CARTA DE BRAGA – “dos desastres e do absurdo” por António Oliveira

Não há ainda muitos meses, ainda antes desta crise de desastres que atingiu este pobre mundo (incêndios, inundações, degelo, fugas de populações e sei lá que mais!), o director económico do norte-americano Institute of Policy Integrity, Peter Howard, garantiu em conferência de imprensa ‘Já não se debate se a alteração climática virá a ter impacto no Produto Nacional Bruto, mas sim quanto!’

E acrescenta, baseado nos seus iniludíveis conhecimentos, ‘A desigualdade aumentará. Não só entre países, o que está demonstrado por muitas investigações, mas também dentro dos países. Quase todas avançam que os efeitos das alterações climáticas golpearão os países mais pobres, mas também as comunidades mais pobres dentro dos países ricos. Os economistas já apoiam agora acções imediatas’.

Não por acaso, um estudo da Universidade de Columbia, que a imprensa estado-unidense raramente referiu, assinalou que no passado mês de Março, o número de pobres nos states, passou de 47 para 55 milhões em consequência da pandemia, que mais de 74 milhões perderam os seus postos de trabalho e a maioria do empregos perdidos, foram nos sectores que pagam salário inferiores aos da média. 

Ao mesmo tempo, também o IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change) avança que os desastres climáticos meteorológicos extremos (inundações e secas) estão, ao aumentar de frequência e intensidade, levarão cerca de 1.400 milhões de pessoas a ser afectadas por ondas de calor quando a temperatura media aumentar 1,5 graus, 2.700 milhões irão ser afectadas pelas cheias e 400 milhões viverão em cidades com deficit no abastecimento de água. 

Estes são alguns dos preocupantes números divulgados estas últimas semanas, mas isso não parece preocupar muito os mais poderosos que, nas palavras de Cândido Milán, professor e analista político, ‘Todas as vidas, para o neoliberalismo, são objecto de cálculo – têm direito a viver os que são rentáveis e os que consomem, se acatam as leis e têm atitudes favoráveis aos poderosos, ou pelo menos não questionem as suas políticas maléficas. Os outros não importam’. 

Este conjunto de crises e desastres ambientais, também nos está a mostrar que solidariedade e as comunidades mais pequenas, onde a fraternidade e o altruísmo, não são palavras ocas, são um dos caminhos que nos pode salvar e, os media trazem pequenas notícias disso todos ao dias. 

A propósito, não posso deixar de trazer para aqui, dois parágrafos de uma das crónicas de Viriato Soromenho Marques do ‘DN’ do passado dia 24 de Julho, ‘Talvez os sobreviventes da próxima Arca de Noé, possam levar para o seu recomeço, algumas lições desta colossal tragédia planetária de que somos, tudo o parece indicar, os exclusivos responsáveis. 

As coisas são contudo mais complicadas. Diabolizar os políticos pela sua venalidade e incompetência, é esquecer que são os cidadãos comuns, nós, que os elegem, e reelegem. Entre a cegueira voluntária, a que aderem até muitos académicos, e o fatalismo, disfarçado de sábia resignação, perante o deslassamento da civilização, há um estreito caminho de reconstrução da acção coletiva, a fazer com rigor político e ético. Para evitar a necessidade da Arca de Noé, ou, no limite, até para permitir que ela volte a flutuar’.

Lembro, por isso mesmo, uma das máximas do pessimista Emil Cioran, ‘Às vezes, para explicar o óbvio, há que fazê-lo através do absurdo’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

2 Comments

  1. Ler-te é saber que estamos sempre em frente da reflexão pedagógica!Não há palavras vãs!Há CAMINHO! Parabéns, meu amigo!

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