CARTA DE BRAGA – “de postais e agapantos” por António Oliveira

Já não há quem escreva um postal!

Já não há quem escreva, ali, nas costas de uma bonita fotografia a mostrar a casa solitária de um monte, uma flor, um pássaro ou o recanto de um rio, para a mandar assim, mais umas palavras descobertas, nuas, sem qualquer resguardo, a dizer de quando iria, das saudades, do sítio onde vivia ou perguntar quando viria, de todas aquelas coisas simples, ingénuas e belas, a que o digital, o mail e o telemóvel, vieram a dar um fim inglório e quase indiferente.

Lembrei-me da magnífica estória ‘Ninguém escreve ao coronel’, onde Garcia Marquez, conta da ironia com que o carteiro referia, todas as sextas feiras, dia em que distribuía a correspondência, mas nunca a carta com a reforma daquele aposentado militar. 

Ali, como em todas as cidades pequenas deste país, antigamente avaliava-se a importância de uma pessoa, pelo volume de cartas e postais que recebia e, as fotografias dos postais, até permitiam avaliar a ‘categoria’ dos seus conhecimentos. 

Tudo era ajuizado num postal, a foto, a escrita direitinha, as palavras que estavam ao alcance de qualquer, a colocação, a origem e a cor do selo, mas o mais importante era a foto, por mostrar quem seria o remetente, avaliado pela ‘arte’ do fotógrafo das flores, das ruas e mesmo da ingenuidade ou do ‘naife’, das pinturas fotografadas. 

E quanto mais diversificada fosse a origem dos postais, mais aumentava a consideração pelo destinatário, mas muito longe estavam todos, como o carteiro de Garcia Marquez, de imaginar como a virtualidade do digital, acabou com o ‘encanto’ do postal, escolhido com desvelo pelo mandante, a pensar no apreço do recebedor. 

Estas divagações nascerem de ter visto um senhor, há já algum tempo, armado de uma vara com um cortador em estrela rotativa na ponta, afadigado e a dar cabo de um grande canteiro cheio do azul das flores de agapantos, que até dariam boas fotografias para bonitos postais, ou óptimas imagens para passar nos tempos mortos dos canais das televisões, mas já ninguém quer saber dessas coisas. 

E o tal senhor deu cabo daquilo tudo, pois o cortador da ponta da vara também cortou as raízes, tirando-me a possibilidade de tornar a ver o azul das flores dos agapantos no jardim da minha vizinha, onde agora impera um arbusto de que não sei a marca, cheio de folhas, mais uma palma incipiente ainda a começar a vida. 

Esta estória é demasiado simples e banal para se poderem tirar grandes conclusões, mas evocando o jornalista e escritor Manuel Vicent, ‘O ordenador já é, em si mesmo, uma forma de pensar, de criar, de imaginar. E também de ler!

Quem nota a falta de um modesto postal, quando o telemóvel (já um ordenador de tamanho reduzido!) pode transmitir todas aquelas coisas ao vivo e a cores?

Mas não me esqueço destes versos de Fernando Pessoa, tão simples como os postais de outros tempos:

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios

 

Mas já não se escrevem nem se recebem postais, como antigamente!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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