís Filipe Sarmento, poeta e escritor, ‘Aprendi, por questões de sobrevivência ética e estética, a ser um animal que se vai adaptando criticamente ao meio. Não há outra maneira. Eu não vivo isolado do mundo nem quero viver afastado dele. Caso contrário seria a morte’.

Mas a adaptação crítica ao meio, defendida por Sarmento, será ‘tarefa’ para uma vida porque, diz um poema da poeta nicaraguense Esthela Calderon, ‘O som da primeira palavra foi de uma árvore / e os animais e as árvores responderam. / O primeiro homem era surdo. / Não escutou o sopro da corrente vital. / Herdámos assim aquela surdez’.

E quando aprenderemos a calar? Talvez só se  conseguirmos interiorizar o que escreveu um dia o poeta Mallarmé, ‘O pensamento é onde as palavras devem dormir muito tempo, para nascerem novas e puras’, o que me parece bem difícil, nesta tirania das redes sociais, muito mais em tempos de pandemia. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Leave a Reply