FRATERNIZAR – Ainda a morte de Jorge Sampaio – TANTAS LOAS PARA QUÊ?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

 

Por ocasião da sua morte, choveram loas e mais loas ao viver histórico de Jorge Sampaio. Não distinguem – por manifesta incapacidade de quem o faz – o filho de mulher que ele matricialmente é, do filho do Poder em que depressa se veio a tornar. E deveriam distinguir. Bem sei que Jorge Sampaio, como filho do Poder, sempre quis marcar a diferença. Só que com isso, conseguiu até deixar nas populações a falsa ideia de que há um Poder bom e um Poder mau. Quando o Poder é mau por natureza. E uma das mais clamorosas excepções a este seu esforço de marcar a diferença para melhor, acontece em 2004, quando o Primeiro-Ministro Durão Barroso abandona o cargo e o País, para ir assumir o cargo de Presidente da Comissão Europeia. O Presidente Jorge Sampaio, em vez de convocar novas eleições, nomeia Santana Lopes, PSD, como primeiro-ministro, o que deixa o País partidário de então à beira de um ataque de nervos.

Saibam – é oportuno sublinhá-lo, aqui e agora, porque mais ninguém no-lo diz – que a Morte, quando acontece, só mata definitivamente os filhos do Poder. Aos filhos de mulher que todas, todos começamos por ser ao nascer e que assim ousamos manter-nos, vida fora, a Morte mais não é do que o derradeiro parto que nos faz chegar à plenitude da Vida. Pelo que não há quaisquer razões nem para dias de luto, nem para elogios fúnebres. Tão pouco para notícias nos jornais e nas tvs do Poder.

São muitas, muitos, os filhos de mulher que morrem todos os dias. E delas, deles, os grandes media não falam, porque não são do mundo do Poder. Aliás, os grandes media e todos os agentes de turno do Poder não entendem nada da Vida humana. Só quantas, quantos entre os nascidos de mulher nos experimentamos e assumimos, cada dia, fragilidade humana e, consequentemente, fazemos questão de viver na História religados uns aos outros, a cuidar de nós, uns dos outros e do planeta Terra, é que nos experimentarmos Vida-Consciência a caminho da plenitude, tal como os rios vão a caminho do Oceano. Com a diferença de que em nós toda esta realidade é vivida-celebrada de forma consciente e feliz.

Só a Morte das filhas, dos filhos do Poder, por isso, seus agentes históricos, é o fim definitivo de cada um deles. Daí todo o frenesim e todo o reboliço dos jornais e das tvs, os comentários de outros filhos do Poder ainda no activo, os dias de luto nacional – três, no mínimo! – o ruidoso velório à volta do cadáver em exposição, as lágrimas de crocodilo derramadas perante as tvs, com louvores, à mistura, com as mais que estafadas declarações de que essa morte constitui ‘uma perda irreparável’. Falam assim, porque não entendem nada da Vida. Nem vêem que o Poder depressa arranja outro agente seu para ocupar a cadeira deixada momentaneamente vazia.

No que respeita à morte de Jorge Sampaio, gostei, concretamente, de dois pormenores que nenhum dos grandes media pôs em evidência. O primeiro tem a ver com a hora da sua mais do que esperada morte, desde que ele havia sido internado de emergência num dos Hospitais de referência na capital. Acontece pouco depois de todos os matutinos do país, em suporte papel, terem acabado de parar as rotativas. Vai daí, as grandes manchetes com fotos a condizer só puderam aparecer quase 24 horas depois!… O que, nestes nossos dias de informação ao segundo, representa um fiasco de todo o tamanho para este tipo de jornais e respectivas empresas que insistem em prosseguir neste tipo de jornalismo.

O segundo pormenor tem a ver com a total ausência de clérigos no funeral do cadáver que Jorge Sampaio, como qualquer outro nascido de mulher, deixa, ao tornar-se definitivamente invisível aos nossos olhos. Com esta sua opção, deixa bem claro ao país e ao mundo que os clérigos, mai-las suas missas e os seus ritos são coisas do passado que nunca deveriam ter sequer existido. E se os clérigos católicos e não-católicos não querem ouvir Jesus histórico, ‘Deixa que os mortos sepultem os seus mortos’, oiçam, ao menos, Jorge Sampaio e outros filhos de mulher consequentes quanto ele no que respeita aos respectivos cadáveres que deixam, quando a Morte, ao chegar, nos torna a todas, todos, definitivamente invisíveis aos olhos. Pena foi que ele não tivesse também deixado escrito que não queria funeral de Estado para o seu cadáver. Assim, foi o ‘show’ fúnebre mediático que se viu e ofendeu o País.

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