Ainda os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 4ª parte – Obstáculos de Biden – 4.4. Mitch McConnell sai-se com a sua com uma perigosa tática sobre o limite da dívida. Por Alex Shephard

                                                                                                Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 


Nota de editor: este texto, ao invés dos três anteriores sobre as dificuldades levantadas por representantes e senadores do partido Democrata, põe em evidência as manobras, perigosas, levadas a cabo pelos Republicanos, através do seu líder no Senado, Mitch McConnell, com o objetivo de levar o partido Republicano a ganhar as eleições intercalares, mesmo que isso signifique o risco de uma crise económica.


4.4. Mitch McConnell sai-se com a sua com uma perigosa tática sobre o limite da dívida

O líder da minoria do Senado está feliz por arriscar o colapso económico se com isso ajudar o Partido Republicano nas eleições a meio do mandato presidencial.

 Por Alex Shephard

Publicado por em 23 de Setembro de 2021 (ver original aqui)

 

Foto por SAUL LOEB/AFP/GETTY IMAGES

 

Lá vai ele outra vez. Mitch McConnell, o líder da minoria do Senado e o chefe niilista do Partido Republicano, tem um plano caracteristicamente cínico para o limite máximo da dívida. O líder da minoria do Senado insistiu que ele e o seu partido não levantarão um dedo para aumentar o limite da dívida, agora que se aproxima a data limite para o fazer. Democratas e Republicanos juntaram-se durante anos para prevenir esta crise – é necessário evitar que o governo entre numa situação de incumprimento catastrófica.

Mas já não, ao que parece. Nos últimos anos, as manobras o limite máximo da dívida tem sempre incorrido num custo político para o partido que conduz o país à beira do incumprimento. O facto de McConnell ter recrutado 46 senadores do Partido Republicano para o seu Esquadrão Suicida sobre o incumprimento da dívida sugere que algo diferente está em curso: Estas negociações sobre o limite máximo da dívida são melhor entendidas como um elemento chave na estratégia de médio prazo do Partido Republicano, com a qual McConnell espera que o Partido Republicano possa retomar as maiorias no Congresso e voltar a fazer o que sempre fez melhor: Nada.

No passado, poderia esperar-se que McConnell – como eu esperei no início deste ano – mascarasse a sua decisão de ameaçar a América com uma quebra do limite máximo da dívida em termos ideológicos, o alarmismo sobre a dimensão do défice e os planos de despesa dos Democratas como desculpa para não votar a favor do aumento do limite máximo da dívida. Isto estaria certamente de acordo com a abordagem de longa data de McConnell à política de Washington. Mas estes eventos perenes sobre o limite máximo da dívida sempre convidaram os legisladores a serem cínicos. Aumentar o limite máximo da dívida pode parecer que o Congresso está a dar a si próprio permissão para gastar adicionalmente mais dinheiro mas, na realidade, apenas reflete um compromisso de compensar despesas passadas, com as quais o Congresso já concordou – tal como por exemplo a redução massiva do imposto sobre as empresas que McConnell ajudou a aprovar no Senado há quatro anos. A confusão sobre este facto sempre permitiu que os legisladores falcões se entregassem a alguns malabarismos sobre o défice, nos quais vários membros se gabam de poderem gastar. No final, os votos para evitar a destruição estão sempre presentes. Na verdade, Mitch McConnell disse uma vez que tinha o dever para com o país de ser um desses votos.

Mas McConnell está agora a jogar um jogo completamente diferente, e a elaborar novas regras aparentemente em cima do momento. “Deixem-me deixar isto perfeitamente claro. O país nunca deve  entrar em incumprimento. O limite máximo da dívida terá de ser aumentado. Mas quem faz isso depende de quem o povo americano elege”, disse McConnell ao Punchbowl News. Esta é uma abordagem nova e bizarra no sistema político americano. Na versão de McConnell, porque os Democratas ocupam a Casa Branca e têm maiorias apertadas na Câmara e no Senado, são os únicos responsáveis por encontrar os votos para aumentar o tecto da dívida, como se essa fosse de alguma forma a vontade do povo, que agora – segundo McConnell – deveria pagar um preço económico por não ter eleito mais senadores democratas.

Tudo isto é manifestamente absurdo, mas McConnell está a sair-se com a sua porque a sua estratégia se baseia, corretamente, na impotência dos democratas e nas disputas internas [dos Democratas] sobre que partes da agenda Biden, sob a forma de um projeto de lei de infra-estruturas e de um pacote de reconciliação orçamental, serão aprovadas. Ao recusar o apoio do partido Republicano, McConnell forçaria os democratas a aumentar o limite máximo da dívida através da reconciliação orçamental, o mesmo processo de que necessitarão para aprovar a sua lei de despesas de 3,5 milhões de milhões de dólares. Os democratas já enfrentam um desafio difícil, mantendo os moderados e os progressistas unidos em ambos os projetos de lei; se um aumento do tecto da dívida, que deve passar para evitar o incumprimento, se afundar em confusão, a já frágil coligação democrata poderia dividir-se ainda mais.

Como Paul Kane, do The Washington Post, escreveu na semana passada, o objetivo de McConnell é “manter as mãos do Partido Republicano limpas de todas estas novas despesas antes das eleições intercalares de 2022”. O facto de os meios de comunicação social tomarem isto sem mais explicações – lembre-se, o aumento do limite máximo da dívida corresponde apenas ao dinheiro que o Congresso já concordou em gastar – é uma grande vitória para o líder da minoria, uma vez que ninguém está a atirar à cara de McConnell os cortes de impostos do Trump que aumentam o défice. Que isto também acrescenta uma considerável discórdia à agenda democrata sem que ele tenha de tomar qualquer posição real sobre os pormenores dessa agenda é um bónus adicional.

Vale a pena insistir nos riscos envolvidos. Se o Congresso não conseguir aumentar o limite máximo da dívida e os Estados Unidos não cumprirem o seu dever, a maioria dos especialistas concorda que isso resultaria numa recessão económica mundial. A economia dos EUA, ainda na sua frágil recuperação pós-Covid mergulharia na recessão. Um relatório do economista-chefe da Moody Mark Zandi considera que seis milhões de pessoas poderiam perder os seus empregos num colapso que destruiria 15 milhões de milhões de dólares na riqueza das famílias – e este relatório pode de facto subestimar os riscos. A economia global, que depende da estabilidade das obrigações do Tesouro dos EUA, poderia abrir uma enorme cratera, criando uma situação pelo menos tão má como o colapso económico de 2008.

Este é, talvez, o momento perfeito para McConnell jogar a cartada do limite de endividamento. Ele beneficia dos meios de comunicação que têm dificuldade em compreender o conceito abstrato de um tecto de dívida, e de um Partido Democrata que está atualmente a ter dificuldades em chegar a acordo para aprovar a sua própria agenda. O golpe mais brilhante pode ser que embora McConnell esteja absolutamente certo de que os Democratas não precisam dos votos do Partido Republicano para evitar a crise, ele sabe que eles estão a ter fortes dificuldades em lidar com os atritos no interior do Partido sobre este tema, e em sobrecarregar os legisladores Democratas com um fardo adicional que poderia aumentar todas as tensões que atualmente ameaçam ficar a ferver. De acordo com o jornal Politico, as sondagens oferecem a McConnell um impulso adicional: A última sondagem Politico/Morning Consult indica que “mais eleitores culpariam os democratas do que os republicanos se os EUA incumprissem na sua dívida”.

McConnell elaborou uma estratégia política desonesta para ajudar o Partido republicano a voltar a ganhar o Congresso: Forçar os Democratas a fazer tudo, mesmo coisas que (na sua maioria) têm sido feitas de uma forma bipartidária durante anos. Depois atacá-los por o fazerem, tudo isto enquanto fingem serem eles o modelo do bom senso orçamental. É uma jogada imprudente: Está a arriscar a economia global, tudo na esperança de ganhar alguns lugares. Os democratas, é claro, podem agir unilateralmente para impedir isto, sempre que quiserem. O facto de permanecer em aberto a questão de saber se eles o farão é a razão pela qual McConnell tem a oportunidade única de fazer esta jogada perigosa.

 


O autor: Alex Shephard é redator da equipa de The New Republic desde 2015. É licenciado pela faculdade de Oberlin, Ohio, EUA.

 

 

 

 

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