CARLOS DE OLIVEIRA – BIOGRAFIA – IV – O HOMEM E O ESCRITOR – por João Machado

1921 – 1981

 

Com segurança, pode-se dizer que Carlos de Oliveira dedicou a vida à escrita. Em Coimbra mantém um elevado grau de participação na vida cívica e social em geral. Mas quando vem viver definitivamente para Lisboa forma o seu mundo com a família, com os amigos e  com o seu trabalho de escrever. O seu grau de participação cívica é sempre num grau elevado, os processos que estão nos arquivos da Torre do Tombo, provenientes da PIDE/DGS, atestam-no bem. Algumas pessoas, entretanto, dão nota de um  certo retraimento no que respeita a dar conhecer aspectos mais pessoais, ou a fazer uma vida mais pública. Nota-se, por exemplo, no que respeita à participação na vida da Sociedade Portuguesa de Escritores, que Carlos de Oliveira nela intervém activamente, mas nunca quis assumir qualquer cargo.

A participação na vida política começa indubitavelmente ainda na juventude. É já bastante intensa quando se dá a apreensão do seu segundo romance, Alcateia, publicado em 1944, sem passar pela censura prévia. As operações subsequentes, desencadeadas pelas autoridades policiais, decorrem em 1945, ano em Carlos de Oliveira adere ao recém-criado MUD – Movimento de Unidade Democrática.

A sua vida profissional, como escritor, como colaborador de vários jornais e revistas, com particular destaque para a Vértice, como editor, tradutor, funcionário da revista Eva, tem sem dúvida fases mais intensas, outras menos. Mas não há dúvida que, da parte de Carlos de Oliveira há, pelo menos durante uma parte da sua vida, uma relutância, sem dúvida que apenas relativa, à exposição pública. Dá pouquíssimas entrevistas, e evita sempre falar muito sobre si próprio.

A professora Ida Maria Santos Ferreira Alves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Carlos de Oliveira e Nuno Júdice. Poetas: Personagens da Linguagem, em determinado passo (cap. Inventor de Jogos, págs. 121-185), escreve:

Carlos de Oliveira, por opção pessoal, sempre ocupou um espaço social discreto e silencioso, evitando participar de quaisquer encontros ou atividades institucionais, relacionadas com o jogo do poder. Manteve-se fiel ao seu projecto de vida e de arte, evitando que sua história quotidiana se tornasse mais importante que sua obra, por isso raras foram as entrevistas e muito pouco nelas revela o homem do dia a dia que não participava de “tertúlias literárias oficiais” para divulgar imagem e marcar presença no cenário público da Literatura Portuguesa.

Outros testemunhos se poderão citar neste sentido. Mas a ideia que transmite a Professora Ida Maria Santos Ferreira Alves, correcta na sua formulação, não é, nem pode ser, completa. Joaquim Seabra Dinis, no texto já acima referido no Capítulo O Homem e a Vida, publicado na Vértice, no Volume nº 450/1, de 1982, de modo cuidadoso e discreto, dá a entender que a saúde de Carlos de Oliveira não seria a melhor. O escritor não o menciona nos seus contactos por princípio seu. Mas as limitações de saúde terão tido com certeza influência nas suas atitudes. E no seu trabalho. Carlos de Oliveira morreu com 59 anos, quando dele ainda haveria muito a esperar.

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Este texto foi publicado anteriormente em Vidas Lusófonas, sítio na internet criado por Fernando Correia da Silva.

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