CARTA DE BRAGA – “de papéis e estórias” por António Oliveira

É Setembro, tempo de arrumar apontamentos, citações de livros e leituras diversas, de arrumar papéis, recortes, páginas soltas de jornais, revistas que até primam nos anúncios, mesmo as mais ‘sérias’, deitar fora outras semelhantes, separadas, mas já ‘fora de prazo’, por ser este o meu mundo, aquele que me permite ir vivendo, escrever para respeitar compromissos e poder actualizar memórias, minhas e alheias, importantes. 

Sei bem que o computador e todas as bibliotecas, hemerotecas e arquivos a que eventualmente posso ter acesso, me poderiam facilitar a vida, mas sou pessoa vinda da leitura e da escrita em papel, toda a vida mexi em papel para estudar, trabalhar, comprar o bilhete para o cinema, para o teatro ou mesmo para o autocarro, pelo que a mostra de um minúsculo ecrã ou qualquer outro e actualizado ‘truque’ tecnológico, quase me parece só uma artimanha, com reflexos imediatos na minha boa-disposição. 

E confiro, reconfirmo e torno a fazer contas às quantidades de barreiras que se baixam à passagem do carro nas autoestradas, nos ‘pis’ que me confundem quando passo debaixo dos pórticos nas outras que deviam ser de passagem livre, quando recebo a factura no final do mês, por não ter os recibos em papel das passagens para conferir, por ‘eles’ também os descuidarem nos parkings da cidade, onde carregamos os tickets da entrada entre os dentes, para os meter na ranhura à saída, mas só os vejo a monte no chão, por nunca eu nem ninguém, conseguir acertar no cesto onde deveriam ficar. 

Convém não esquecer que ao longo da história, tudo foi sendo gravado, desde as mãos impressas nas paredes das cavernas, aos punções e pontas afiadas com que se fizeram os primeiros desenhos, a apelar à decifração e à leitura, ao pau de carvão ou à pena de uma ave afiada na ponta para as primeiras letras, depois chegou a imprensa para facilitar a vida e passar ao papel toda a riqueza da cultura oral e dos grandes pensadores da Humanidade, os clássicos a que ainda hoje recorremos a miúde, mostrando como as ideias ‘baixam’ da mente para as mãos, assim fazendo do homem, um ser único e universal. 

Agora temos de acertar em ranhuras, muitas vezes à pressa para não ouvir o apito do fulano que vem atrás, quando nunca fomos treinados para essas coisas e conseguir acertar nelas, atrapalhados pelos cintos de segurança e sempre sem atinar com a distância entre a mão e tal encaixe. 

Até neste pequeno pormenor se pode ver uma passagem para o pensamento de Zygmunt Bauman, ‘Não há modernização (portanto, tão pouco forma de vida moderna) mas sim uma massiva e constante produção de lixo, entre ela a de indivíduos lixo, definidos como excedentes’.

É bem evidente que as transformações na área social, cultural, económica ou tecnológica, marcam de diferentes maneiras as sociedades onde ‘caem’. Temos bons exemplos por este país, de norte a sul, desde o assinalável abandono do interior há algumas dezenas de anos e a óbvia troca pelos arrabaldes das grandes cidades e, hoje, o processo inverso devido à gentrificação, à gritante desigualdade social, à poluição do fumo, do CO2 e dos plásticos, mais a invasão barulhenta dos transportadores de tróleis, à procura das ‘novidades’ que viram no face, no twitter, no instagram ou no novel tiktok

É verdade que os nossos actos não deviam depender do juízo nem do critério dos outros, nem do agrado que lhes possam dar, pois, seguindo Séneca, devíamos tentar fazer as coisas de acordo com os nossos próprios critérios de benignidade, só tendo em conta a sensatez, mas dispostos a usar os dons da sorte, sem nunca sermos seus escravos (é mesmo muito complicado atinar nos números do milhões!).

E, também por isso e pelas ‘exigências’ dos tais ‘truques’ da tecnologia que tão dificilmente compreendo, (vou tentando aprender a carregar nas teclas dos mais simples!) por ser quase um analfabeto digital e, até por estarmos em Setembro, o tal mês para arrumar papéis e apontamentos, não posso esquecer do que escreveu um dia, o saudoso Eduardo Galeano, ‘Os científicos dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho disse-me que estamos feitos de estórias’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

2 Comments

  1. Meu amigo, sou como tu: preciso do toque e do cheiro para me sentir “lá”…Se um livro não estiver debaixo dos olhos, sinto-me perdida….Uso o teclado, é claro, uso os novos meios, mas saborear as letras, as ideias, só com papel…E esta, hein? Abração para ti…para vós!

  2. Às vezes sinto que o tempo já passou por mim, quando os vejo de tlmvl na mão qualquer que seja o lugar, trocando as palavras por teclas e as conversas por imagens!
    Estou muito longe de os censurar, são assim, sentem-se bem assim, mas eu também não!
    Gosto de um poeta que me fale com versos, para eu ler o que ele não escreveu, e isso nunca estará no
    ridículo ecrã de um tlmvl, falta-lhe o aroma de um livro mil vezes folheado!
    Abração pela leitura e pela vossa amizade!
    Abração enorme, também
    A.O.

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