“CANTARES”, DE JOSÉ AFONSO. UMA CONTEXTUALIZAÇÃO – por MANUEL SIMÕES

(1929 – 1987)

 

 

 

Em 1966, a colecção “Nova Realidade” iniciava o seu projecto editorial com a 1.ª edição absoluta dos textos das canções de José Afonso: ( Cantares, 2.ª ed. do mesmo ano), esgotadíssima e que nunca é referida nos repertórios sobre o cantor de Abril. Se em França, numa série intitulada “Poètes d’aujourd’hui” (‘Poetas de hoje’), se publicavam, em volume, os textos das canções de Aznavour ou de Brel, porque não publicar aqui os textos do nosso grande cantautor?

Para essa edição escrevi um “prólogo” procurando contextualizar a evolução interventiva do Zeca. Passados que foram mais de 50 anos, muita água correu nos rios da História, muita coisa mudou na sociedade portuguesa, com avanços inevitáveis e recuos clamorosos, mas talvez não seja inútil recuperar essa tentativa de análise social, transcrevendo o essencial desse prólogo:

«Do Choupal até à Lapa / Coimbra não tem sossego – eis dois versos do lirismo tradicional coimbrão que sintetizam, sem querer, uma situação inquieta ou a circunstância duma cidade cheia de acidentes, submetida a uma torre brumosa, com o seu quê de inatingível, torre que está na origem da cisão entre dois mundos urbanos: um, com seus rituais estranhos, os ritos e os mitos conjugando-se para a alienação dos jovens por meio do exotismo das grandes e pequenas cerimónias; outro, marchando com o seu tempo, procurando integrar-se ao nível das conquistas da técnica (até ao ponto que a sociedade lhe consente). Daí esta nítida separação, o ar medieval da “alta” estabelecendo fronteiras com o mundo exterior e com o qual só comunica por ligações artificiais, abstractas, sem raízes.

Ora José Afonso, sofrendo o choque destes dois mundos, é absorvido primeiramente por uma escala de valores nitidamente tradicionais: uma praxis reverenciando um passado longínquo, um sonho para a adolescência que presta culto a actos que celebrizaram tal e tal aventureiros duma boémia acentuadamente gratuita. É então que percorre o ciclo da saudade, com seu vocabulário próprio, a custo se movendo numa geografia de elementos míticos – o romântico penedo, a lapa feiticeira, o choupal sonhador – elementos que entrarão na semântica da saudade, não sem ressuscitar as folhas secas de seus antigos tributos prestados ao Romantismo.

De extremo a extremo, Coimbra não tem sossego. Não pelas razões diluídas no fado tradicional, mas por outras bem mais importantes que sobressaem numa realidade urbana, ao rés destas ruas insólitas, narcotizada por secretos venenos, realidade que desafia as palavras e as remete para o seu “país de origem”. E foi este desassossego, diariamente vivido, a pedra de toque para a consciencialização do jovem cantor de fados, que era José Afonso: ausculta então a cidade para lhe conhecer o sangue; e o marcado rigor que circunscreve o polígono citadino, a hostilidade do “clima”, mas sobretudo a vitória nas eleições académicas de 1960, acabam por acentuar a progressiva tomada de consciência de quem, até então, tinha sido apenas o fútil representante dum lirismo deprimido e deprimente.

De facto, a partir de 1960, agrava-se o litígio entre duas formas de conceber o mundo, mesmo o pequeno universo encravado na cidadela. Foi um ano em que as pedras floriram e em que os poetas e cantores saudaram publicamente esse florescimento. Desenvolve-se um processo colectivo de actualização temática e musical das canções coimbrãs (perdendo o seu carácter subjectivo, vêm a enquadrar-se num processo geral de renovamento), na linha do qual se inscrevem os jovens de “Poemas Livres”, Manuel Alegre com “Praça da Canção”, acção em que se empenha toda a academia então vitoriosa. A partir de agora, o estudante conhece o seu papel no devir histórico e a própria “capa negra” se transforma num elemento de luta: Abre-te bem nos meus ombros / vira costas à saudade – cantará mais tarde Adriano Correia de Oliveira.

                                                           *

Redimindo-se da sua antiga expressão, os cantares de José Afonso deixam de aclimatar-se no processo de sacralização do fado de Coimbra. E, o que é mais importante, acabaram por se revelar adversos de tal processo, manifestando-se abertamente contra uma ideologia passadista, conservadora dos pés à cabeça, que tal é a ideologia sobre que assentam as antigas formas (hoje ainda com seus servidores) e o decadentismo das suas proposições: um ambiente patriarcal, um bucolismo desbragado ou, ainda, um ruralismo sentimental – sempre uma evocação do passado em termos de passado.(…)

Parte importante dos seus “cantares” é dedicada às crianças. Na sua vida docente, José Afonso tem contactado intimamente com os meninos “sem condição”, com os meninos do “mal trajar” deste país de mar e sol. Correu com eles nos areais calcinados do Mondego, depois nas dunas algarvias, o suficiente para lhes conhecer as carências de toda a ordem. E se em “Menino d’oiro” parece querer preservar o seu menino de toda a corrupção, levando-o um tanto idealisticamente no seu veleiro, em “Menino do bairro negro” pretende, pelo contrário, enfrentar a humilhação:

                                    Tira os olhos do chão

                                    Vem ver a luz;

ou, com o seu grito de protesto, declarar ao mesmo tempo esta certeza:

                                    Se não é fúria a razão

                                    Se toda a gente quiser

                                    Um dia hás-de aprender

                                    Haja o que houver.

*

O tratamento do tema não é aspecto de menor importância nos “cantares” de José Afonso. É evidente, todavia, que os poemas são expressamente feitos para serem musicados (com algumas excepções, claro), facto que os subordina a uma estrutura rítmica por vezes estranha, embora de belo efeito nas canções. E o que ressalta desde logo é a forma declaradamente popular que imprimiu aos poemas, retomando modelos tradicionais que implicam até a poesia trovadoresca. Esta matéria tradicional tem, contudo, um tratamento específico em José Afonso, particularmente pela feição popular que lhe deseja imprimir, daí resultando uma aproximação efectiva entre o canto e o povo.

Mas restarão dúvidas de que estamos em presença de verdadeiros cantos populares? É evidente que não se trata de cantos escritos pelo povo nem para o povo; mas trata-se de cantares logo adoptados pelo povo, por estarem de acordo com a sua maneira de pensar e de sentir. Isto porque ‘o que distingue o canto popular no quadro de uma nação e da sua cultura… é o seu modo de conceber o mundo e a vida’ (Antonio Gramsci). De facto, ao ouvir-se José Afonso pela primeira vez, há uma pergunta que logo nos acode: – “Que voz é esta, tão nova e substantiva, que imediatamente se nos torna familiar?». De tal modo se identifica com as nossas aspirações que nos parece tratar-se de uma voz que sempre nos acompanhou, connosco percorrendo este “areal onde não nasce o dia”, agora amplificando e dando forma nova aos cantos ouvidos nas duras tarefas do povo.»

O resto, isto é, o que se passou depois de 1966, pertence à História, que, como se sabe, se encarregou de “absorver” o cantor da grande animação cultural que contribuiu não pouco para o processo que rodeou o 25 de Abril, por assim dizer “modelo” do chamado “canto de intervenção” que marcou uma época, deixando algumas raízes que os ventos tendem a varrer. Mas a memória histórica há-de prevalecer.

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